Nota Pública sobre a matéria veiculada no programa Fantástico, da Rede Globo, sob o título “humilhaç

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A propósito da reportagem veiculada no Fantástico, dia 21 de novembro, sobre violência psicológica de professores a estudantes, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE, lamenta que não tenha sido procurada para oferecer subsídios acerca do tema, visto que temos produzido ao longo dos últimos 5 anos, conhecimento específico sobre a atividade docente em todas as suas vertentes e oferecido propostas de políticas públicas que visam, sempre, o bem maior da educação pública brasileira. Sobre a reportagem, a CNTE faz as seguintes considerações: – Embora não seja gerada na escola e nem por ela, a violência chegou à instituição com tal intensidade que, em alguns centros urbanos a profissão passou a envolver risco de vida. Na pesquisa Retrato da Escola 2, realizada em 2002 pela CNTE, foram investigados o consumo e o tráfico de drogas dentro e nas imediações da escola, bem como a presença do fator droga em situações que envolvem agressão, roubo, furto, pichação, sujeira, depredação e índices de consumo e tráfico. Uma das conclusões da pesquisa indica que o ambiente de trabalho sob essas condições influencia negativamente o desempenho de alunos e trabalhadores em educação. Portanto, se a violência psicológica e a humilhação a estudantes são absolutamente condenáveis e devem ser apurados com rigor, não são, em geral, de responsabilidade dos educadores. – As condições de trabalho dos professores do ensino público são insatisfatórias e vêm acarretando diversos problemas na categoria. Os educadores brasileiros ganham mal, têm poucas oportunidades de se atualizar e suas condições de vida e trabalho são muito ruins devido aos baixíssimos salários; por conta dessas dificuldades, eles se desdobram em vários empregos. A pesquisa Retrato da Escola 1, encomendada pela CNTE, revelou que os professores sofrem de burnout, doença profissional caracterizada pela exaustão emocional, que provoca despersonalização e perda de envolvimento emocional com o trabalho. O burnout tem levado 48% dos professores ao afastamento. Condições como essas embora não justifiquem a violência, ajudam a entender a existência de casos relatados na reportagem. – Tal situação poderia ser minimizada se houvesse por parte dos governos um programa sólido de educação continuada, qualificação e a valorização profissional de educadores. A CNTE defende, como parte de uma política pública global voltada para a educação, a criação do Fundeb a fim de garantir mais recursos; a adoção de um piso salarial nacional; formação inicial e continuada; a implantação de uma política de saúde que leve em conta as particularidades dos educadores; melhores condições de trabalho; previdência pública; a implantação de um sistema nacional de educação e a gestão democrática, bem como todas as políticas públicas voltadas para o direito de aprender. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação reúne 35 sindicatos de professores e funcionários de todos os estados, representando cerca de 2,5 milhões de educadores das redes públicas da Educação Básica. As pesquisas Retrato da Escola 1 e 2 estão disponíveis no site www.cnte.org.br Envie sua opinião a respeito da matéria ao Fantástico Humilhação Aconteceu sexta-feira, 12 de novembro. Às 13:00, escola cheia. O garoto de 7 anos está na sala de aula com seus colegas. Às 18:00, escola vazia. E ele ali, sozinho. Resultado de um castigo. O menino estuda na primeira série do ensino fundamental de uma escola em Nova Odessa, a 120 quilômetros de São Paulo. Ele conta que ficou de castigo porque não devolveu um livro à biblioteca da escola. A professora mandou que ele ficasse em pé no canto da sala. E ele ficou aí por três horas. A aula acabou, os alunos foram embora, a professora foi embora, e ele foi encontrado uma hora depois da escola estar com as portas fechadas, encostado em um portão. – O que a professora te disse? – Pra eu ficar lá até na hora de bater o sinal. Nariz encostado na parede – Mas você viu todo mundo indo embora, que a escola ia fechar? – Vi. – E por que você não avisou, que estava lá? – Eu tava com vergonha. A mãe denunciou o caso na polícia. A prefeitura abriu sindicância. A professora, Tânia de Araújo Costa, foi afastada por 30 dias, e por telefone, negou tudo. “Não sou mulher de mentir. Não sou mulher de mentir”, afirma Maria Luzineide Silva, mãe do garoto. “Nós, educadores e psicólogos, sempre tendemos a acreditar na versão da criança”, diz a psicopedagoga Sônia Koehler. Se a versão do garoto se confirmar, ele sofreu um ato de violência psicológica, considerado crime de tortura. “Ele sofreu um tipo de violência psicológica, que foi ser negligenciado, ser esquecido, como se fosse um objeto, desprezado”, explica Sônia. Pior. Ele não é o único. Uma pesquisa inédita prova que a violência psicológica está sendo uma prática comum nas escolas. A pesquisa foi feita com alunos de 8ª série de escolas públicas e particulares, da região do Vale do Paraíba, interior de São Paulo e revela detalhes do tipo de violência psicológica sofrida dentro da escola. Dos 520 alunos entrevistados, por exemplo, 54% afirmam que receberam apelidos por parte dos professores e que se sentem humilhados por causa disso. Bolão, Cabeçudo, Maria Privada, Nanico e Caroço de Manga, são alguns dos apelidos que alunos afirmam ter recebido dos professores. “Dependendo do tipo do apelido ele pode causar humilhação na criança, baixa estima, sentimentos de inferioridade”, explica a psicopedagoga. Mas a principal reclamação é quando os professores gritam. Em torno de 30% a 40% dos professores gritam com os alunos, de forma que eles se sentem humilhados, inferiorizados, desorientados dentro da sala de aula. A pesquisa mostra também, que a prática da violência psicológica aumenta conforme a idade do professor, aparecendo principalmente entre os maiores de 40. E, na maioria das vezes, são professores de matemática, história e português. A violência psicológica nas escolas foi pesquisada também através de desenhos. A pesquisa pediu para que os alunos desenhassem o seu pior professor desde o dia em que eles entraram na escola. “Podemos ver, por exemplo, este aqui, com a régua em riste na mão e o professor dizendo ´Sua mãe deve ser uma palhaça´. Ela ouviu isso do professora”, mostra Sônia. Segundo a pesquisa, 36% dos desenhos mostram o professor em atitudes desfavoráveis, ou seja, agressivo, rangendo os dentes, ou com olhar de reprovação. Num deles, a professora aparece dizendo que não gosta de dar aula. Em outro, o aluno está chorando. E 23,8% mostraram o professor como figuras que causam medo, como diabos, bruxas. Em 14% dos desenhos, os professores aparecem como pessoas descuidadas com sua imagem pessoal, geralmente gordos e descabelados. Até com uma garrafa de pinga ao lado. “Uma criança que sofre violência psicológica na escola, será um adulto provavelmente inseguro, um adulto com medo de enfrentar situações. Os educadores precisam olhar para isso”, alerta a psicopedagoga