Minha despedida de Paulo Freire

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Corinta Maria Grisolia Geraldi- Faculdade de Educação/Unicamp Estava no velório do Paulo Freire, tentando tratar internamente a sua perda, tão difícil de incorporar para quem teve o privilégio de conhecer e ter um certo convívio com ele (uma pessoa que provocava admiração porque procurava viver quotidianamente como pensava e vice-versa). Durante duas horas ficamos aguardando a chegada de seu corpo no Teatro do TUCA/PUC-SP. Foi um momento de rever amigos, companheiros nas lutas da educação e da política, encontro propiciado, mais uma vez, por ele. Poucos minutos depois de sua chegada, juntamente com o tumulto que ela provocara, com flashes e câmeras para todo o lado, procurando captar todas as cenas de sofrimento, especialmente da família e de autoridades presentes, mais aturdida ainda eu estava, meditando a frase da Nita (Ana Maria, mulher de Paulo, que contou ao Wanderley e a mim que o Paulo Freire teria falado em nós uma semana antes de morrer). Todos os que lá se encontravam, estavam muito emocionados. Nesse momento, vi passar, de mão em mão, uma barra de giz. Entendi que alguém pedira, não sei quem…nem para quê… Como ainda estavam arrumando o local, imaginei que fosse para escrever algo em algum quadro de avisos do Teatro, ou algo parecido. Afastei-me um pouco do burburinho, observando e tentando ver o Paulo, para acreditar em tudo aquilo. Fui compreender a finalidade daquela barra de giz certo tempo depois, quando autoridades, jornalistas e família tinham liberado o espaço para que pudéssemos nos despedir do Paulo. Ao me aproximar de seu corpo, notei que a barra de giz estava nas mãos de Paulo Freire. Ele foi enterrado com aquela barra de giz branco na mão. Como o professor que tinha sido durante toda a vida, com sua incomensurável capacidade de amar seu trabalho, de se apaixonar, de apostar nos oprimidos, mesmo nos momentos mais adversos. Seu provável último livro é um pequeno livro, denominado Pedagogia da Autonomia (Paz e Terra, 1997) e trata do ensino. É como um testamento de suas crenças que deixa a todos nós, professores do Brasil e do mundo, que compreendemos (com ele), que nosso trabalho é muito importante e que, contraditoriamente, quanto mais as elites pensam “promover a educação”, menos o fazem se desconsideram o professor e a professora, aqueles que trabalham quotidianamente, com os educandos na escola -as crianças, jovens e adultos que, apesar de tudo e da escola que temos em nosso país, ainda insistem em querer estudar. Paulo Freire disse num Seminário na PUC/SP, ano passado, quando foi debatedor de Antonio Nóvoa, que agora, mais que nunca, sentia-se um socialista, detestava esses valores de mercado com os quais se pesa o valor das pessoas. Dizia: quanto mais falam que o socialismo terminou, mais o sinto arraigado e renovado nos movimentos ecológicos, das mulheres, dos negros, dos sem-terra… Disse, há pouco, em entrevista a Fernando Rosseti, dia 27 de março, em Nova York, publicada dia 03 de maio na FSP: “…Você já observou como as autoridades brasileiras, por mais discursos democráticos que elas façam, nunca acreditam na autonomia das educadoras, na possibilidade que as educadoras têm de manejar suas escolas? Elas entopem as escolas de pacotes, de diretivas, de guias. Isso é uma das tradições histórico-autoritárias desse país, que é o chamado centralismo. Quer dizer, o centro do poder não acredita na periferia, despeja ordens a serem seguidas, que chamam mais discretamente de orientações”. Em seu último livro, ele declara nas “Primeiras Palavras”: …’É nesse sentido que reinsisto em que ‘formar’ é muito mais do que puramente ‘treinar’ o educando no desempenho de destrezas, e por que não dizer também da quase obstinação com que falo de meu interesse por tudo o que diz respeito aos homens e às mulheres, assunto de que saio e que volto com o gosto de quem a ele se dá pela primeira vez. Daí a crítica permanente presente em mim à malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à utopia. Daí o tom de raiva, legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de observador imparcial, objetivo, seguro, dos fatos e dos acontecimentos. Em tempo algum pude ser um observador ‘acinzentadamente’ imparcial, o que, porém, jamais me afastou de uma posição rigorosamente ética.’ (p.15) Uma grande lição que nos deixa é a de nunca ter perdido a humildade, de ter dito sempre não à arrogância possibilitada pelo acesso privilegiado ao conhecimento, numa sociedade tão desigual e de seu amor pela vida e sua incomensurável esperança. O professor Paulo Freire assim encerra seu último livro publicado no Brasil: “Estou convencido, porém, de que a rigorosidade, a séria disciplina intelectual, o exercício da curiosidade epistemológica não me fazem, necessariamente, um ser mal amado, arrogante, cheio de mim mesmo. Ou, em outras palavras, não é a minha arrogância intelectual a que fala de minha rigorosidade científica. Nem a arrogância é sinal de competência nem a competência é causa de arrogância. Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausências de simplicidade que, não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor. Gente mais gente.” (Pedagogia da autonomia,1997, p.165). Paulo Freire foi o brasileiro mais lido no exterior, fora da ficção (livros de ensaios). Seu principal livro, “Pedagogia do Oprimido”, traduzido para inúmeras línguas, já vendeu o prodígio de meio milhão de exemplares. Ele recebeu título de doutor honoris-causa de 28 universidades, sempre pelo seu trabalho de educação dos oprimidos. Foi professor da Universidade de Harvard (EUA), e da Universidade de Genebra (Suiça), entre outras. Ele sempre se irritou com os arrogantes e, por isso mesmo, foi muito criticado nos círculos acadêmicos. E dizia: eu tenho o direito de me sentir orgulhoso, mas nunca de ser arrogante. Lembro-me muito bem de uma vez que lhe pedi um autógrafo num exemplar de seu livro “Pedagogia do Oprimido” para dá-lo de presente de formatura no Curso de Pedagogia, a minha querida sobrinha Adriana. Ele assinou, mas não sem reclamar: ‘ Logo você, Corinta, pedindo que eu pratique esse culto à personalidade? Interessa é o que eu escrevi, não minha assinatura!’ Deu uma risada e assinou…deixando-me vermelha. Há pouco mais de um ano perdi meu pai José Grisolia e, com ele, minha principal referência de dignidade e respeito humanos. Procuro vivê-la como uma forma de preservá-lo para além de seus limites de vida biológica. Nesse sentido, ele está vivo em mim, como em muitos outros também. Naquele momento tentei tanto escrever isso e não consegui transformar minhas emoções em texto. Agora perco Paulo Freire e, com ele, minha principal referência como professor e intelectual/político. Espero ter a humildade e sabedoria suficientes para tentar vivê-lo em mim, sem reproduzi-lo, o que ele não perdoaria, pois era contra a transferência e culto à personalidade (Dizia: tudo contra a transferência cultural, nada contra a sua reinvenção).