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Especial Dia do índio: artigo sobre a origem da data

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Especiais: dia do índio



A data, 19 de abril, foi fixada pelo 1º Congresso Indigenista em 1940, na Cidade do México; o Brasil só aderiu a ela em 1943. Com o tempo, principalmente a partir dos anos 80, foi conquistando seu conteúdo, associado à consciência da tragédia indígena ocorrida neste pedaço do mundo.


Séculos de matança



Os povos indígenas habitando o atual território brasileiro somavam em 1500 cerca de 5 milhões de pessoas, falando mais de um milhar de línguas, segundo a estimativa mais provável. A população de Portugal era então de 1,5 milhão.

A conquista européia foi, como nas Américas em geral, uma matança. As doenças (varíola, tuberculose, gripe), a desagregação das sociedades tribais e a "escravidão vermelha" para perto de 1,5 milhão em 1800 (dos quais 1 milhão ainda isolados, ou "arredios").

Completou-se a ocupação territorial, afora a parte da Amazônia até hoje indevassada, e a matança prosseguiu. Em 1957 a população indígena de todo o Brasil era estimada em 125 mil pessoas, dos quais 25 mil isolados. Cresceram as vozes falando em um inevitável aniquilamento, pela via da supressão ou pela da "integração", que foi a política oficial da ditadura de 1964.

A volta por cima indígena

As curvas estatísticas, porém, têm seus caprichos quando retratam fenômenos da sociedade humana. Nas últimas décadas a população indígena passou a crescer. Os números mais recentes contam 358 mil, nos aldeamentos, e mais 151 mil morando nas cidades, ameaçados, discriminados, mas teimosamente se declarando "índios" aos recenseadores. Há que contar, ainda, perto de 53 povos isolados, na Amazônia.

Não é fácil para os povos indígenas voltar a crescer, em ritmo até superior à média da população do país. Enfrentando condições de saúde bem piores que os demais brasileiros, eles têm uma expectativa média de vida de apenas 42,6 anos, que em alguns casos cai para 24,5 anos (Na população brasileira em geral, a expectativa de vida é de 68 anos). O grande responsável por esses números é a mortalidade infantil: metade dos óbitos de indígenas vitima crianças de menos de 5 anos; um quarto deles ocorre sem assistência médica.

O que salva e multiplica esses povos é uma taxa de natalidade que compensa a mortalidade altíssima e ainda permite o crescimento. E quando se observa o fenômeno mais de perto, desponta nele um fator de orgulhosa afirmação de sua identidade.

"Curumins" que são guerreiros

Os "curumins" que repovoam as aldeias são como pequenos guerreiros de uma guerra antiga. Travam, e vencem, quando a pneumonia ou a diarréia não os derruba, a luta iniciada há quase cinco séculos pela Confederação dos Tamoios, de Cunhambebe e Aimberê. O combate dos Aimoré, no sul da Bahia, e dos Potiguara na Paraíba; dos Cariri, por quase todo o sertão nortestino; dos Manau na Amazônia, guiados por Ajuricaba sob o lema "Esta terra tem dono!"; dos Guaikuru no Mato-Grosso e dos Guarani gaúchos, que produziram o santo-soldado Sepé Tuaraju.

Haveria que agregar, a esses feitos, a presença indígena no que é hoje o povo brasileiro - que vai dos genes e à psicologia nacional e à cultura. As estatísticas ocultam essa presença: classificam como "pardos" tanto os nossos mestiços de todos os tipos como os mais puros caboclos. Mas, não faz muito tempo, pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais apurou que, mesmo entre os "brancos" mineiros, um terço traz no seu código genético a herança africana e outro terço a indígena.


Bernardo Joffily é jornalista, autor do Atlas Histórico
Isto É Brasil 500 anos e editor do portal Vermelho.
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