Operação dois em um

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por Marcelo Salles O noticiário político da semana passada centrou-se na repercussão da matéria infundada de capa da revista Veja e nas acusações de inúmeros parlamentares de que estariam sendo grampeados pela Agência Brasileira de Inteligência, a Abin. Muito inteligente. E conveniente. Com o poder de agendamento que tem, a mídia colombina sabe que mantendo esses temas nas primeiras páginas acerta em dois alvos:

Primeiro, joga panos quentes sobre a denúncia veiculada pela IstoÉ de caixa dois na campanha do ex-presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, e encobre a denúncia levantada pela revista Carta Capital sobre o caixa dois operado pelo esquema de ACM na Bahia, que teria movimentado quase o dobro do montante operado pelo PT, ao subtrair recursos do governo do Estado via contratos com a agência de publicidade Propeg e ONGs formadas por funcionários públicos ligados ao carlismo.

Em segundo lugar, mantém o governo na defensiva, em evidente campanha contra o PT e a favor de PSDB e PFL tendo em vista as eleições de 2006, o que já acontece pelo menos desde junho, quando Carlos Nascimento (Bandnews) falou, pela primeira vez em rede nacional, em impedimento do presidente Lula, comparando-o a Collor.

Nesse enredo, ressalte-se que dois parlamentares receberam grande espaço na mídia: o senador Arthur Virgílio, líder do PSDB, e ACM Neto, deputado federal (PFL-BA). Este último, então, aparece praticamente todos os dias nos telejornais. Sabedores de que precisavam retirar de foco as denúncias que contrariavam seus interesses, fizeram o arranjo que deveriam fazer: denúncias dos grampos, ameaças de “surras” e teatralização excessiva nos plenários da Câmara e do Senado.

Tanto conseguiram pautar a imprensa que até mesmo os programas supostamente inteligentes se deixaram envolver. Deixaram? No Programa do Jô, por exemplo, após exibida sua fala, Arthur Virgílio foi aplaudido, sob a batuta do apresentador. Cristiana Lobo, uma das comentaristas, defendeu o senador alegando que ele havia tomado uma “atitude humana” ao ameaçar o presidente da República com uma surra, pois seu filho estaria sendo vigiado. Só faltou explicar que não há provas contra o presidente e nem sequer contra a Abin. Quando a professora de História Maria Aparecida de Aquino discordou, lembrando que era preciso respeitar o presidente, ainda mais em se tratando de uma acusação proferida por um senador da República, Jô interviu: “Mas ele não estava exemplificando um extremo?”. Ou seja, além de obedecer à pauta única, tanto as reportagens quanto os programas de entrevistas se colocaram ao lado do PSDB e do PFL, considerando as edições de textos e imagens, bem como o conteúdo do debate.

Interesses atávicos
Nunca é demais lembrar o caso da NEC do Brasil, já que se trata de um ícone das relações entre mídia e poder: antes das eleições de 1984, Roberto Marinho almoçou com Tancredo Neves. Este prometeu indicar Antônio Carlos Magalhães ministro das Comunicações. Tancredo morre e Sarney assume em seu lugar, mas mantém o acordo e nomeia ACM. Uma das primeiras medidas do novo ministro foi suspender as encomendas do governo com a NEC do Brasil. A empresa, que valia cerca de US$ 380 milhões, passou a valer muito pouco e quase faliu, pois era basicamente sustentada por este contrato com o governo. Então a Globo comprou a NEC por US$ 1 milhão e ACM re-estabeleceu as encomendas. Automaticamente a empresa voltou a valer o que valia antes. Um lucro de 34.200%.

O que se lamenta nisso tudo nem são as alianças da mídia colombina com os mesmos grupos de sempre, com os mesmos coronéis que mantem o povo brasileiro uma presa fácil para os exploradores. Esse acerto era esperado. Afinal, eles são sócios. O triste é que este governo poderia ter se apoiado em 53 milhões de votos e lutado contra o oligopólio da mídia, bem como fortalecido os veículos alternativos, construindo um canal de diálogo aberto com o povo sem a tradicional censura política. Mas preferiu acreditar que conseguiria manter o oligopólio sob controle com as verbas publicitárias. O resultado das próximas eleições dirá se a aposta foi correta.

Em todo caso, o brasileiro sai perdendo, pois continua refém das imagens e palavras escolhidas por aqueles que se preocupam mais com os índices do sistema financeiro do que com os problemas reais do povo.

Marcelo Salles, coordenador do www.fazendomedia.com e correspondente da Caros Amigos no Rio de Janeiro.