Este sistema vai cair logo, adverte Marcos

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“Isso vai cair”, disse o Subcomandante Marcos ao se referir ao sistema social e político propiciado pelo capitalismo em sua fase mais avançada. Hermann Bellinghausen. La Jornada, 03/02/2006.

Jalapa, Veracruz, 02 de fevereiro. “Isso vai cair”, disse o Subcomandante Marcos ao se referir ao sistema social e político propiciado pelo capitalismo em sua fase mais avançada. Colocou isso com urgência. Por isso mesmo, a outra campanha propõe um caminho novo, que “não tem precedentes”, mas que será a única maneira de não afundar com o sistema.

Antes de falar diante de milhares de pessoas no Parque Lerdo, o delegado zero se encontrou esta manhã com mais de uma centena de pessoas que aderem à Sexta Declaração da Selva Lacandona, algumas das quais colocaram questões que não haviam expresso até agora. A elas, o delegado zapatista dirigiu um discurso mais analítico e de certa polêmica interna, sobretudo no que se refere à suposta inevitabilidade do capitalismo, se devemos nos adaptar a ele, ainda que a partir da luta.

“Podemos construir sim algo que seja mais includente. Digo isso porque não há nada mais excludente do que uma organização político-militar armada e insurgente. Não só pelo que representa como pelo destino que escolhe. Em relação a vocês, nós tínhamos o sentimento de um ‘se deve’. Se conseguimos sobreviver e, em seguida, construir o avanço das comunidades indígenas sem a intervenção dos governos locais e estaduais foi pelo apoio de todos vocês e de muita gente no país.

Mas, com a ajuda recebíamos a pergunta: ‘e nós, vamos fazer o que?’, e sentíamos que a tarefa era grande demais para nós, ao mesmo tempo em que se produzia esta deterioração em toda a nossa vida nacional. Não é certo que o capitalismo está criando laços de dependência em muitos camponeses ou comerciantes, acreditem, não está certo. Ao contrário, o avanço do capitalismo significa o seu desaparecimento total. Não sou eu a inventar isso, nem estou deduzindo isso de uma leitura ou de uma análise existente. É o próprio povo a dizer isso. Camponeses que estão perdendo a terra pelo capitalismo, e que não dependem dele a não ser para desaparecer”. Fez referência às tramóias legais e às reformas da Constituição, encaminhadas para expropriar a terra dos agricultores, até levá-los à extinção.

No caso da ciência, “não é que os cientistas dependam do capitalismo para sua produção científica, significa renunciar ao valor ético que os faz seguir este caminho. Ninguém, em sã consciência decide tornar-se cientista para destruir a natureza e, contudo, é isso que está ocorrendo; ninguém decide tornar-se cientista para acabar com o patrimônio cultural do país, mas é isso que está ocorrendo. A ‘maquiagem’ do conhecimento científico é expropriar este conhecimento de cada um e dar-lhe uma direção que alguém, por ética humana, já não digo de esquerda e anticapitalista, não tomaria: que o seu conhecimento seja usado para destruir, para matar o outro”.

Marcos acrescentou que há quem se dá conta disso, que não é gente que, “ao dar-se conta, se conforma”. Aqui é onde se deve entender o lugar da outra campanha, “porque há os que podem dizer “sim, mas, paciência, vou fazer o que?” e adquirem este cinismo light e não se atrevem a confessar que diluem valores éticos humanos em troca da comodidade, de um cheque. Não digo que está se vendendo; tem que resolver suas necessidades materiais.

A outra campanha está sublinhando que há quem diz que não vai se vender. Falo também daqueles lutadores, como os que estiveram falando aqui do 68, que passaram por todas as experiências de participação política, aqueles aos quais se ofereceu a porta para render-se ao sistema, com esta velha arapuca de que se pode fazer mais ao agir a partir de dentro dele. Houve gente que disse não, que poderia ter ido para o outro lado, cair fora, mas ficou. O espaço desta gente é a outra campanha”.

A reunião se realizou na sede da MATRACA, Movimento de Apoio às Crianças e aos trabalhadores da Casa. Aí, o delegado acrescentou sua argumentação: “Há um rumo anticapitalista exatamente nos momentos em que se diz que o capitalismo não pode ser mudado. Esta definição é importante, ainda que depois possamos discutir sobre o que significa anticapitalista. Alguns dizem, e o argumentaram teoricamente, que não é possível transformar o capitalismo, mas que o que se deve fazer é humanizá-lo. De fato, este é o corpo do programa eleitoral de um candidato que vai à vanguarda da outra campanha”.

Aqui os participantes riram, pois justo ontem esteve em Jalapa o candidato à presidência do PRD. Mencionou que “até antes da Sexta Declaração, se lembram, a classe política estava lutando pelo centro. Quando aparece a Sexta, alguns começam a dizer: ‘bom, talvez eu sou de esquerda, mas moderada’. E aí começa a se abrir o espectro para a esquerda, mas antes todos estavam lutando pelo centro, e é a partir da ‘Impossível Geometria do Poder’ que começa este movimento do talvez sim, talvez não. Bem na hora em que a outra campanha encontra outros que querem este espaço.”.

Marcos disse: “Nossa intuição, agora uma certeza, era de que havia gente como nós que não só não se conformava com as opções existentes, como acreditava que era um dever construir outra coisa. E nós não podíamos dizer como vai ser, isso e aquilo, mas sim traçar só a linha geral para ver se alguém mais estava no mesmo canal, e então, em igualdade de circunstâncias, lhes oferecemos começar a decidir as características deste outro esforço”.

A outra campanha, acrescentou, “define um inimigo, não um adversário. Com um adversário é possível chegar a concordar com alguma coisa, com um inimigo não. Quando a outra campanha se define como anticapitalista diz: ‘é a nossa sobrevivência em troca da morte do que está diante de nós’. Não de uma pessoa, mas sim de um sistema. O EZLN diz ‘reconhecemos a tua luta por pequena que seja, ainda que seja individual’, e nos comprometemos a fazer com que a outra campanha mantenha isso a cada momento. Vamos usar nosso peso moral e ético, que ganhamos com muito esforço, para defender esta posição.

Isso que estamos fazendo, companheiros, não tem antecedentes. Não servem os antecedentes de solidariedade com o zapatismo, porque já não se trata de solidarizar-se com as comunidades indígenas. Nem servem como referência as lutas sociais que se respeitam, as lutas políticas e isso tudo, porque nós estamos propondo caminhar por um rumo para o qual não há caminho. E tem mais. Ninguém sequer pensou se é possível transitar deste lado. Até agora, a educação que recebemos, a formação, é que tudo se consegue de cima, e o que não se consegue de cima é destinado ao fracasso. Então, a pergunta que trazemos a vocês, e também do que temos recolhido nos estados é: quantas derrotas mais estamos dispostos a acumular?”.

A Sexta, declarou, “renuncia a suplantar a linguagem e outros. Estamos falando como somos, nós, povos indígenas do México, que falam a outros e dizem com o coração na mão: ‘isso vai cair’. A casa vai cair e o problema é que nós estamos debaixo do telhado”.

Dizem “que Marcos está promovendo a abstenção eleitoral. Não, companheiros, é que encontramos um movimento abstencionista que está farto da classe política. E se até agora se pensava que o abstencionismo era apatia, a outra campanha está descobrindo que é falta de alternativas”.

Afirmou: “Não nos opomos a que alguém lute pelo poder, de fato, organizações políticas que estão na outra campanha colocam a luta pelo poder. O que estamos propondo é que agorinha, no lugar de olhar pra cima – porque todo mundo está nos dizendo: olhem pra cima, olhem pra cima, senão o que vamos fazer -, vamos nos juntar com toda essa gente para ver se podemos construir outra coisa.

Em baixo, estamos vendo uma efervescência que nada aposta lá em cima. Há uma grande efervescência social que não está voltada à questão eleitoral e que está tornando inócuas as campanhas. Não levanta Madrazo, nem Calderón, nem López Obrador, e não é por nossa culpa, é pelo que conseguiram construir durante todos estes anos. E não é apatia. Estamos diante de um movimento em efervescência, que arrebenta a qualquer momento sem coordenação, sem apoio”.

Menosprezando por enquanto a discussão se é anticapitalista moderado ou radical, colocou que a proposta da outra campanha não é conviver com a direita, “não devemos nos enganar”. Isso no que se refere à participação de alguém que disse que “devemos derrubar os muros porque somos todos seres humanos”. Marcos retrucou: “Não. Somos todos seres humanos, mas alguns são uns filhos da puta e outros não. Esta é a verdade. Eles construíram sua riqueza sobre a miséria, a morte e a exploração dos demais. O que nós queremos é organizar, falar e conscientizar todo este setor para enfrentarmos juntos os outros. Porque, do contrário, se os deixamos, vão acabar por destruir tudo. Já têm demonstrado isso. Se não fazemos alguma coisa agora não vai haver porque lutar”, concluiu Marcos.

Esta noite, o delegado zero, foi ao povoado de Tomatlán onde também se reuniu com os que aderem à Sexta Declaração da Selva Lacandona.

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