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Jornalismo, jornalistas e crise de representação

Escrito por Cristian Góes Ligado . Publicado em Cristian Góes

Quando a história convoca para mudanças

Impressionante como alguns colegas jornalistas não conseguem entender (ou não querem) o porquê das ações agressivas e persistentes contra repórteres e veículos de comunicação em quase todas as manifestações pelo país. Convenhamos, não precisa muito esforço para querer entender esse fenômeno.

Primeiro, deixo bem claro meu posicionamento contundente contra qualquer violência, seja do Estado, do mercado e das pessoas. Nada, absolutamente nada justifica a violência, nenhuma forma violência, nem as explícitas e nem as veladas. É o que penso.

As manifestações que tomam contam do país têm uma pauta muito além da redução do preço do ônibus e isso parece bem claro. No fundo, os atos apontam consistentes críticas às instituições sociais porque elas não responderiam mais as demandas, as necessidades da sociedade.

A corrupção privada e pública, a injustiça contra muitos e o grande lucro de poucos são centrais no sistema capitalista. As instituições sociais foram tomadas pelo capital e por seus interesses, estando mergulhadas até a alma nesse fosso. Nos limites do capitalismo elas esgotaram-se.

Mas que instituições sociais são essas? A Política, por exemplo, (partidos, regras e financiamentos eleitorais, participação); o Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) e sua forma de organização e financiamento; a Organização social (associações, sindicatos, entidades religiosas); o Jornalismo (imprensa).

Essas instituições têm um traço comum: a representação social. E a essência da crítica estaria aí. Esclarecendo, política, Estado, entidades civis, imprensa não mais representam de forma preponderante os interesses da maioria. Vivemos uma crise de representatividade. Isso é um fenômeno mundial e já faz tempo. O descrédito é a tônica.

Ocorre que as instituições não são entes abstratos. Elas se materializam nos homens e mulheres que as compõem e em suas atividades cotidianas. Na prática, a crise está na enorme distância entre representantes e representados, entre compromissos e realizações, entre promessas de fidelidade e ações concretas de traição, entre o discurso e a prática.

O PT, apenas para citar um exemplo, enquanto ideia de realização contribuiu imensamente para essa desesperança, à medida que inverteu significativamente à lógica da esperança depositada nele.

E a imprensa nessa história?

O jornalismo também é uma instituição social e adquire essa condição porque se comprometeu com a sociedade com o "dever da verdade", doa em quem doer. Ou não foi isso? Nós (as audiências) concedemos ao jornalismo a tarefa de representação dos interesses de todos. Acreditamos ser o jornalismo um farol que nunca se apaga, isto é, estará sempre atento e pronto (sem jamais descansar) para fiscalizar e denunciar, por exemplo, os atos corrupção no sistema político.

Há um contrato tácito entre jornalismo e sociedade. Esse acordo prevê que o jornalismo oferecido pela imprensa a todos considera que a informação de relevante interesse público é um direito fundamental para o exercício da cidadania e que os jornalistas não podem admitir que esses direito seja impedido por nenhum tipo de interesse (Código de Ética dos Jornalistas). Grife-se: nenhum tipo de interesse.

Agora, avalie criticamente: Imprensa e jornalistas têm cumprido esse acordo do dever da verdade? As coberturas da imprensa revelam a supremacia absoluta do interesse público sobre os interesses privados? Como tem ocorrido a seleção e o enfoque das notícias? Há manipulação e inversão? Há mentira em lugar da verdade? Omite-se para atender interesses políticos e econômicos? Há sensacionalismo e criminalização das camadas populares? Quem tem fala preponderante nas notícias: os políticos, os empresários, o Estado, a polícia?

À prática cotidiana do jornalismo impõe-se o exercício da reflexão sobre a atividade jornalística, exatamente em razão de a imprensa ser uma importantíssima instituição social. Infelizmente essa avaliação da prática do jornalismo é raríssima entre os próprios jornalistas e impensável pelos meios. Aliás, a mídia – enquanto sistema - tem verdadeiro horror e pavor da ideia de receber críticas, o que é profundamente antidemocrático.

Alguém apressadamente pode gritar: mas o jornalista é apenas um profissional que estaria a serviço da empresa, do dono dos meios. Calma com o andor. Não é bem assim, não. De fato, não se pode desconhecer que a maioria dos veículos está nas mãos de políticos, de suas famílias e de gente que trata o jornalismo como negócio. Independente da linha política dos empresários e da natureza das empresas, o jornalista é corresponsável em todo processo de informação.

O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos e ele deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação (Código de Ética dos Jornalistas). Não é o dono do veículo quem vai para rua, não coloca o revólver na cabeça do repórter diz como deve ser feito o trabalho. Nenhuma linha editorial pode contrariar o dever da verdade, a precisa apuração e divulgação dos acontecimentos.

Um fato concreto: há uma manifestação de 15 mil pessoas nas ruas. Movimento pacífico. O ato dura mais ou menos seis horas. São inúmeras as reivindicações, as pautas, as figuras, as músicas, etc, etc e etc. O ato termina tranquilo. Depois de encerrado algumas pessoas (seis ou sete) resolvem jogar pedras e tocar fogo. Alguns são presos. Claro, a imprensa cobre tudo e tem que cobrir mesmo. É acontecimento.

Quando vai se noticiar estão em destaque nas manchetes e fotos, isto é, como enfoque principal sobre a manifestação: "depredação, crime, vandalismo, quebra-quebra, saques, ônibus incendiado, terror, bombas, paus e pedras, etc, etc". O ato foi isso mesmo? Só isso? São presas 31 pessoas (muitas sem provas), todas rotuladas como "bandidos, criminosos, canalhas, vermes, pulhas", etc e etc. Nas notícias a versão oficial é a versão da polícia, e apenas são revelados os nomes e fotos dos presos, não por coincidência, pobres. Ou seja, há uma profunda desproporcionalidade na angulação do acontecimento, inversão, manipulação e a sociedade não engole mais passivamente isso.

Assim, a cobertura jornalística não informa, apenas contribui para o medo, para o pânico social, criminalizando todo e qualquer movimento reivindicatório. Qual será a reação das pessoas na próxima manifestação diante da imprensa? De apoio ou rejeição? Pior, além de desqualificar essas e outras coberturas – por má fé ou incompetência – parte da imprensa ainda carrega a arrogância de querer dar direção, impor, manipular as pautas de reivindicações populares, incentivando o comportamento de manada, de um nacionalismo tirano e fascista.

Três detalhes para finalizar: primeiro que o povo não é bobo. Até finge ser, mas não é. Tem uma paciência imensa. Demora, demora, dá muitas e muitas chances, mas tudo tem limite e acorda. Por exemplo, não foi a grande e velha mídia quem convocou as grandes manifestações. O povo não foi às ruas por causa de sua convocação, que não existiu. Os atos ocorreriam independentemente do jornal A, da tv B e da rádio C fazer convocação e cobrir.

Segundo que essa crise de representatividade envolvendo o jornalismo como uma instituição social revela um modelo falido de imprensa e uma forma ultrapassada de fazer jornalismo. Não se aceita mais com muita passividade a mentira, a manipulação, a omissão, a criminalização, a versão oficial do Estado e do mercado como única e intocável verdade. O desmascaramento não trata a aparecer. As redes sociais estão em prontidão.

Não é preciso reinventar o jornalismo nem a imprensa, mas se deve dedicar ao exercício do que essa instituição social se propõe: o dever da verdade, da pluralidade, da diversidade, do senso de justiça e respeito aos direitos humanos.

E por fim, o terceiro e talvez o mais importante detalhe: esse momento de crise é excelente para que jornalistas, empresas e entidades da sociedade civil façam uma aprofundada reflexão sobre esta instituição social. Lembre-se, por exemplo, que empresas de rádio e tv são concessões públicas. Já passou da hora da imprensa ser pensada e repensada enquanto atividade.

Esta é uma oportunidade que muitos, por própria arrogância, sequer cogitam debater. Bom, para esses, as coberturas jornalísticas continuarão sendo realizadas com jornalistas sem identificação, com medo em cima dos prédios, com a contratação de seguranças e colocando em risco seus profissionais, ampliando ainda mais o fosso entre jornalismo e a sociedade.

Reafirmo meu claro meu posicionamento contra qualquer violência, seja do Estado, do mercado e das pessoas. Nada, absolutamente nada justifica a violência, nenhuma forma violência. E sustento que a imprensa deveria aproveitar o bom momento para tomar um chá de humildade e reflexol. Faria muito bem ao jornalismo e melhor ainda para a sociedade.


José Cristian Góes
Jornalista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas
Mestrando em Comunicação e Sociedade - UFS
Militante do PCB e do Movimento Luta Fenaj