A violência e as condições de segurança nas escolas públicas

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Analisar as condições de segurança das escolas sergipanas nos remete ao entendimento das atuais formas de inserção da violência na escola. Mais ainda, é entender a escola na sua totalidade social, é repensar a própria relação sociedade-educação. Analisar as condições de segurança das escolas sergipanas nos remete ao entendimento das atuais formas de inserção da violência na escola. Mais ainda, é entender a escola na sua totalidade social, é repensar a própria relação sociedade-educação.

A questão da violência na escola, bem como suas medidas de proteção e resposta, ganha considerável importância pelo drástico aumento dos casos noticiados e presenciados cotidianamente.

Em especial, dois incidentes violentos, ambos na capital do estado, foram largamente reportados pela imprensa sergipana em 2006. No primeiro, o homicídio de um aluno pelo colega, no pátio de uma unidade escolar por uma faca e tendo como motivo uma rixa; no segundo, uma professora que foi baleada e morta ao reagir a uma tentativa de assalto em frente à escola onde lecionava.

Dois casos extremamente graves e profundamente lamentáveis que merecem ser interpretados de forma diferenciada, mas interligada: no primeiro temos o exemplo de violência interna, diretamente na escola, à medida que as partes envolvidas eram, ambos, estudantes; no segundo tem-se o tipo clássico de violência urbana que resultou na perda da vida de uma trabalhadora da educação; e nos dois casos podemos constatar diferentes expressões da relação indissociável entre a realidade escolar e a realidade social que se inserem na totalidade das relações humanas na medida em que as vítimas e agressores, pertencentes ou não a escola, são, antes de tudo, sujeitos sociais.

A sociedade consumista/capitalista produz, como resultado necessário e imediato nas suas relações de acumulação de riquezas, um intenso processo de exclusão, segregação e pauperização de uma grande massa de pessoas. O envolvimento com o tráfico de drogas, com o crime organizado, gangs, em geral o próprio mundo da violência pelo qual milhares de jovens perdem a vida representa, para uma esmagadora maioria, a única saída oferecida pela sociedade capitalista que não tem mais outra saída, caminho certo para milhares de jovens excluídos sem perspectiva alguma de uma outra realidade.

Na educação a violência é comumente entendida como uma condição extra-escolar. Isto reflete no caráter dicotômico em que a relação escola-sociedade é concebida, ou seja, no fato da escola estar sempre alheia à realidade envolta, onde questões como violência passam a ser tratadas como assunto de polícia.

Tal fato é constatado na pesquisa à medida que apenas 5,3% das escolas declararam ter algum tipo de projeto ou que discutem, de forma educativa, a questão da violência. Ao serem descritos a forma como esses projetos funcionam, a grande maioria se apresentara inconsistentes e restritos a “reuniões” e “conversas”, muitas delas “informais”, com os alunos.

A reação da escola a essa coisa “alienígena” da violência se materializa na promoção do medo e na transformação das escolas em verdadeiros presídios. Desta forma, 56,4% delas têm vigilantes; 46,1% mantêm as portas bem trancadas e 29% têm grades espalhadas pelo prédio. O mais lamentável é observar que esses valores só não são mais elevados pelo fato de que a maioria das escolas nem se quer tem condições de se proteger, ou melhor, de se “prender”.

Forja-se deste modo uma contraditória relação: se, por um lado, a escola é “obrigada” a se proteger trancafiando e separando sua realidade da realidade social na qual ela não consegue se inserir; por outro, ao se trancafiar a escola acaba acentuando e intensificando o processo de exclusão social à medida que ela se isenta da realidade envolta, que é violenta e cruel.

A tendência de aumento da violência seja pelo processo de exclusão e degradação promovida pela sociedade capitalista, seja pela insustentabilidade do Estado em resolver o problema e/ou ainda pela total falta de competência em que os governos, sobretudo o sergipano, vêm tratando a questão, reflete nessa assustadora realidade em que a escola se insere.

Das escolas pesquisadas, 27% já foram roubadas, 13,5% tiveram casos de vandalismo, em 28,9% ocorreram casos de brigas entre alunos, 5,3% já tiveram casos conhecidos envolvendo drogas, em 6,1% já ocorreram casos de assaltos, em 8% já tiveram casos de brigas violentas com estudantes, 9% tiveram casos de agressão a funcionários, 1,3% problemas com gangs e 4 casos de estupros foram registrados na pesquisa.

Gráfico 21
Casos de violência registrados nas escolas sergipanas

Fonte: Perfil 2006 – SINTESE

 Podemos considerar os valores constatados já bem preocupantes à medida que dizem respeito à quantidade de escolas onde ocorreram os referidos casos. Mais alarmante ainda seriam os dados se correspondessem a quantidade de casos ocorridos em cada escola pesquisada.

Contudo, apesar dessa realidade apenas 22,8% dos que preencheram os questionários consideraram ruins as condições de segurança, 29,8% consideram boas e quase a metade, 47,3% dos professores consideraram regulares as condições de segurança. Como mostra o gráfico abaixo.

 Gráfico 22
Condições de segurança das escolas públicas de Sergipe

Fonte: Perfil 2006 – SINTESE

 Perante o quadro mostrado anteriormente (gráfico 27), que denuncia a quantidade de escolas com casos de violência podemos considerar um valor relativamente alto de pessoas que disseram ser “regulares” as condições de segurança das escolas (47,3%). Este fato reflete notadamente a forma de como a violência, de tão presente no cotidiano das escolas, acaba sendo assimilada, normalizada e socialmente aceita pelos sujeitos que na realidade são as vítimas.

A violência na escola é uma constatação cada vez mais comum em nossa realidade atual. Tal condição se agrava à medida que se intensificam o processo de desemprego, miserabilidade, degradação e exclusão social, fenômenos estes próprios da sociedade classista. As diversas formas de expressão da violência (desde o desrespeito a colegas, professores, alunos e funcionários, até os homicídios) são objeto de muita preocupação por parte de toda sociedade e evidencia a urgente necessidade de lutar por uma escola que dê condição de pensar numa outra sociedade, à medida em que a concretização desta nova realidade social seja também a possibilidade de construção duma educação verdadeiramente social.