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Educação e disciplina: binômio contraditório? Com a palavra Miguel Arroyo

Escrito por Caroline Santos Ligado . Publicado em Violência na Escola

Esta entrevista foi publicada em 2002 na revista Nós da Escola, que até 2008 foi distribuída pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro aos professores.

O tema da entrevista foi a indisciplina escolar que é apontada por grande parte dos professores como uma das causas do baixo rendimento dos alunos. Uma variedade enorme de comportamentos dissonantes, imprevistos e inadequados são classificados como indisciplina e o tema ocupa lugar de destaque na lista de reclamações feitas pelas escolas às famílias de seus alunos e vice-versa.

Essa visão maniqueísta que contrapõe disciplina/bom aluno e indisciplina/mau aluno é contestada, no entanto, por Miguel González Arroyo, Ph.D. em Educação pela School of Education da Universidade de Stanford e ex-professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para ele, a indisciplina, a inquietação e o questionamento sempre foram qualidades da infância, da adolescência e da juventude de todos os tempos: Coitada da escola ou da sociedade em que a infância ou juventude perderam o questionamento e a inquietação.

Para Miguel Arroyo, a escola ou a família que entendem a indisciplina ou a disciplina como problema apontam para o fracasso do trabalho dos professores: Culpar de violentos os alunos e filhos é uma irresponsabilidade.  Em sua avaliação, o maior problema é as escolas rotularem como indisciplinados os alunos oriundos das camadas menos favorecidas, nomeando-os com termos pejorativos: Mais grave do que isso é que muitos docentes das escolas populares também são filhos e filhas do povo, das camadas mais baixas. Seria bom lembrar dos valores e da dignidade das famílias e comunidades onde nasceram, se criaram e se educaram. Em entrevista à Nós da Escola, Arroyo aprofunda esta discussão.

Nós da Escola: Qual o conceito de disciplina na escola?

MIGUEL: Disciplina e educação. Como unir dois processos tão desencontrados? Que significado pode ter para um docente quando se pensa como educador e para uma escola quando se pensa como educandário? Falar em disciplina? Educar para a disciplina? Educar seria disciplinar? Confesso que tenho dificuldade em encontrar qualquer relação entre educar e disciplinar seres humanos. Como educador, sou contra qualquer uso da educação para disciplinar crianças, adolescentes ou jovens. Penso antes em Paulo Freire, na educação como aprendizado da liberdade.

Nós da Escola: Onde está o problema da disciplina? No aluno? No professor? Na escola? Na família ou na sociedade?

MIGUEL: Quando a escola, a família ou a sociedade passam a entender a disciplina ou indisciplina como problema da infância ou da adolescência é um grave indicador do nosso fracasso como educadores(as). Quando uma família, um educandário, uma sociedade são violentas com suas crianças, adolescentes ou jovens, como esperar que eles (as crianças) não aprendam essas lições? A sociedade é violenta, indisciplinada, dominada pela procura de lucro. A concorrência somente submete o povo ao desemprego, ao subemprego. Os horizontes humanos se fecham para nossos adolescentes e jovens. Há violência maior? A infância é jogada nas ruas para sobreviver a qualquer custo. As famílias e escolas padecem essa violenta indisciplina social. Por vezes a reproduzem. Inclusive na rigidez das escolas. Como esperar que essas crianças, adolescentes e jovens sejam ordeiros e bem-comportados? Os adultos recolhem o que semeiam. Culpar de violentos(as), os alunos(as), os filhos ou filhas é uma irresponsabilidade.

Nós da Escola: Os professores falam em alunos indisciplinados, os alunos falam em professores bravos. Podemos sair desse olhar mútuo, deixar as acusações mútuas e pensar nas responsabilidades do convívio escolar?

MIGUEL: Primeiro devemos começar por superar essa visão saudosista de que nós fomos filhos e alunos mais disciplinados. A indisciplina, a inquietação, o questionamento sempre foram qualidades da infância, da adolescência e da juventude de todos os tempos. Coitada da escola, ou da sociedade em que a infância ou a juventude perderem o questionamento e a inquietação. Só nos cemitérios e nos campos de concentração, ou nas ditaduras (lembram do filme “A vida é bela”?) encontraremos essa disciplina. Somente em escolas ou salas de aula que viraram cemitérios encontraremos essa disciplina. Encontraremos corpos infantis e juvenis cheios de vida disciplinados, silenciosos, quietos, parafusados em suas carteiras, rígidos, olhando para a nuca do colega da carteira da frente. Esse sonho nada tem de pedagógico. Todos sabemos de milhares de educadores e educadoras e de escolas que têm orgulho de educar crianças, adolescentes e jovens vivos, questionadores e estimulam essa vida, problematizam seus questionamentos. Educadores(as) que reinventam, como Paulo Freire, a pedagogia problematizadora, libertadora. É possível um convívio escolar humano. Conheço inúmeras escolas onde reina um clima alegre, humano, construído com empenho por educadores e educandos.

Nós da Escola: Quais são os alunos vistos como indisciplinados?

MIGUEL: Os pobres, os filhos e as filhas dos setores populares. Os mesmos que a mídia e as elites vêem como violentos e indisciplinados. Na escola, com freqüência, nos deixamos contaminar pelo olhar negativo que nossa sociedade excludente tem do povo, dos trabalhadores, dos negros, dos milhões de cidadãos que essa mesma sociedade condena à miséria e à sobrevivência mais elementar e ainda espera que fiquem bem-comportados. A nossa cultura escolar e docente se deixa contaminar facilmente pela cultura elitista que vê o povo como incivilizado, sem cultura, sem valores, sem disciplina. Nomeamos nossos(as) alunos(as) com termos pejorativos: repetentes, evadidos, lentos, desatentos, violentos, indisciplinados, carentes, sem caráter, sem hábitos morais… Se houver ainda educandários e docentes que vêem os(as) filhos(as) do povo com esse olhar tão negativo deveriam reconhecer que não têm preparo para serem nem educandários nem educadores. O mais grave é que muitos docentes das escolas populares são também filhos(as) do povo. Seria bom lembrar dos valores e da dignidade das famílias e comunidades. Onde nasceram, se criaram e se educaram. Talvez a indigna condição de docentes nos desumanizou? Renunciamos a nossa origem?

Nós da Escola: Como os(as) educadores(as) podem repensar seus valores e sua cultura profissional para trabalhar com alunos(as) das classes tidas como violentas?

MIGUEL: Reaquecendo os valores e a cultura popular de origem em que muitos(as) nasceram e passaram sua infância, adolescência e juventude. Trazendo a sua memória os valores e a dignidade de suas famílias, de suas comunidades trabalhadoras e negras. Reagindo violentamente aos valores e à cultura das elites violentas que mantêm o povo na miséria, no desemprego e no desespero e quando esse mesmo povo luta e reage por dignidade é pichado de violento. Pensemos como categoria docente que também é mantida no limite de salários de sobrevivência por essas mesmas elites no poder, o que temos em comum com os valores e a cultura das elites que nos violentam? Faz mais de 20 anos que a categoria docente, da escola pública popular sobretudo, é tida como violenta, indisciplinada, por quê?

Porque luta por sua dignidade. Talvez esta nossa história docente nos ajude a entender que essa é mesmo a cultura política, social e pedagógica que condena a impaciência do povo como violência. Será essa a mesma cultura que nos contamina a ponto de condenarmos nossos(as) alunos(as) como violentos, indisciplinados? Por que não termos um olhar pedagógico e ver em sua indisciplina a procura da mesma dignidade, dos mesmos direitos pelos quais nós docentes lutamos? Se nossa indisciplina é um valor de que nos orgulhamos, reconheçamos os valores da indisciplina dos educandos.