Pesquisador afirma que avaliação de desempenho não deve ser imposta

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cORUJA

Visando a compreensão acerca da avaliação de desempenho do governo estadual, o cORUJASintese já começa a realizar debates. A ideia é levar a discussão para todas as escolas através de fóruns. Em nota aprovada em assembleia lançada anteriormente, o posicionamento contrário ao método adotado pelo governo era justificado a partir de elementos previstos no próprio “índice- Guia”.

Longe de ser uma ferramenta de avaliação da educação da rede pública estadual, o mecanismo copiado de Minas Gerais pressupõe distinção entre os alunos e entre os professores. Classificando os primeiros como “avançados” ou “com dificuldades de aprendizagem” e os educadores como “de excelência” ou “insuficientes”.

Para resistir a esse modelo já foram feitos debates em Itabaiana, Estância e Tobias Barreto – este na última sexta-feira (8). As atividades continuam durante os meses de julho e agosto. Professores da Aracaju e da região metropolitana têm encontro marcado às 15 horas, quarta-feira (13). Durante a reunião organizativa, será elaborado o calendário e discutida a metodologia para as discussões nas escolas.

Confira a agenda dos outros municípios:

Dia 14 de julho: reunião em Ribeirópolis, às 19 horas. A atividade contará com a participação dos educadores de Moita Bonita, São Miguel do Aleixo e Malhador.

Dia 15 de julho: a discussão é na cidade de Simão Dias, às 14h30min.

Dia 16 de julho: acontece em Neopólis, às 13 horas, reunião em conjunto com Santana do São Francisco, Ilha das Flores, Brejo Grande, Japoatã e Pacatuba.

Dia 30 de julho: atividade em Capela, às 08h30min.

Dia 04 de agosto: o debate em Lagarto ocorre às 08h30min e participam também professores de Riachão do Dantas, Pedrinhas, Boquim, Salgado e Poço Verde.

Uma avaliação de desempenho profissional deve estabelecer critérios bem definidos e uma negociação entre avaliadores e avaliados, com o objetivo de conquistar a aceitação de quem se submete às provas. Este é o pensamento de Bernard Charlot, pesquisador e professor emérito de Ciências da Educação da Universidade Paris VIII. Nascido na França, Bernard está no Brasil há dois anos e mora em Aracaju há quase um ano. Ele é membro do Comitê Internacional do Fórum Mundial de Educação de Porto Alegre e tem 11 livros publicados, o último em maio deste ano pela Artmed, intitulado: “Relação com o saber, formação dos professores e globalização”. Em entrevista ao SINTESE, o professor Bernard expôs suas idéias sobre avaliação de desempenho no serviço público e citou o modelo francês: SINTESE – Qual o conceito de avaliação relacionado a um sistema educacional? BERNARD CHARLOT – Quando se fala em avaliação, sempre se tem um questionamento sobre quem quer avaliar quem, por que, para quê, a pedido de quem e com quais critérios. Esse é o problema básico da avaliação. A avaliação nunca é um ato puramente técnico, é sempre um ato que se encaixa numa situação social mais ampla e, na minha opinião, atualmente, o problema fundamental é o dos critérios de avaliação. Por um lado, um funcionário público, um docente, por exemplo, não pode se recusar a ser avaliado porque ele não pode recusar o pedido da sociedade de ter docentes eficazes. Quando levo meus filhos a um hospital público, espero encontrar um médico eficaz e quando os pais levam seus filhos às escolas, eles têm o direito de encontrar professores eficazes. Acho legítimo o pedido de ter professores eficazes. A preocupação de avaliar o professor na sua eficácia é legítima, mas o problema está nos critério que vão ser utilizados. O que é um bom professor? Nas discussões atuais entre administradores, políticos, pesquisadores, sabe-se que a primeira coisa a ser feita para avaliar, não apenas um professor, mas um funcionário público, é realizar negociações com esses funcionários, para melhor definir o que se espera deles e quais serão os critérios de avaliação. SINTESE – O que o senhor entende por sistema de avaliação de desempenho? BC – O que posso dizer é como funciona na França. Lá existe um sistema para avaliar a educação infantil até o ensino médio, em que o professor cresce na classificação profissional e salarial, de acordo com o tempo em que ele ensina. Isto significa que, por exemplo, um docente sobe na escala a cada dois ou três anos e, quando sobe, tem aumento de salário. Todos sobem, inclusive os professores considerados ruins. É um sistema em que existe uma fiscalização dos professores. O professor recebe uma nota do fiscalizador, mais uma nota administrativa, atribuída pelo diretor, e os que alcançam uma melhor nota, sobem mais rápido que os outros. Este é um sistema em que todos vão subir de acordo com o tempo de serviço público. O fiscalizador, que já foi professor e fez um concurso para assumir a função, não é alguém que vai fiscalizar sem nunca ter ensinado, é um ex-colega, portanto sabe o que é uma sala de aula. Os docentes franceses aceitam bem esse sistema. A avaliação é muito subjetiva porque o fiscalizador conversa com o diretor e passa um tempo na sala de aula com o professor, isso só não acontece no ensino superior. Esta é uma prática constante, a função de fiscalizador é uma profissão e, se ele não fizer o seu trabalho, o professor vai reclamar. Se o fiscalizador não for à escola, a nota do professor não vai subir, então vai melhorar sua situação salarial, mas num ritmo lento, apenas de acordo com o tempo de serviço. É uma avaliação constante, a cada dois ou três anos, e o fiscalizador também é avaliado no seu trabalho. Depois de assistir à aula, o fiscalizador conversa com o professor, que explica a situação em que ele trabalha e diz as dificuldades que ele encontra com os alunos. Mas, na minha opinião, existe uma falha neste sistema, é que o ponto mais importante não é avaliado. Esse ponto é saber se o professor consegue ensinar coisas a seus alunos e, se consegue, participa da educação deles, da construção de quadro de entendimento da vida. Este é um processo difícil também. O que se faz em algumas escolas inovadoras, às vezes com o apoio dos fiscalizadores, é um trabalho de avaliação de toda a equipe da escola. Em vez de cada professor ser avaliado, o conjunto de professores avalia o funcionamento da escola e negocia com o fiscalizador qual será a nota. Isso porque o importante é o conjunto de professore e o pessoal da escola, que se une para saber o que dá certo nesta escola, o que não dá certo e como é possível melhorar. Acho importante avaliar o trabalho de uma equipe. A escola é feita para que o aluno aprenda, no sentido geral, para desenvolver sua inteligência, seu raciocínio, para construir cidadania. Para melhor atingir um resultado, é preciso saber como se deve gerir os professores e, neste trabalho de gestão, qual deve ser o lugar da avaliação. E para implantar um sistema de avaliação, é preciso saber o que deve ser feito para os professores aceitarem o sistema. Acho que esse procedimento é fundamental, e não, o fato de existir ou não uma avaliação. O professor deve ser eficaz, como um médico, ou qualquer funcionário do serviço público. O problema é o critério de avaliação utilizado e o lugar da avaliação num conjunto mais amplo, que é o da escola que educa, forma, ensina aos homens. Não estou dizendo que o sistema francês deveria ser aplicado no Brasil. Estou dizendo que o professor deve ser respeitado porque é agente da cidadania. É através do educador que o aluno entende que deve respeitar a si, aos outros e que cada um tem sua dignidade. SINTESE – Qual a melhor metodologia para a realização de uma avaliação de desempenho na área de educação? BC – Quem avalia e quem será avaliado deve fazer reuniões para que as regras do jogo estejam claras. Existe conflito quando se implanta um sistema de avaliação sem uma negociação para saber o que vai ser legítimo. Neste caso, por um lado tenta-se impor um sistema, por outro sente-se vítima de um chefe que vai avaliar sem conhecer as minhas condições de trabalho, porque isso também é um problema. O que se sabe das pesquisas de avaliação é que não se pode avaliar um profissional sem levar em consideração a situação em que ele trabalha. É claro que quando um professor trabalha num bairro de classe média, tem condições de trabalho bem diferentes, geralmente de equipamentos da escola, mas também de ajuda dos pais aos filhos que vão fazer suas atividades em casa. Essas não são as mesmas condições de um professor que trabalha na favela. Todos sabem disso: o professor sabe, o diretor sabe, os responsáveis administrativo e político sabem, e essa situação deve ser levada em consideração na avaliação. Às vezes, quem implanta um sistema de avaliação pretende considerar isso, mas não informa a quem vai executar a avaliação. A própria idéia de ser avaliado gera um receio no ser humano: por que vão me avaliar? Atualmente, é difícil ser professor, em qualquer parte do mundo, o professor está sempre exposto à opinião pública. O que o professor faz, dá resultados de acordo com o que o aluno faz. O professor pode fazer um trabalho muito bom, mas se o aluno não quiser estudar vai ser um fracasso, então ele é muito sensível a essa situação. Outra questão a se analisar é que se prioriza a avaliação, como se a avaliação fosse mais importante do que o ensino. Hoje, em muitas situações, em vez de ensinar as coisas mais importantes, ensina-se o que pode ser avaliado. No Brasil, para avaliar, usa-se muito o sistema de marcar ‘x’, de verdadeiro e falso, fazendo com que não se escreva muito e isso não é bom para a formação dos alunos, nem para os professores. Em primeiro lugar está a qualidade do professor. Para o professor ter qualidade, deve receber formação e ter boas condições de trabalho. Ele deve também ser avaliado, mas não se pode esquecer a formação e qualificação do professor. Do contrário, valoriza-se o que é secundário, e não, o que é primário. Na minha opinião, em qualquer lugar do mundo, deve-se considerar ao mesmo tempo a formação e a avaliação do educador. Deve-se organizar discussões entre quem vai avaliar e quem vai ser avaliado sobre as duas coisas ligadas, para definir regras claras, honestas e com transparência para amenizar os receios dos professores. Chamo a atenção para um problema fundamental. Na verdade, não importa a avaliação, o que importa é a formação. Mais importante que a formação do professor é a formação do aluno e deve-se partir desse ponto para melhorar o funcionamento da escola. Depois chega-se até a avaliação, através da negociação. Existe também uma cultura do professor que não podemos esquecer. Muitos docentes terminaram os estudos e se tornaram professores, vivendo num ambiente em que a nota é o professor quem dá para o aluno. Então, quando se quer avaliar o professor, ele se sente, muitas vezes, infantilizado porque está acostumado a avaliar os alunos. O docente se sente como aluno, como uma criancinha, é a sua dignidade que está sendo ferida, por isso deve-se conversar e explicar o sentido da avaliação a ele, como adulto. Esses professores nunca viveram no mundo da produção privada. É preciso conhecer mais a cultura dos docentes para discutir e negociar com eles, com o objetivo de melhorar a situação da escola andando juntos. SINTESE – O que o senhor pensa sobre a concessão de uma gratificação através da avaliação de desempenho profissional? BC – Continuo com o exemplo da França. Lá existe uma gratificação indireta porque quem alcança boa nota na avaliação, sobe mais rápido na classificação profissional e salarial. Acho bom esse sistema porque a gratificação não é diretamente ligada ao trabalho do professor, mas à sua classificação na escala. Ele vai subir mais ou menos rápido, de acordo com a avaliação, mas não existe uma ligação direta. Criaram também na França uma gratificação especial para quem trabalha em áreas difíceis, que correspondem às favelas no Brasil, mas não deu certo. Fizeram a mesma coisa na Inglaterra há cerca de trinta anos, mas também não deu certo. É muito difícil ensinar nessas áreas, então o professor quer um trabalho mais tranqüilo e, geralmente, a gratificação é pequena, não compensa, por isso não deu certo na França e na Inglaterra.