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O novo Facebook: sensacional e assustador

Escrito por Elis Monteiro - blogs.forumpcs.com.br Ligado . Publicado em Cultural

Quem adora o Facebook, está rindo à toa; quem o teme, tem motivos de sobra para ficar ainda mais sobressaltado. Mark Zuckerberg, o Steve Jobs da internet, anunciou hoje, durante o F8, congresso de desenvolvedores do ecossistema Facebook, diversas novidades que começam a chegar à maior e mais completa rede social do momento. São muitas transformações – aplicativos novos, inserção de vídeos e streaming de música direto no status, etc – mas o mais importante é uma mudança radical de rota. Para quem um dia chegou a considerar o Facebook como um sucessor para o Orkut, ou seja, uma rede social para encontrar os amigos da vida real, já é hora de aceitar o equívoco. O Facebook não é apenas uma rede social, é um apanhado de sua vida, seus gostos, preferências e ações, informações pessoais importantíssimas que você passa a compartilhar com outras pessoas e, claro, com um mercado sedento por tesouros relativos ao comportamento e aos detalhes tão pequenos de todos nós.

O Facebook passa a deixar de lado o “Curtir” (Like) e começa a oferecer outros verbos que dizem mais sobre você do que eles mesmos podem supor. O Read pode mostrar o que você está lendo (e acabar virando indicação para o seu amigo); o Listen mostra a música que você está ouvindo e, pasme: você pode ouvir sua música preferida JUNTO com outra pessoa; o Watch mostra o filme ou o vídeo que você está assistindo, ou seja, suas ações do cotidiano todas discriminadas, prontinhas para indicarem, àqueles que querem te vender coisas, o que você gosta, o que consome, o que usa. Mais: o que seus amigos acatam como recomandação sua, e um universo sem fim de usos que o mundo do marketing e do consumo podem vir a adotar.

O perfil e o status perdem o sentido; agora, todo usuário tem uma Timeline – isso mesmo, igualzinho ao Twitter. Nela, fotos ganham corpo, podem ocupar espaços maiores dentro da página e todo o seu conteúdo – presente e passado – passa a ser catalogado no lado direito da página, resumido em anos. Quem está na rede desde 2007, por exemplo, pode passar a navegar por links 2007, 2008, 2009, etc. Quem se lembrou aí da navegação típica de blogs?

Quando as fotos são agregadas dentro da tal Timeline, formam uma grande página de… Flickr, com os thumbnails pequeninos que, uma vez clicados, abrem grandes pôsteres. O mais legal dessa história toda é que os desenvolvedores do Facebook parecem não ter o menor problema em agrupar, na rede, funções testadas e aprovadas em outras redes, até as concorrentes.

Rádio, TV, vídeo, música, blog, texto, aplicativos… o novo Facebook é um universo pessoal e personalizado que acaba se tornando um grande app de cada um, um resumo do que aquela pessoa faz, do que gosta, onde está, com quem fala, o que consome, o que ouve, o que assiste, o que compartilha. Priceless!

O Facebook passa a funcionar como um jornal pessoal cujo conteúdo é criado por assuntos do meu interesse – meus amigos, família, eventos, entretenimento, como se fosse um grande tablet dentro da Web. E a gente passa a navegar por aquilo que nos diz respeito. Nada organizado por nós, mas sim pelos robôs inteligentes do Facebook, um manancial de links que ligam gostos a pessoas e empresas a interesses e, principalmente, produtos a consumidores. O feed de notícias, até agora, mostrava as atualizações mais recentes e, mesmo quando categorizadas por “mais importantes”, o filtro não era, até agora, suficiente para nos levar ao que realmente importa no nosso dia a dia. Ou o que o Facebook acha que realmente nos importa. A navegação passa a ser “filtrada” de acordo com o número maior de interações do usuário.

A navegação ganha mais em agilidade também. Com a função “Novidades” é possível interagir com um amigo que acabou de postar sua localização – o amigo não estará online apenas na caixa de bate-papo, mas em várias funções, inclusive nas fotos e nos textos que postamos em tempo real. Mas como assim, isso já não existia? Na verdade, se você passou um tempo longe da rede, vai encontrar os comentários todos lá, mas eles nunca funcionaram como chat ao vivo. É um passo e tanto para quem gosta de interação constante. Além disso, o usuário decide o tamanho que as fotos e os vídeos aparecerão em sua Timeline, tudo será “mexível”.

O novo Facebook valoriza o que é mais importante, essa é uma das ideias centrais. Num dos exemplos publicados pela rede, é dito “você prefere saber o que um amigo comeu no café da manhã ou que ele arrumou o emprego de sua vida”? A resposta, óbvia, explica porque agora a rede passa a dar valor não mais à cronologia da atualização (as atualização não somem mais, ficam numa linha do tempo eterna, disponível para quem visita a timeline e para o próprio dono), mas sim sua relevância. Assim, o Facebook passa a funcionar como um grande blog no qual os posts vão se acumulando e, depois, entrando no histórico dos anos. Se o usuário quiser “preencher” fatos ou datas que não estão lá, basta incluir e selecionar a posição na linha do tempo. Sim, o Facebook passa a funcionar como um álbum visual e textual de sua vida. E se você quiser compartilhar todo esse histórico com alguém (polícia, quem sabe?) basta publicar o Activity Log na Timeline. Assustador, né?

Agora também passa a ser possível compartilhar aplicativos com os amigos, ou seja, navegar dentro deles junto com alguém, seja para ouvir uma música ou assistir a um capítulo de sua série favorita. Imagine todo mundo junto assistindo a um capítulo de novela, podendo comentar em tempo real? As formas de utilização são inúmeras, assim como seus riscos. Nada contra nenhuma das novidades apresentadas por Mark Z., mas que assusta uma rede – que é de uma empresa – ter todo esse poder nas mãos, assusta.

A Timeline ainda não está disponível, passa a valer dentro de algumas semanas e o usuário poderá decidir se quer ou não adotá-la. No Brasil, o streaming de vídeo e de música ainda é uma incógnita – a Netflix, por exemplo, foi anunciada como parceira do novo Facebook, mas no Brasil os serviços dela dentro da rede não deverão estar disponíveis tão cedo.

Mark e seus parceiros e funcionários que apresentaram as novidades bateram bastante na tecla do “compartilhamento de partes da história de nossas vidas com nossos amigos e familiares”. Mas a história aqui vai muito além das vivências: engloba gostos, interesses, recomendações, produtos escolhidos e consumidos e seus devidos porquês e muitos outros elementos capazes de transformar a experiência dentro de uma rede social. Como disse Arianna Huffington, criadora do jornal online Huffington Post, durante viagem ao Brasil recentemente, “confiança é o novo preto”. É o tal do “diz-me do que gostas que gostarei junto contigo”. Apetitoso. Mas assustador assim mesmo.