Cultura do Medo

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Marcos Rolim Em 28 outubro de 1970, uma matéria de Judy Klemesrud,do New York Times,chamou a atenção dos EUA para aquela que parecia ser uma terrível ameaça:crianças estariam sendo envenenadas ou drogadas com doces. A matéria começava assim: “Neste final de semana, as guloseimas de Halloween de ‘travessura ou gostosuras’ (“Trick or treat”) talvez causem mais pavor que alegria…Pegue, por exemplo, aquela vistosa maçã vermelha…talvez haja uma gilete escondida dentro dela..o chiclete pode ter sido borrifado com soda cáustica, a pipoca com cânfora e as balas podem ser pílulas para dormir”. Nos anos seguintes, houve muitas outras matérias do tipo. Em 3 de novembro de 1975, a revista Newsweek afirmou que: “Se o Halloween seguir a tradição, algumas crianças voltarão para casa com algo mais do que o estômago revirado: nos últimos anos muitas morreram e centenas escaparam por um triz de serem feridas por giletes, agulhas de costura e pedaços de vidro colocados de propósito por adultos nas guloseimas”. Por conta dessas reportagens, as famílias americanas alteraram seu comportamento, muitas crianças deixaram de pedir doces no Halloween e doses extras de medo e revolta passaram a alimentar o cotidiano das pessoas. Em 1985, uma pesquisa da ABC News em conjunto com o Washington Post mostrou que 60% dos pais temiam que seus filhos fossem vitimados por balas envenenadas. O surto de temor e indignação percorreu o mundo e mesmo no Brasil há quem imagine, ainda hoje, que seus filhos correm riscos semelhantes e que traficantes podem oferecer doces que camuflem drogas nas escolas. As matérias sobre o tema foram, entretanto, desmascaradas por um sociólogo desconfiado chamado Joel Best que examinou cada um dos casos de “envenenamento de crianças” desde 1958 nos EUA. O que Best descobriu e revelou em 1985 é que nunca houve um só caso de morte de crianças nos EUA por envenenamento no Halloween. Fora alguns incidentes secundários derivados de brincadeiras, a pesquisa encontrou dois casos sérios inicialmente atribuídos à envenenamento com doces: no primeiro, uma criança morreu após ingerir heroína na casa do tio. Seus pais, então, rechearam confeitos com a droga para criar uma história que não os incriminasse. No segundo caso, um menino morreu após ingerir uma bala com cianureto, mas a polícia descobriu que seu pai havia preparado o doce para matá-lo e receber o seguro. Essas e muitas outras histórias estão em “Cultura do Medo”, de Barry Glassner, (ed. Francis, 2003) livro que inspirou o documentário “Tiros em Columbine” de Michel Moore. Acho que tanto o livro quanto o filme deveriam estar disponíveis em todas as redações de nossos jornais, em todas as emissoras de rádio e televisão. Nossos jornalistas podem, afinal, contribuir para que a indústria do medo lucre menos, para que os demagogos tenham menor audiência e para que a demanda punitiva pare de crescer. Isso seria importante porque, como o disse Samuel Taylor Coleridge: “Em política, o que começa no medo normalmente termina na loucura”.