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"A melhor coisa que nós fizemos foi eleger a Dilma"

Escrito por Bárbara Nascimento Ligado . Publicado em Entrevista da Semana

Republicamos a entrevista concedida por Alípio Freire durante o XIII Congresso Estadual dos Trabalhadores em Educação do Sintese, Alipio Freire, jornalista do Brasil de Fato, fala sobre a atual conjuntura política, o papel da mídia e defende a criação dos conselhos de comunicação social.

Sintese: Na sua fala o senhor fez uma análise do último processo eleitoral e deixou bem claro o que representou a candidatura de José Serra (PSDB) e como sua vitória seria perigosa para o Brasil. Mas fica a pergunta: as alianças do PT, tomando como exemplo o Michel Temer (PMDB) vice de Dilma Rousseff, candidata eleita, não colocam em dúvida os possíveis avanços esperados pela classe trabalhadora?

Alipio Freire: Olha, no meu ponto de vista a aliança feita pelo Partido dos Trabalhadores é extremamente ampla, digamos assim. Agora o grande problema com as alternativas que se colocaram é que com uma você tem algumas possibilidades e com a outra não se tem nenhuma possibilidade. Alianças com figuras como o Sarney não são desejáveis pro PT, não só o Sarney, ele é o emblemático. O problema é que o José Serra fez aliança com o DEM, que é o antigo PFL, o antigo Arena e que, um dos seus próximos declarou publicamente: “estamos no Brasil e no poder desde que as caravelas chegaram” e construíram o país com essa desigualdade, corrupção e tudo isso que estamos herdando ainda. Segundo, é público, não estou inventando nada, nem falando nada de partido nenhum: o candidato José Serra se reuniu em São Paulo com o Comando de Caça aos Comunistas, o famigerado CCC que foi um dos organismos paralelos de repressão – organizando campanas, efetuando seqüestros, não eram prisões porque não tinham mandado judicial, cárceres clandestinos de tortura – e com a organização Tradição Família e Propriedade (TFP). Junto com isso ainda trouxe os integralistas e os monarquistas. Então veja, se do outro lado nós podemos ter algumas dúvidas, do José Serra já temos certeza. A Dilma pode ter e efetivamente tem limites, o programa do Partido dos Trabalhadores também, tudo bem. O problema é que o José Serra não tem limites, nem políticos, nem éticos, nem morais. Então, eu acho que a melhor coisa que nós fizemos foi eleger a Dilma nesse momento, as outras discussões nós pautaremos daqui pra frente.

S: E sobre as alianças da direita encabeçada pelos Tucanos?

AF: Quando eu falo de José Serra e dos aliados deles eu estou pensando que na Suécia a ultra-direita elegeu representantes ao parlamento - isso provocou manifestações em massa e nada foi divulgado -, na Holanda não só elegeu como há possibilidade até de formar maioria no parlamento holandês, na verdade são grupos paramilitares! Na França, todo esse ódio aos ciganos, em toda a Europa e nos Estados Unidos a questão do trabalhador estrangeiro, que é a mesma que se criou com os nordestinos. Esse filme eu já vi, é o filme do fascismo, não é outro e esse eu não quero ver de jeito nenhum. Prefiro trabalhar com os limites de cá, discutir e ver a cada momento por onde avançar. O problema chave é você governar e travar suas batalhas simplesmente nas instâncias institucionais. Outro ponto é que é preciso organização dos trabalhadores nos seus locais de trabalhos, de moradia.

S: O senhor caracteriza o governo Lula como democrático e popular?

AF: Eu não sei qual é o conceito que orientou o nome de governo democrático popular; um governo democrático popular tem em seu fundamento central a questão da igualdade e essa igualdade da maioria, porque para a elite brasileira e norte-americana os anos de ditadura no Brasil foram democracia, tenho absoluta certeza. A democracia sempre é pra uma classe em detrimento da outra. Ora, eu só posso falar em democracia e liberdade se eu qualificar muito bem que elas se fundamentam na igualdade entre os homens, aí eu posso falar de uma democracia popular. Eu acho que o governo Lula avançou em algumas coisas, entendeu? Há uma coisa que as pessoas hoje gostam de debater demais e dizem que o nordeste votou com o estômago, o que não seria nenhuma vergonha, mas quando você cria condições pra alguns milhões de pessoas que não tinham nada, que não comiam se alimentarem pelo menos duas, três vezes por dia, eu acho isso uma medida fantástica e que faz parte da construção da democracia popular. Ficou a dever em outras coisas, na política econômica mais geral, mas no quadro internacional que está posto, com a hegemonia absoluta dos Estados Unidos não daria pra fazer muito mais do que se faz. São os limites da política feita somente através das instituições do Estado, é escolher o campo onde o inimigo é mais forte.

S: Em um recente artigo intitulado “Anauê, José Serra!”, publicado no site do Jornal Brasil de Fato, o senhor menciona que o candidato derrotado poderia estar preparando um terceiro turno. O que seria esse terceiro turno?

AF: Olha, quando eu digo que eles podem estar preparando um terceiro turno eu quero dizer que a ira deles é tão grande que eles são capazes de querer interromper um processo democrático. Eu estou falando de golpe, mas não necessariamente de um golpe como o de 64 ou os golpes do cone sul nos anos 60 e 70. Hoje em dia parece que as forças mais reacionárias do mundo já têm um tipo de golpe aparentemente civilizado, com o de Honduras que foi desencadeado pelo poder judiciário, e nós conhecemos bem o nosso poder judiciário, ou seja, foi um golpe legal. Quando aquele jornal Folha de São Paulo insiste em querer o dossiê da presidenta eleita Dilma, não se sabe o que se pretende com isso. Criar um impacto nacional em cima de depoimentos que a Dilma deu sob tortura? Isso pra quê? Para impedir a candidatura dela? Para impedir a posse por vias legais? Claro que se houvesse um levante popular para assegurar a posse, as forças armadas no seu papel de garantir a legalidade iriam às ruas. O ódio destilado é grande demais, as forças que se aliaram em torno da candidatura de José Serra são as mesmas da ditadura militar. Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, a grande mídia comercial. Quando eles mentem pra todo mundo e formam uma ficha falsa da Dilma, divulgam e sofrem processo é censura. Na internet a força dos blogueiros faz com que eles defendam outra postura: “não, isso tem que ser disciplinado” e não é censura. Então, é sempre essa conversa. As palavras são manipuladas para a população de uma maneira indecente. Pegue qualquer desses jornalões - Folha, Jornal Nacional, Band: “força dos Estados Unidos chegam ao Iraque e entram em Bagdá”, não é assim a manchete? “Sem terra invadem fazendas no Pará!”. Ora, o que os sem terra fazem é absolutamente legal, é pré-ação para que a constituição seja cumprida. As invasões dos Estados Unidos são injustificáveis e destruidoras, com todo o tipo de armamento, mata gente, mas é: “chegam e ocupam”. As forças dos EUA invadiram o Iraque, mas é a coisa mais natural do mundo. É normal deixar que eles invadam, plantem o que quiserem lá e se apropriem das riquezas.

S: O conglomerado midiático apelidado por blogueiros de Partido da Imprensa Golpista (PIG) vêm no ataque à criação dos conselhos de comunicação social nacional e estaduais. Como o senhor avalia a participação da mídia tanto no processo eleitoral quanto na ofensiva contra a iniciativa de organização da sociedade civil?

AF: Pra falar da importância da mídia é só dizer o seguinte: quando os portugueses chegaram a esta terra que então era apenas pindorama, logo criaram cinco monopólios – da terra, da exploração de riquezas, da comercialização das riquezas, das almas que entregaram a Companhia de Jesus e o da comunicação (tudo tinha que ser feito e aprovado em Portugal, não se podia imprimir aqui). O primeiro jornal que surge no Brasil vem dois anos após a independência e surge como um jornal da elite que é o Diário do Comércio de Pernambuco. Antes, tínhamos a Imprensa Régia – a fala do poder – e até hoje toda a nossa imprensa se acha a régia. A importância da comunicação as elites sempre souberam. Eu sou a favor do controle e aí a questão da democracia participativa se coloca porque esses conselhos são o quê? Controle social da comunicação e tem que ter controle social, não é censura, é controle social. Porque os jornais, os jornalões, impunemente fazem o que querem. Em São Paulo há alguns anos foi sugerido que numa escola as crianças eram abusadas sexualmente, eram até levadas para motéis e etc. (Caso Escola Base). A imprensa foi com tudo pra cima e aquilo virou verdade e não era nada disso, depois descobriram. Tudo bem, pagaram uma taxa de 300, 400 mil, mas as pessoas já estavam destruídas.

Imprensa burguesa – um dos braços da ditadura:

AF: Eles acham que isso é normal, comum, como devem acham normal ir de encontro à democracia, a constituição, contra o presidente eleito em 64. Participaram do golpe, rasgaram a constituição e acham normal e ainda que têm direito de fazer isso, a resistência é que é canalha. Se você prestar atenção, a história que se constrói hoje é que a resistência começa na segunda metade de70, quando os liberais resolveram que não queriam mais a ditadura. E aí eles aparecem como os grandes heróis – a Folha que emprestou carro pra transportar cadáveres de companheiros mortos em tortura, emprestou carro para levar companheiros nossos pra serem torturados – e á a paladina da democracia. O Estadão também, a Globo também. Então eu sou um louco, se nenhum deles fez parte do esquema da ditadura. Os altos escalões militares negam participação. É tão ridículo quanto os Orleans e Bragança dizerem: “não sabíamos que tinha senzala e pelourinho. Não, eram os capitães do mato fora do nosso controle que prendiam”. E ainda inventam a palavra porão. Em São Paulo não teve nenhum porão, as pessoas eram torturadas na sala ao lado, no lixeiro em frente, no fim do corredor. Aliás, é muito engraçado esse silêncio em torno o senhor Romeu Tuma, que morreu senador e nasceu delegado, ele era diretor do DOPS quando eu estava lá. Na sala do Fleury, onde eu e meus companheiros fomos muitas vezes, atrás da mesa do Sérgio Fleury estava lá bem grande um cartaz: “Escuderie Le Coc”, que era o nome fantasia do esquadrão da morte. Só o Romeu Tuma nunca viu isso e era diretor de lá. Vai virando uma história da carochinha, mas uma história má. A Dilma, durante a campanha, foi criminalizada porque fez resistência a ditadura e por ter militado numa organização da luta armada, ora, todos estão cansados de saber que contra a tirania é legítimo qualquer tipo de reação. No ordenamento jurídico durante a escravidão tinha um capítulo que dizia o seguinte: “todo o senhor que matar seu escravo em qualquer circunstância o fará em legítima defesa”, um grande militante, um abolicionista nosso, Luis Gama, brilhantemente inverteu isso: “todo o escravo que matar o seu senhor em qualquer circunstância o fará em legítima defesa”, estou com Luis Gama e não abro.

 

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"Me filiar às lutas do sindicato é minimamente contribuir para mudar o mundo".

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Entrevista da Semana

A Rede de Comunicadores Populares do SINTESE (Recomsin) conversou com a educadora Regina Leite Garcia sobre possíveis ações dos educadores na luta contra as mazelas que o capitalismo impõe em doses diárias. Regina é dona de um vasto currículo na área, tendo atuado na educação popular e tem como importantes aliados os movimentos sociais. É autora entre outros de Diálogos do Cotidiano.

Recomsin: Na batalha diária contra o sistema capitalista e suas armas crueis que mecanismos os professores podem utilizar para travar a resistência no ato de educar?

Regina Leite: Pra mim a coisa mais importante que um professor pode fazer é que ele tem um compromisso com o futuro. Daí eu acredito que nós lidamos com o que de melhor o ser humano tem. O ser humano nasce com a curiosidade de crescer, de conhecer, de saber mais, não é? Quando a criança vem para a escola, ela vem querendo saber mais sobre o mundo que ela ainda sabe tão pouco ou pensa que ainda sabe pouco.

Recomsin: E Como o professor pode se valer de sua profissão e contribuir para a transformação social?

RL: O nosso papel no meu ponto de vista - a partir do que Paulo Freire nos ensina – é de ampliar ao máximo esse conhecimento inicial que uma criança, um jovem, um adulto tem quando vem para a escola e aprofundar ao máximo esse conhecimento. Não é para ele virar um erudito, não é isso que nos interessa. Mas é que com esse conhecimento ele (o aluno) vá conhecendo mais e mais o mundo que o cerca e vá compreendendo – se nós formos bem-sucedidos no nosso trabalho - que ele tem uma dívida com o mundo, de tornar esse mundo melhor, de tornar a sociedade na qual ele vive mais justa, mais democrática, mais equânime, mais igualitária. É essa a razão de a gente atuar. Politicamente a função primeira de um professor é essa. É porque ele cumpre ou tenta cumprir esse papel que ele se torna um militante. Então ele atua dentro da escola, no cotidiano e atua também fora da escola para que nessa luta (dentro e fora) ele contribua para mudar o mundo. Menos que isso é acho que é melhor não viver.

Recomsin: Para que os educadores cumpram essa função, os espaços de formação são fundamentais (congressos, seminários, cursos). Como a senhora enxerga esses momentos, em especial os promovidos pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Sergipe, que há anos aposta nessas ferramentas?

RL: Eu alimento a minha esperança quando eu vejo o Sintese, como esse grande coletivo, que não abre mão de mudar o mundo. Cada vez que eu venho aqui, seja para o que for, eu sempre tenho realimentada essa minha esperança de que um outro mundo é possível. Vir aqui e “me filiar” às lutas do sindicato é minimamente contribuir para mudar o mundo.

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Entrevista: Iran Barbosa

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Entrevista da Semana

"Estou sempre pronto pra qualquer batalha!"
Iran Barbosa

 

Rede de Comunicadores Populares do SINTESE - O senhor poderia fazer um breve balanço da sua iran_entrevistairan_entrevistaatuação parlamentar, das ações e projetos mais importantes, nestes últimos quatro anos, notadamente no campo da educação e da defesa dos trabalhadores?

 

IRAN BARBOSA - Durante os quatro anos em que ocupei uma das oito vagas de Deputado Federal por Sergipe, no Parlamento brasileiro, tive a oportunidade de ocupar todos os espaços que um mandato com essa envergadura proporciona a um representante do Povo. Atuei intensamente no Plenário da Câmara Federal, fazendo pronunciamentos, destacando os problemas dos sergipanos e fazendo a cobrança para que fossem solucionados. Apresentei um vasto conjunto de Projetos de Lei, propus emendas e relatei outros tantos Projetos. Atuei em diversas Comissões Temáticas e Frentes Parlamentares da Câmara. Fiscalizei o Poder Executivo, requerendo informações necessárias ao exercício dessa importante tarefa parlamentar. Utilizei a prerrogativa de incidir sobre o Orçamento Geral da União, destinando recursos para áreas essenciais do nosso Estado e introduzindo um método de definição da destinação de recursos, que facilitou a participação e o acompanhamento de setores organizados da nossa sociedade. Fiz com que as prerrogativas de Deputado Federal estivessem a serviço das necessidades do povo de Sergipe e do Brasil, intermediando negociações frente a outros poderes constituídos, participando de atos e manifestações populares, dando eco aos anseios daqueles grupos sociais menos favorecidos e procurando assegurar uma amplitude de representação que permitisse ao nosso mandato exercer com plenitude as suas funções. Atuei em setores muito diversos e dialoguei com todos os grupos sociais que necessitaram da minha ação de legislador e de mandatário de Poder na República brasileira, mas, sem sombra de dúvidas, a Educação e a Classe Trabalhadora tiveram prioridade no nosso mandato. Foi por isso que a maior parte dos recursos orçamentários que destinei para Sergipe foi direcionada para a construção e reforma de escolas, para a aquisição de transporte escolar e para a execução e o fortalecimento de projetos na área da formação profissional. Foi também por essa razão que priorizei e interferi na elaboração da legislação que regulamentou o FUNDEB; que criou o Piso Salarial do Magistério e de outras categorias profissionais; que extinguiu com a incidência da DRU sobre os recursos da Educação; que legalizou o funcionamento das Centrais Sindicais no Brasil e tantas outras matérias relevantes para o setor educacional e para os trabalhadores brasileiros. São de minha autoria projetos de emenda à Constituição e projetos de lei que tem relevância para a Educação e para o Povo trabalhador. Eu destacaria a proposta de criação do Sistema Nacional de Defesa do Salário e dos Demais Direitos dos Trabalhadores; da Licença-Retribuição; da separação da apuração do pagamento dos salários dos trabalhadores da Educação em relação aos limites de despesa com pessoal definidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal; de criminalização dos gestores que, dolosamente, não pagam ou atrasam os salários dos servidores públicos, enfim, como eu já disse, é um amplo conjunto de medidas que não é possível descrever todas neste espaço, mas que podem ser acompanhadas em materiais específicos de balanço produzido pelo nosso mandato ou em nosso endereço eletrônico que é o www.iranbarbosa.com.br

 

RECONSIN - Mesmo com toda essa atuação na defesa dos interesses do povo e do Estado de Sergipe, o senhor não conseguiu se reeleger como deputado federal. Qual a avaliação que o senhor faz do processo eleitoral do qual acabamos de sair?

I - Bem, todos nós que participamos de disputas eleitorais sabemos iranbarbosa 1iranbarbosa 1que temos a chance de ganhar e de perder. O atual modelo de disputa eleitoral está cada vez mais impregnado da interferência do poder econômico e da barganha política. Não que esses procedimentos sejam novos nos processos eleitorais. Nós sabemos que fazem parte da estrutura político-eleitoral brasileira os vícios que são sempre denunciados, raramente apurados e quase nunca punidos. É claro que essa forma viciada de se disputar uma eleição dificulta as possibilidades daqueles que se apresentam para o pleito eleitoral debatendo projetos e propostas para incidir e resolver os problemas sociais, mas sem contar com o apoio do grande capital e dos novos e velhos “coronéis”. Avalio que esse é o principal fator a ser considerado. Não se trata de ter havido uma derrota de um candidato, mas a derrota de um modo de fazer política e de disputar eleição que, embora tenha uma boa avaliação dos mais amplos setores da sociedade sergipana, não obteve a densidade eleitoral necessária para se manter no Poder.

RECONSIN - O parlamento é um espaço importante de disputa política para a classe trabalhadora. Mas o perfil que lá está não é nada animador para os trabalhadores. Por que, na sua opinião, os trabalhadores, que são maioria na sociedade, elegem poucos representantes verdadeiramente compromissados com suas lutas? Tem a ver com nosso modelo de processo eleitoral?

I - Acredito que tem a ver sim com o modelo de processo eleitoral que nós temos, mas tem a ver com coisas muito mais amplas e profundas. O Parlamento é um espaço importante de disputa para a Classe Trabalhadora, mas o é também para os donos do Capital e eles ainda são hegemônicos na nossa Sociedade. Eles controlam a riqueza, os meios de comunicação, os processos de formação da opinião do povo e, portanto, conseguem fazer com que esse mesmo povo, por uma ideologia muito bem inculcada, vote naqueles que vão representar os interesse do Capital no Parlamento. Superar essa distorção em um País com pífia experiência democrática não é algo simples nem do curto prazo. Ainda temos muito que disputar para avançarmos nesse aspecto.

RECONSIN - O governo Lula deu passos importantes na educação, mas estamos longe de alcançarmos um nível satisfatório nesse quesito, comparativamente a países desenvolvidos e mesmo a alguns em desenvolvimento. Como o senhor, sendo educador e oriundo da luta sindical, vê o atual momento da educação brasileira? O que falta para verdadeiramente avançarmos nessa importante e sensível área social?

I - Eu vejo este como um momento de construção. O nosso atraso iranbarbosa 1iranbarbosa 1educacional em relação a países semelhantes ao nosso, nos dá o direito de cobrarmos agilidade e consequência na solução dos nossos problemas, os quais são básicos, como a superação do analfabetismo e a obtenção de índices de proficiência educacional compatíveis com as nossas perspectivas. Nós precisamos aproveitar esse momento de construção para forjarmos uma opinião coletiva em prol da Educação e transformar essa opinião em força impulsionadora da busca das alternativas, que não são mágicas nem impossíveis, mas exigem vontade coletiva, investimento, seriedade e compromisso permanente e não episódico.

 

RECONSIN - Que avaliação o senhor faz do governo Marcelo Déda. Houve avanços no seu governo? Quanto à educação, quais observações o senhor poderia fazer?

I - Eu diria que o atual governo ainda precisa consolidar o projeto de mudanças que anunciou ao povo sergipano. E acho que o povo de Sergipe também pensa assim, pois o recente resultado eleitoral deixa evidente que o povo quer as mudanças e por isso reconduziu o governador Marcelo Deda para mais quatro anos à frente do Executivo estadual. Para isso acontecer, precisamos, de forma democrática e republicana, ouvir os setores organizados da sociedade para consolidarmos as mudanças anunciadas, especialmente em setores estratégicos, como é o caso da Educação que, sem sombra de dúvidas, carece de um projeto a ser debatido e executado com urgência, em nome do respeito ao povo sergipano. Nesse sentido, é urgente que definamos estratégias democráticas e participativas de elaboração do nosso Plano Estadual de Educação, onde possamos definir mecanismos de criação do nosso sistema educacional de forma articulada com os demais entes federativos. Precisamos aportar mais recurso para o setor e democratizar as relações dentro desse sistema que deverá ser criado, estimulando instâncias coletivas de acompanhamento, fiscalização e definição do funcionamento, não apenas das escolas, mas do sistema como um todo. Precisamos ter uma política de valorização do trabalhador em educação que dê ênfase a quatro pilares essenciais desse processo, a saber: a formação, as condições de carreira, salário e trabalho daqueles que fazem o sistema funcionar. Precisamos ter os olhos voltados para a qualidade social do ensino requerido pelo povo sergipano. Isso requer que tenhamos bem definidos os nossos propósitos para sabermos quando e como queremos obtê-los. Enfim, é um terreno árido que precisa ser semado.

 

RECONSIN - O PT vai continuar governando o Brasil, com Dilma, e Sergipe, com Déda. O que o senhor espera desses dois governos nos próximos quatro anos?

I - A primeira presidenta do Brasil terá a responsabilidade de assegurar os avanços conquistados no governo do presidente Lula e de ampliar essas conquistas, em nome do sucesso contínuo desse projeto que estamos implantando no Brasil. No caso de Sergipe, como já disse anteriormente, é tarefa do governador Marcelo Deda, passada essa primeira etapa do seu governo, garantir que as conquistas sociais e as mudanças anunciadas se consolidem. E quando falamos em Mudanças, não estamos falando de algo abstrato, mas de medidas concretas que modifiquem as relações de Estado; que permitam que as principais políticas públicas respondam afirmativamente às necessidades populares e que criem as condições para que Sergipe siga sua trajetória de desenvolvimento sem ferir as regras básicas do processo civilizatório que defendemos.

RECONSIN - O senhor saiu das urnas com expressivos 46.339 votos, teve votos nas 75 cidades do Estado, crescendo eleitoralmente mais de 10%, comparativamente ao pleito de 2006. O senhor, na verdade, saiu fortalecido. Diante dessa densidade político-eleitoral conquistada, quais os seus planos para o futuro? Disputar uma nova cadeira no parlamento ainda está nos seus planos?

I - O futuro é uma construção coletiva. Eu tenho uma vida pessoal sobre a qual exerço controle e ela está completamente organizada. Porém as disputas eleitorais fazem parte de um setor da minha vida onde não cabem decisões e vontades pessoais. Aqui é o grupo, o coletivo que define. Eu de minha parte, estou sempre pronto para qualquer batalha! Enquanto a saúde permitir e os meus companheiros de luta quiserem, eu serei sempre um militante na linha de frente desse grande espaço de combates que é a vida.