Propostas para uma educação nova e inclusiva

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Uma das promessas do presidente Lula para este segundo mandato é dar prioridade à educação. É bom recordar isso nesta semana que inclui o 08 de janeiro, dia consagrado pela ONU à erradicação do analfabetismo e à promoção da educação. Marcelo Barros *

Adital – Uma das promessas do presidente Lula para este segundo mandato é dar prioridade à educação. É bom recordar isso nesta semana que inclui o 08 de janeiro, dia consagrado pela ONU à erradicação do analfabetismo e à promoção da educação. É bom sabermos que um terço dos brasileiros freqüentam diariamente a escola. São mais de 2,5 milhões de professores e 57 milhões de estudantes matriculados em todos os níveis de ensino. Estes números apontam um crescimento no nível de escolaridade do povo brasileiro. Embora não se deva confundir escolaridade com educação que é muito mais ampla e vivencial, a escolaridade é um elemento importante para a melhoria do nível de desenvolvimento do país.As estatísticas mostram que, em três anos, o analfabetismo no Brasil diminuiu de 16% a 10%. Entretanto, no ensino fundamental, o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) descobriu que, só no ano 2005, 16% dos jovens entre 15 e 17 anos desistiram de freqüentar o curso antes de concluí-lo. Ancelmo Góis julga que chegam a 40% os jovens que desistem da escola (Folha de S. Paulo, domingo, 07/01/2007). O motivo principal, dizem, é a falta de motivação. Isso revela que a Escola e seus conteúdos ainda continuam distantes e separadas do cotidiano da vida dos jovens. Em uma sociedade na qual, mesmo meninos de periferia navegam nos mais interativos sites da internet, os currículos e métodos da escola não podem continuar a ser pensados para uma sociedade de cultura clássica que não condiz mais com nossa realidade crua e nua. A proposta do Ministério da Educação de incluir Filosofia e Sociologia no currículo das escolas de ensino fundamental pode ajudar, mas não basta para demolir o muro que separa a Escola da vida da juventude.

No nível superior, em quatro anos, o governo federal criou mais dez universidades no interior do Brasil e ampliou para mais 48 os campos universitários em cidades do interior. O PROUNI, programa que possibilita que os pobres tenham acesso a universidades privadas, antes só acessíveis a quem tem dinheiro, oferece 108.025 bolsas de estudos em instituições privadas de ensino superior para o 1º semestre de 2007. Do total de bolsas, 64.719 são integrais e 43.306 parciais. Tudo se constitui como conquistas positivas para a educação no Brasil.

Mesmo os povos indígenas, antes absolutamente abandonados, contam com atenção oficial. Desde 2002, a oferta de escolaridade para os índios cresceu em 47%. Atualmente, 172.256 índios de diversas etnias freqüentam escolas bilíngües e nas quais, além de estudar o programa que todos os brasileiros estudam, eles aprendem com professores indígenas e em sua língua própria, a historia de seus povos e a valorização de suas culturas autônomas.

Todas estas conquistas não justificam o menor descuido. O próprio presidente da República, ao frisar que, neste segundo mandato, dará prioridade à educação, reconhece que, no primeiro mandato, houve falhas neste setor. Ele sabe que a educação é um setor fundamental para o desenvolvimento. Mesmo se, somente a educação não liberta um povo do colonialismo e da servidão social e econômica, sem educação, ninguém se liberta.

Toda educação tem um objetivo claro a ser alcançado. No Brasil e na maioria dos países do mundo, desde o ensino básico até a universidade, a educação tem se tornado treinamento de técnicos para a sociedade da informação ou para o setor tecnológico. Considera-se “educação científica” uma mera preparação para o mercado de trabalho. Aquele processo existencial pelo qual a criança e o adulto a ser educados se preparam viver melhor e de forma mais humanizada, foi abandonado. A escola e a educação apenas referendam e aprofundam o modelo social e econômico com o qual a sociedade dominante organiza o mundo e o convívio entre os seres humanos. Ora, esta realidade está bestializando os seres humanos, tornando-os feras uns para os outros, destruindo o planeta e o ambiente no qual vivemos. Ao legitimar e reforçar esta realidade social e econômica, a educação se revela incapaz de cumprir sua missão. Ela serve apenas aos interesses de lucro de 20% dos seres humanos.

Na contramão desta tendência dominante, grupos de educadores/as vêm oferecendo importantes contribuições para uma educação integral e libertadora. Insistem na importância de um método educacional interativo, no qual os educandos sejam protagonistas ativos. Aprofundam a pedagogia do ser, que se propõe a desenvolver não só o intelecto racional, mas os sentimentos e valores humanos para que o educando, resgatado em sua inteireza de ser humano, possa construir os conhecimentos através de um processo de integração consigo mesmo, com o outro e com o ambiente em que vive. Isso coincide com as 3 ecologias das quais fala Félix Guatarri. A ecologia pessoal trabalha o “eu-corpo”,nossa casa primeira, intelecto e emoções, desenvolvendo a cognição, expressão e compreensão daquilo que nos toca diretamente. A ecologia social trabalha as relações na sociedade, desde a sala de aula, o bairro até a cidade, o país e o mundo. Este processo educacional sabe que, para a manutenção de todas estas vidas, dependemos da salvaguarda da Terra, nossa casa maior, através da recuperação e defesa do meio a que pertencemos. É a ecologia ambiental.

Nas sociedades antigas, as religiões tinham a função de educar, ou seja, orientar, conduzir as pessoas ao interior de si mesmas, à descoberta do outro e ao mistério mais profundo da vida que a maioria das tradições chamam de Deus. No século XXI, elas precisam reconhecer que falharam nesta missão e necessitam, elas mesmas, se reeducarem na busca do essencial. Esta dimensão espiritual humana e aberta é um desafio importante para a educação, em todos os seus níveis. É preciso, portanto, que o governo brasileiro, não somente dê prioridade à educação, mas ajude a sociedade a discutir que modelo e linhas de educação servem, hoje, ao futuro do nosso país.

* Monge beneditino e autor de 26 livros.
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