Venezuela: O ódio de classe dos ricos por Emir Sader

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Ao quebrar a cadeia corporativa da indústria petrolífera, o governo Chávez recuperou para o Estado e para o povo venezuelano seu patrimônio. A direita tem consciência disso e se sente ultrajada, porque dirigia um país feito para os ricos. O spot no canal 8 – um dos dois estatais da TV venezuelana – passa, a cada intervalo, trechos de uma entrevista de um conhecido ator de cinema e televisão, que, em Miami, afirma coisas como: “É preciso aniquilar os cachorros, a começar pelo chefe.” Perguntado se ele estava pregando o assassinato, ele respondeu: “Sim, hoje em dia existem fuzis com miras telescópicas. Pode-se também contratar comandos israelenses – como é preciso fazer.” Essas palavras são apenas uma das revelações do tipo de ódio e de rancor da oposição venezuelana contra o governo de Hugo Chávez, exacerbados pelas derrotas eleitorais das últimas semanas. Ainda não fica claro qual a nova estratégia da oposição, que tem nas eleições parlamentares de março de 2005 seu novo marco institucional. O pleito vai colocar de novo para essas forças o dilema entre participar – com o risco de sofrer nova grande derrota – e tentar boicotar, facilitando a vitória sobre o governo. Deve existir a consciência na oposição – e, principalmente no governo Bush, onde reside o comando estratégico da oposição ao governo venezuelano, conforme revelado recentemente por documentos publicados – de que seria preciso atingir um dos dois pilares do poder de Hugo Chávez – as forças armadas e o petróleo –, para poder tentar abalar a continuidade do governo venezuelano. Não é possível vislumbrar hoje que nova estratégia seja assumida pela oposição. O assassinato do promotor que investiga crimes praticados pela oposição pode ser um indicador, mas não é possível ainda apontar que ele representa uma nova linha geral da oposição. Enquanto isso, o governo aproveita a nova lua de mel tornada possível pela derrota da oposição no referendo e nas eleições para estender suas políticas sociais. Estas representam o investimento estratégico mais importante do governo de Hugo Chávez. Para acelerá-las e assim aumentar o apoio ao seu governo, chávez utiliza os royalties do petróleo, grandes, pelos altos preços no mercado internacional. Foi possível, durante a realização do Encontro Mundial de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade, que aconteceu de 02 a 07 de dezembro em Caracas, visitar a capital e algumas das “missões”, como o governo chama seus novos projetos sociais. Fomos, junto com os jornalistas Ignácio Ramonet, Bernard Cassen e outros, visitar programas na favela chamada Novo Horizonte. Conhecemos programas de saúde, todos com médicos e dentistas cubanos – de um total de cerca de 20 mil trabalhando no país –, que vivem em quartos de famílias da própria comunidade, e escolas, que passaram a ficar abertas 24 horas por dia, a semana inteira, para que a comunidade utilize suas dependências para reuniões e para o lazer. Pudemos constatar como tão absurdo quanto o Brasil, com a extensão territorial que possui, ter um problema agrário – como ressalta o Veríssimo –, é a Venezuela, com a riqueza petrolífera acumulada nas últimas décadas, ter tanta miséria e abandono. Só mesmo a acumulação desenfreada de riquezas concentradas nas mãos das suas elites predatórias pode explicar que tanta riqueza e tanta pobreza sobrevivam lado a lado. Ao conseguir quebrar a cadeia corporativa em que estava encerrada a PDVSA, o governo Chávez recuperou para o Estado venezuelano e para o povo desse país o patrimônio essencial de que agora começam a desfrutar, mediante a prioridade do social promovida pelo atual governo. A direita tem consciência disso e se sente ultrajada, porque dirigia um país feito para os ricos. Se sente agora expropriada do que considerava seu patrimônio, de que os presidentes da república eram simples administradores. Não podem perdoar. Por isso podemos imaginar que a Venezuela vive hoje um período de calmaria que precede uma nova tempestade. É um botim demasiado importante para as classes dominantes do país e para o poder imperial norte-americano, para que aceitem perdê-lo sem jogar tudo o que podem para tentar impedi-lo. Mas a verdade é que hoje a ordem e a paz reinam na Venezuela, graças ao apoio majoritário na população conseguido por Hugo Chávez e seu governo. Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História”.