A verdade dos outros

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Cultural

Agencia Voz - Rian Santos e Henrique Maynart

Folheie um jornal. Impressos na página, a maioria dos fatos rebentarão para você somente nesse instante. Antes, os episódios sangrentos das páginas policiais sequer faziam sombra. Agora, emprestam a nódoa de sua vulgaridade ao leitor, o dia inteiro incomodado com as agulhas atravessadas no corpo da criança. 

Já foi dito que a imprensa vem cumprindo uma função meramente cartorial. Para existir frente aos olhos da população, os fatos precisam ser registrados pelas lentes do Fantástico, ganhar a primeira página da Folha de São Paulo, ou pelo menos um pé de página de algum periódico provinciano. Sem isso, eles simplesmente não existiriam. O problema é que qualquer leitura da realidade, dentre elas a leitura realizada pelos veículos de comunicação, corresponde apenas a uma compreensão parcial dos fatos que, uma vez publicada em forma de notícia, adquire uma áurea de verdade absoluta, inquestionável e soberana.

Vejamos algumas escolhas realizadas pela imprensa sergipana. Ao se debruçar sobre o desfecho do caso Pipita, por exemplo, o Cinform comemorou o assassinato do adolescente com uma sutileza característica. Naquela ocasião, a manchete do semanário o mandou para “o quinto dos infernos”, literalmente. Condenável, uma vez que criminaliza a pobreza e a juventude sem investigar as causas que ajudariam a explicar o comportamento criminoso do rapaz, esse comportamento reproduz uma lógica perversa, que atesta a falência do Estado e preconiza que bandido bom é bandido morto.

Assim como no caso pipita, a cobertura aferida aos conflitos que envolvem o CENAM é completamente míope e pragmática, apontando para uma conduta criminalizadora e reducionista.  Quando se fala em CENAM, USIP ou qualquer unidade socioeducativa do estado, as páginas, imagens e sons que alicerçam a imprensa sergipana só querem saber de rebelião, fugas e abusos. No entanto, cabe a pergunta: Quantos conhecem a realidade dos jovens encarcerados? Onde está a discussão, tão fraterna quanto necessária, sobre a inclusão de políticas de cunho realmente socioeducativo para o setor?  Nada disso importa para a nossa imprensa tupiniquim – com todo o respeito aos povos originários, não nos entendam mal. O que importa é o espetáculo noticioso dos “menores” infratores e dos “cangaceiros mirim”, que ilustram o bloco dos “vilões” do faroeste sergipano.

Será que o leitor deste texto se lembra do caso envolvendo a comunidade de Resina, na foz do Velho Chico? Refrescando a memória: Resina é uma comunidade de pescadores artesanais assolada pela ausência do poder público em serviços fundamentais, tais como saneamento básico, energia elétrica e água encanada. Mesmo com todos os obstáculos, o grupo de cerca de 100 famílias insistem em se manter na foz do município de Brejo Grande, sustentados por um modelo de vida pesqueiro que herdaram dos pais e avôs. A construtora Norcon, atenta aos potenciais turísticos da região, se interessou pelo terreno e tentou negociar a sua venda para construir um daqueles mega-resort’s típicos das novelas de Manoel Carlos, recheadas de gente branca e chorona.  Diante da negativa por parte dos moradores, a implacável Norcon começou a “tocar o terror” na comunidade, sendo acusada de estar por trás das ameaças concretizadas no incêndio criminoso da casa de doze famílias. Indignado com a situação da comunidade, o jornalista Cristian Góes escreveu um artigo em seu blog no portal Infonet, denunciando os abusos e denúncias em Dezembro do ano passado. Após algumas horas o artigo praticamente ”caiu” por exigência da construtora, já que esta é uma das grandes anunciantes no portal.  Eu não sei se vocês sabem, mas o nome disso é censura! Felizmente, o artigo voltou ao ar depois de muita gritaria e denúncias no rádio, mas o peso da privação e da autocensura ainda impera sobre os trabalhadores jornalistas da mídia sergipana. Quer ver o artigo na integra? Vê !

A história de nossa imprensa é pontuada por diversos fatos parecidos. O exemplo recente mais emblemático, no entanto, talvez tenha como cenário a comunidade do Pantanal. Enquanto os movimentos sociais não entenderem a necessidade de se organizarem em torno de veículos de comunicação que se oponham ao modelo corrente, a verdade dos outros continuará prevalecendo.

 

fonte: www.agenciavoz.com.br