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Professores, sindicalistas e estudantes em ato público contra violência nas escolas

Escrito por Caroline Santos Ligado . Publicado em Rede Estadual

Educadores, sindicalistas e estudantes, participaram de ato público em frente ao Palácio de Despachos e fizeram uma caminhada até a Secretaria de Estado da Educação. Na pauta, o fim da violência nas escolas. O ato foi motivado pelo episódio ocorrido na noite da última terça-feira, 12, onde o professor de Biologia, Carlos Cristian foi alvejado com três tiros disparados por um estudante.

“O SINTESE chamou professores e estudantes para este ato conjunto para cobrar ações efetivas do poder público em relação à violência, pois entendemos que tanto os educadores quanto os estudantes são vítimas de uma política educacional excludente. É preciso que se tomem providências, pois questionamos, como o jovem estudante tem tido acesso a armas e drogas? Se faz necessária uma política de segurança pública que coíba esse tipo de violência, e uma política educacional que socialize e integre, pois não podemos admitir a criminalização de professores e estudantes", afirma Ângela Maria de Melo, presidenta do SINTESE.

Os educadores, sindicalistas e estudantes demonstraram indignação sobre a realidade da educação pública sergipana que vive a situação de total ausência de políticas públicas e de projetos político-pedagógicos construídos coletivamente no chão da escola. “Não há diálogo nas escolas, professores, estudantes, funcionários, equipe diretiva não conversam entre si. Há uma falta tremenda de um ambiente democrático. Gerando por vezes duas ou três escolas dentro de uma só”, aponta o diretor de Comunicação do SINTESE, Joel Almeida.

Educadores da rede municipal de Aracaju e o sindicato da categoria, Sindipema – Sindicato dos Profissionais do Ensino do Município de Aracaju também participaram do ato. “Estamos solidários a essa luta, pois, infelizmente a falta de segurança e de política pública para a Educação e para a Juventude tem sido a tônica ocorrida em Sergipe nas últimas décadas”, aponta o presidente do Sindipema, Adelmo Menezes.

Representantes da Central Única dos Trabalhadores, do Sindicato dos trabalhadores em Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação de Dados do Estado de Sergipe - Sinditic, Sindicato dos Vigilantes e do Movimento Nacional de Direitos Humanos foram prestar solidariedade e também exigir uma mudança na política pública de Educação.

Jairo de Jesus, pres. do SinditicJairo de Jesus, pres. do Sinditic

“Não podíamos nos furtar de participar de um ato em defesa de uma escola pública de qualidade. A falta de segurança também é vivida em outros estabelecimentos públicos. É preciso que cobremos dos governos políticas públicas para garantir a segurança e que fatos como o ocorrido não se repitam”, aponta Jairo de Jesus, presidente do Sinditic.

O vereador por Aracaju, Iran Barbosa, a deputada estadual Ana Lúcia e a professora da Universidade Federal de Sergipe, Sônia Meire também participaram do ato e prestaram a sua solidariedade a professores e estudantes.

No decorrer do ato o cantor Rogério, que faleceu na madrugada de terça para quarta foi homenageado.

CUT, SINTESE e Sindipema são recebidos pelo secretário da Casa Civil

Representantes da CUT, SINTESE e Sindipema, acompanhados da deputada estadual Ana Lúcia (que articulou e mediou a audiência) foram recebidos pelo secretário de Estado da Casa Civil, José Sobral. Na audiência foi colocado que todos os problemas que acarretam a educação em Sergipe são provocados, essencialmente, pela total ausência de políticas públicas e que nenhuma forma ou expressão de violência pode ser naturalizada, muito menos tratada de forma descontextualizada das graves questões sociais onde as comunidades escolares estão inseridas ou tratadas apenas com medidas individualizadas de repressão. No caso específico das ocorridas nas unidades de ensino, se sabe que nesses espaços são refletidas as mazelas da sociedade.

A representação do SINTESE defendeu que o atual modelo de gestão precisa ser transformado, daí a luta da categoria por uma efetiva gestão democrática da escola. A organização, a estrutura, o funcionamento e a gestão do Sistema Educacional de Sergipe precisam ser urgentemente repensados. Para o sindicato, o vazio pedagógico não pode continuar sendo a marca promotora da Secretaria de Estado da Educação.

Os representantes colocaram ainda que problemas tão graves da educação não podem continuar sendo tratados apenas a partir da responsabilização do professor ou do estudante, ou mesmo, por consta de um episódio catastrófico como o que ocorreu com Carlos Cristian.

Dessa forma foi solicitado que se criasse uma comissão com a participação da Universidade Federal de Sergipe, do governo do Estado, através das secretarias de Educação e demais secretarias e órgãos que tratam das questões sociais para que conjuntamente seja construída uma proposta de educação para Sergipe que possa dar conta de superar o vazio pedagógico que acontece em nossas escolas.

Caminhada

Dizendo “vamos lutar e resistir, a violência não pode persistir” todos seguiram em caminhada até a sede da Secretaria de Estado da Educação - SEED e também adentraram ao prédio com o objetivo de serem recebidos pela titular da pasta.

A audiência ocorreu ainda pela manhã e contou com a presença de membros da direção do SINTESE, professores, estudantes e da equipe gestora da SEED.

A presidenta do SINTESE ressaltou que se faz necessário democratizar as relações na escola, discutir quais formas para que o professor e o estudante não sejam criminalizados e vitimados. “Tenho certeza que o atual modelo pedagógico precisa ser discutido, a escola precisa ser um espaço onde a democracia seja exercida em seu cotidiano, que haja oportunidade para socialização e interação”.

O diretor de Comunicação do SINTESE, Joel Almeida disse que é preciso ouvir muito e refletir muito, pois pelo que se apresenta, os gestores da Educação, os professores, os funcionários e as equipes diretivas das escolas não estão preparados para a atual conjuntura das relações sociais e educacionais. “O educador está desassistido. Nós não desistimos da nossa escola, só não sabemos o que fazer”.

“É preciso criar espaços de discussão da prática pedagógica, pois há uma flagrante ausência de debate nas escolas. É preciso ir às escolas da rede estadual e abrir um devate que envolva estudantes, funcionários, professores, pais para que se debata a violência, que é um problema histórico e o governo precisa compreender que é necessário criar um cronograma de discussão de política pública”, aponta a vice-presidenta do SINTESE, Ivonete Cruz.

A professora de Geografia da rede estadual em Lagarto, Alizete dos Santos colocou que é flagrante a falta de uma política de incentivo ao professor e ao estudante.

Profa. Alizete dos SantosProfa. Alizete dos Santos“Tenho um ano meio que leciono na rede estadual e em nenhum momento houve um encontro entre os professores para debater qualquer assunto. Até hoje o único momento de encontro, debate e formação que tive foi promovido pelo SINTESE”.

O estudante do segundo ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Presidente Emílio Garrastazu Médici, Daniel David Vasconcelos Matos foi enfático ao dizer que não há estímulo para o estudante permanecer na escola. “Quando se começa algum bom trabalho ele não é continuado, seja por falta de estrutura ou por falta de gente para trabalhar. Precisamos nos sentir bem na escola e não ir para lá porque nossos pais nos obrigam”, disse o estudante.

Daniel David Vasconcelos Matos, estudante do Ensino MédioDaniel David Vasconcelos Matos, estudante do Ensino Médio

A direção do SINTESE acredita que diante desse cenário é urgente que as escolas públicas de Sergipe não se tornem notícia apenas a partir de acontecimentos trágicos. É urgente que a escola se torne um espaço de socialização do saber construído coletivamente. Por isso exigimos a Gestão Democrática dos Sistemas de Ensino e o compromisso do governo e da Secretaria de Educação na construção de uma escola pública de qualidade social que forme cidadãos livres e felizes.

Ao final da audiência com a secretária de Educação ficou definida a criação de uma comissão que vá às escolas, ouvir a comunidade escolar. Neste início a comissão terá representação dos professores, pais, estudantes e SEED. A primeira reunião para definir cronograma de trabalho será na próxima terça-feira, 19, às 9h na SEED.