A quem interessa a atual política econômica

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O povo brasileiro é bombardeado todos os dias, pelos veículos da imprensa burguesa, com a noção de que a economia vai bem, de que a política econômica é intocável, de que a única coisa boa do governo Lula é sua política econômica. por João Pedro Stédile

O povo brasileiro é bombardeado todos os dias, pelos veículos da imprensa burguesa, com a noção de que a economia vai bem, de que a política econômica é intocável, de que a única coisa boa do governo Lula é sua política econômica. Mesmo no noticiário político, onde essa mesma mídia procura desmoralizar e desgastar ao máximo o atual governo, os presidentes do Banco Central e o ministro da Fazenda são intocáveis.

O governo, por sua vez, faz o jogo dessa mídia que o ataca, e confirma que essa política econômica é sua, que nada mudará, mesmo se algum dia tiver que trocar o ministro da Fazenda.

Em toda essa propaganda, cabem, sim, algumas perguntas chaves: a quem está beneficiando a política econômica atual? Por que a grande imprensa ataca o governo, mas defende com unhas e dentes a política econômica?

Pois bem, ao se aproximar o final do ano, os dados estatísticos da política econômica começam a aparecer com mais freqüência, divulgados pelos próprios organismos oficiais, como a Secretaria de Receita Federal (SIAF) e o Banco Central. Não quero molestar o leitor com estatísticas e muito menos com enfadonho economês, mas já estão disponíveis alguns dados muito interessantes, para todo brasileiro refletir sobre a natureza da atual política econômica. Vamos a eles.

Durante seu primeiro mandato, entre 1995 e 1998, FHC tratou de aprofundar a política econômica neoliberal iniciada pelo governo Collor e interrompida parcialmente no governo Itamar Franco. Essa política tem nos pressupostos a prioridade total do pagamento de juros da dívida interna e externa, manutenção de altas taxas de juros, e prioridade nas exportações a fim de obter os dólares necessários para enviá-los de volta como pagamento de royalties, juros da dívida externa e remessa de lucros.

Pois bem, FHC recebeu o governo com uma dívida pública federal ao redor de 60 bilhões de reais. Pagou em quatro anos 197 bilhões de juros. Do outro lado da conta, nesse período foram aplicados apenas 48 bilhões em investimentos por parte do Estado, e a soma total dos gastos públicos com toda a área social, somadas assistência social, educação e saúde, atingiu 242 bilhões.

Segue o segundo mandato. Entre 1999 e 2002, o governo FHC paga 268 bilhões de juros da dívida interna, investe 60 bilhões, e gasta com setores sociais 272 bilhões.

Ou seja, os gastos com juros já se equipararam a todos os gastos que o Estado tem com atendimento ao povo, em todas as áreas. E a dívida interna, apesar de pago um total de 455 bilhões de juros, salta de 60 para 600 bilhões de reais.

O governo perde as eleições para Lula, que promete mudar tal situação e priorizar o social. Lula assume, mas mantém a equipe econômica do Ministério da Fazenda, que havia administrado essa política durante oito anos, mudando apenas o ministro. E coloca no Banco Central um deputado tucano e ex-presidente internacional do Banco de Boston. Era a senha de que nada mudaria mesmo! O povo foi enganado, de novo.

Três anos do governo Lula (embora os dados sejam apenas até 30 de setembro) – nesse período, o governo pagou 299,4 bilhões de juros da dívida. Mais de 100 bilhões por ano, superando a meta anual de todo o período FHC. Os investimentos públicos atingiram apenas 25 bilhões. E os gastos com toda a área social, no mesmo período, foi de 220 bilhões. Ou seja, os gastos com juros agora são quase 40 por cento a mais do que o social.

A taxa de juros básica que o governo se compromete a pagar a todo banqueiro que lhe emprestar dinheiro ficou ao redor de 20 por cento ao longo dos três anos, e a taxa que os consumidores e comerciantes tiveram que pagar em média por ano ficou ao redor de 65 por cento. São as mais altas taxas de juros do mundo. Nunca os banqueiros ganharam tanto dinheiro, no Brasil ou qualquer parte do mundo, como durante os últimos três anos do governo Lula.

No último ano, além dos juros transferidos pelo Estado para os banqueiros, que somaram mais de 100 bilhões por ano, as altas taxas de juros retiraram da população comum outros 64 bilhões de reais, pagos pelas pessoas ao sistema financeiro.

Como nos adverte em suas teses a professora Leda Paulani, presidenta da Sociedade Brasileira de Economia Política, estamos diante de um modelo econômico em que o Estado foi seqüestrado pelo sistema financeiro e é hoje o principal instrumento de transferência de renda e de exploração de todo o povo pelos banqueiros.

Talvez valesse mais a pena o nosso presidente ter algumas aulas com a professora Paulani do que ficar com arroubos ignorantes de que essa política é sua, que é uma política desenvolvimentista e nada mudará. Ou também poderia convocar a equipe de economistas do PT, que ao longo de vinte anos discutiu modelos alternativos de desenvolvimento, para quando chegassem ao governo. Nem Palloci, nem Meirelles, nem a equipe tucana que administra o Ministério da Fazenda fizeram parte dessa equipe de economistas petistas.

Não precisa ser economista para se dar conta de que essa política é nefasta para os interesses do povo, que é uma política que concentra renda, pois retira recursos recolhidos em impostos do povo e, em vez de voltar na forma de serviços públicos para melhorar as condições de vida de cada um, são transferidos para os cofres dos bancos nacionais e internacionais.

A dívida pública interna que Lula recebeu de FHC de 600 bilhões já atingiu em setembro 933 bilhões. E assim aumenta a cada dia o mecanismo de espoliação.

Os bancos agradecem, e certamente se disporão a seguir financiando campanhas eleitorais. E, como sempre fizeram, vão pagar as campanhas de todos os partidos, porque assim, ganhe quem ganhe, eles sempre receberão declarações emocionadas de que essa é a única política necessária.

João Pedro Stedile é economista e membro da Coordenação Nacional da Via Campesina. fonte:Caros Amigos