Por que é necessário fazer a Reforma Agrária no Brasil?

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Caros amigos e amigas do MST, O Brasil possui graves problemas econômicos e sociais, resultantes da forma como se distribui a propriedade da terra e como se organiza a produção na agricultura. O andamento da Reforma Agrária em nosso país segue a passos lentos. Existem hoje mais de 200 mil famílias Sem Terra acampadas em lonas pretas, à beira de latifúndios improdutivos, e 4,6 milhões de famílias sem-terra vivendo numa situação de extremo abandono. A política de Reforma Agrária já foi criticada inclusive pela Organização das Nações Unidas (ONU), em relatório recente sobre condições de moradia no Brasil. Segundo o plano nacional de Reforma Agrária elaborado pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA), existem 55 mil imóveis rurais classificados como grandes propriedades improdutivas, que detêm 120 milhões de hectares. Essas terras deveriam, por lei, ser desapropriadas e imediatamente entregues às famílias de trabalhadores. Mas a elite latifundiária brasileira buscou estratégias para impedir o avanço da Reforma Agrária. Por sua influência no poder Judiciário, vários trabalhadores rurais foram presos. Nos meios de comunicação, o ataque constante aos movimentos sociais e as propagandas sistemáticas favoráveis ao agronegócio tentavam inibir nossa luta. Ao mesmo tempo, a bancada conservadora do congresso nacional instituiu uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI), que tinha entre suas pautas investigar a violência no campo e vêm cumprindo um papel de tentar desmoralizar o MST na opinião pública, criando factóides sobre os recursos financeiros. Como conseqüência, em 2003 foram assentadas 14 mil famílias, e em 2004 não chegaram a 50 mil. A proposta inicial do governo, estabelecida após uma marcha à Brasília com milhares de trabalhadores e trabalhadoras rurais ligados aos movimentos sociais do campo, era de assentar 430 mil famílias em três anos, priorizando as famílias acampadas. Começamos 2005 com o corte de 2 bilhões no orçamento do MDA, previsto em 3,4 bilhões. O dinheiro economizado foi utilizado, mais uma vez, como garantia ao pagamento dos juros da dívida externa. E mais de 66% dos trabalhadores rurais ficaram sem acesso à créditos e subsídios agrícolas. A burguesia agrária, aliada às transnacionais, construiu o discurso do sucesso do agronégocio e continua dando as cartas dentro do governo, apesar do fracasso da safra de soja desse ano. O ministro da Agricultura, seu representante máximo, conseguiu rapidamente renegociar as dívidas dos grandes produtores de soja do centro-oeste com o banco do brasil, avaliadas em 6 bilhões de reais. Esses fazendeiros beneficiados, junto com o capital financeiro internacional, continuam se esforçando para convencer a sociedade brasileira que o modelo de agricultura desenvolvido por eles está colaborando com a política econômica, ao se dedicar para exportação. O agronegócio é mostrado como sinônimo de modernidade, mas as propriedades acima de mil hectares empregam apenas 600 mil assalariados, e possuem somente 5% da frota nacional de tratores. E em um universo de 5 milhões de proprietários, menos de 1% do total, cerca de 26 mil, são donos de 46% das terras. As 300 maiores propriedades agrícolas somam uma superfície igual aos estados do Paraná e São Paulo juntos. Mesmo estando no país que mais concentra terra no planetas, as pequenas propriedades empregam 13 milhões de trabalhadores familiares e mais de 1 milhão de assalariados, e detêm 52% de toda a frota nacional de tratores. Em todos os produtos agrícolas, a pequena propriedade tem índices de produção superiores aos das grandes propriedades. Apenas alguns exemplos: na produção de leite, os pequenos respondem com 71,5% do total e as grandes propriedades com 1,9%; na de suínos, os trabalhadores rurais respondem por 87,1% e os latifúndios com apenas 1,7%; na produção de café, a pequena propriedade corresponde a 70% da produção. Diante desse cenário, há mais de 20 anos nos mobilizamos para exigir uma vida mais digna para os trabalhadores e trabalhadoras do campo, e adotamos várias formas de luta, entre elas as marchas. Em 17 de abril, dia mundial de luta pela terra, começará uma marcha nacional pela Reforma Agrária com 10 mil trabalhadores e trabalhadoras. Para o MST, a Reforma Agrária deve vir casada com agroindústria, educação e uma nova tecnologia agrícola que respeite o meio ambiente. Essa é a forma mais rápida e mais barata do governo criar 3 milhões de empregos no campo. Aos pobres, só resta se organizar e lutar por seus direitos assegurados na Constituição Federal do Brasil. fonte: MST