Imprimir

A Copa do mundo de futebol na Rússia e a nova Guerra Fria

Escrito por Roberto Santos Ligado . Publicado em Roberto Santos

roberto

Como se viu, na cabeça de Temer, a Rússia ainda é a "União Soviética". Mas não é só na cabeça dele. Após quase três décadas da queda do regime comunista e a da fragmentação da União Soviética, a Rússia ainda é vista, por alguns setores políticos do Ocidente, como um país "perigoso", em vez de um aliado em importante em lutas conjuntas, como a luta contra o terrorismo, por exemplo.

Na realidade, para alguns a Guerra Fria não acabou. A bem da verdade, a política externa norte-americana nunca abandonou completamente essa perspectiva belicosa e confrontacionista com a Rússia. Os motivos não têm nada mais a ver com a antiga luta ideológica (capitalismo X socialismo). Eles obedecem a uma disputa geoestratégica formulada explicitamente Zbigniew Brzezinski que foi assessor presidencial para assuntos de segurança nacional no período de 1977 a 1981.

Ele argumenta, com razão, que a Eurásia é o eixo geoestratégico do mundo, já que esse supercontinente, além concentrar boa parte do território e dos recursos naturais do planeta, conecta os dois grandes polos econômicos do mundo além dos EUA, a União Europeia e o Leste da Ásia. Para Brzezinski, é vital que os EUA tenham o controle desse supercontinente, caso queiram permanecer como a única e inconteste superpotência.

Pois bem, a geoestratégia concebida por Brzezinski implicava várias ações de longo prazo concomitantes. Em primeiro lugar, o fortalecimento da Europa unida, sob a liderança dos EUA. Para tanto, Brzezinski já sugeria, inclusive, a celebração de um tratado de livre comércio transatlântico, como o anunciado recentemente. Em segundo, o fortalecimento das novas nações independentes da Ásia Central e do Leste Europeu, que surgiram após o colapso da União Soviética, e a consequente expansão da OTAN até a Ucrânia. Em terceiro lugar, e mais importante, a geoestratégia de Brzezinski previa o enfraquecimento da Rússia e o enquadramento de sua política externa nos imperativos geopolíticos dos EUA e seus aliados.

Putin, entretanto, inviabilizou essa estratégia de enfraquecimento e dependência da Rússia. Sob sua gestão, a Rússia passou a desenvolver uma geoestratégia própria. É a da constituição de uma "União Euroasiática", voltada para a criação de um bloco econômico envolvendo Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão, bem como à integração com a China e outras potências econômicas do leste asiático. Assim, a Rússia de Putin, ao invés de se voltar para o Ocidente, com a integração subalterna à Europa prevista por Brzezinski, voltou-se para a Ásia Central e o Oriente, procurando contrarrestar a crescente influência dos EUA/UE no leste europeu.

Ademais, recentemente Putin passou a influir mais no Oriente Médio, interferindo na desastrosa política ocidental de apoiar grupos terroristas, inclusive o Estado Islâmico, como estratégia para derrubar o regime de Assad na Síria.

Em sua associação ao BRICS-Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, a Rússia de Putin aposta num mundo mais multipolar e multilateral, o que é conveniente aos interesses do Brasil e de outros países emergentes, mas inconveniente às pretensões do EUA de moldarem o mundo aos seus interesses unilaterais.

Trump, o imprevisível, até que ensaiou ter uma relação mais pragmática com Putin, mas foi logo desautorizado pelo Departamento de Estado. Por tudo isso, vêm surgindo recentemente pressões, até mesmo no Congresso norte-americano, para que a Copa de 2018 na Rússia seja boicotada. Os motivos alegados variam: a crise da Ucrânia, a anexação da Crimeia após um plebiscito, a suposta ação de "hackers" russos nas eleições dos EUA, a ação russa na Síria, a punição a 35 atletas olímpicos russos por "doping", etc.

O cardápio das desculpas é bem variado, mas o fato é um só: voltamos definitivamente à Guerra Fria. Em 1980, em plena Guerra Fria, EUA e aliados, alegando que a Rússia havia "invadido" o Afeganistão, decidiram boicotar as olimpíadas de Moscou. De fato, boicotaram as olimpíadas, fato nunca antes acontecido, e financiaram Bin Laden e outros grupos extremistas islâmicos, denominados por eles como "os combatentes da liberdade", que atuavam contra o regime secularista e progressista Afeganistão.

Com isso, conseguiram duas proezas: plantaram as sementes do extremismo islâmico e prejudicaram irremediavelmente várias gerações de atletas, pois, em 1984, em retaliação, houve o boicote da União Soviética e aliados às Olimpíadas de Los Angeles. Anos de treinamento, trabalho e esforços foram jogados no lixo.

A paz e o esporte foram, assim, os grandes derrotados. Portanto, um boicote, ainda que parcial, ao campeonato mundial de futebol, o esporte mais popular do mundo, seria um completo desastre. Para o Brasil, em particular, um boicote desse tipo seria extremamente prejudicial. A seleção canarinho está recuperando seu antigo brilho e tem tudo para recuperar seu prestígio internacional em Moscou, após o fiasco dos 7x1 no Brasil.

Contudo, se houver algum boicote, o campeão não vai conseguir voltar, como canta e quer a nossa torcida. Já bastam Temer e sua política externa errática e subserviente para destruir o prestígio do Brasil. Fazendo o jogo da grande superpotência do planeta, a política externa do golpe investe contra a integração regional, a articulação Sul-Sul e o BRICS. Investe, assim, em dependência e desprestígio. Isso é mais do que o suficiente. Não precisamos de novos desastres.

Fora boicote!

Por Marcelo Zero, sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado em 7 de Julho de 2017 no site Brasil 247.