Luta indígena

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Os movimentos dos povos indígenas da América do Norte e da América Central abriram 2007 articulando pautas para disputar o poder político e fazendo a defesa de suas terras e de suas práticas agrícolas. Víctor M. Quintana S. Os rios subterrâneos da vida do povo, tão desprezados por Felipe Calderón [novo presidente do México, empossado depois de uma eleição denunciada por fraudes] e pelo seu gabinete, continuam fluindo com riqueza e diversidade. Assim, um atrás do outro, os movimentos camponeses celebram, no Distrito Federal e em San Cristóbal de las Casas, dois encontros importantes: o da Via Campesina América do Norte e o do Movimento Indígena e Campesino Meso-americano (Moicam). Eles articulam pequenos agricultores, camponeses, trabalhadores agrícolas e indígenas, o primeiro, dos Estados Unidos e do Canadá, o outro, de toda a América Central. Dentro da diversidade existem tomadas de consciência em comum.

As democracias liberais, oligárquicas, na América Latina, e das corporações, nos Estados Unidos e no Canadá, não têm sido neutras nos temas da agricultura. O modelo agrícola que promovem e defendem envolve uma economia política muito clara: inclusão e apoio para as grandes empresas transnacionais e para os ricos agroexportadores e exclusão e ofensiva contra os camponeses, indígenas e pequenos agricultores.

Diversos mecanismos são utilizados nesta exclusão: no Canadá é atacado o Escritório Canadense do Trigo, mecanismo de pequenos agricultores que gerencia a oferta desse cereal para manter bons preços para os produtores. Os pequenos agricultores norte-americanos percebem que a política imposta pelo agronegócio de aumentar os preços do milho e da soja – eleva o custo da engorda do seu gado, ao mesmo tempo que concentra os subsídios nesse setor.

Os mesoamericanos brigamos entre nós por encontrar no mundo desenvolvido mercados para o nosso café e os nossos frutos tropicais, ao mesmo tempo que nos tornamos dependentes deles nos cereais e grãos básicos. Os megaprojetos de comunicações e de represas na América Central ameaçam os territórios dos povos indígenas e são vias de penetração para aqueles que querem apropriar-se da nossa biodiversidade.

Diante disto, existem respostas pontuais de combate. Lutas setoriais de força crescente: os movimentos camponeses contra os tratados de livre comércio que ainda não foram assinados, como o Tratado de Livre Comércio da América Central e dos Estados Unidos (Cafta), ou que já foram assinados, como o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN); ações de repúdio a projetos macro, como o Plano Puebla-Panamá ou a represa La Parota, no estado de Guerrero; iniciativas como a dos camponeses da Costa Rica para que seja criada legislação em favor da proteção do conhecimento ancestral sobre biodiversidade; o Instituto Latino-Americano de Agroecologia, promovido pelo governo da Venezuela, no qual participam jovens camponeses de todo o nosso subcontinente; as feiras de intercâmbio de sementes nativas na América Central, as quais melhoram a produtividade sem a utilização de transgênicos, e as lutas de trabalhadores rurais que se articulam além das fronteiras, como a Frente Indígena Oaxaqueña Binacional.

Mas eles não ficam apenas no que é estritamente setorial, no plano produtivo-ambiental. Um grupo cada vez mais numeroso de organizações camponesas e indígenas entende muito bem que é necessário levar a resistência até o plano do poder. É necessário criar alternativas ao poder oligarca. E estão fazendo isso em dois níveis: algumas participam de coalizões de esquerda ou, pelo menos, antineoliberais nos processos eleitorais: apóiam Andrés Manuel López Obrador no México, os candidatos democratas mais progressistas nos Estados Unidos ou as duas vertentes do sandinismo na Nicarágua. Também tentam ganhar prefeituras e cargos nos congressos, para poder contar com uma representatividade autêntica.

Mas ainda vão além: sabendo das limitações da esquerda político-eleitoral, e algumas vezes afastando-se dela, desenvolvem diversas alternativas de poder popular. Estão convencidos de que a democracia direta, o exercício do poder imaginado, construído todos os dias nos afazeres cotidianos, é a melhor via para que sua resistência vá além de agüentar firme e passe a construir, desde já, alternativas para uma vida digna, justa, libertária, solidária e sustentável. Os exemplos sobram: as juntas de bom governo dos zapatistas, em Chiapas, a APPO, em Oaxaca, as cooperativas da Nicarágua, as iniciativas autônomas dos povos indígenas da Guatemala…

Não apenas se defendem as agriculturas campesinas e indígenas, os territórios, a biodiversidade e os conhecimentos ancestrais. Está sendo construído, desde baixo, um novo modelo de participação política; esta sendo produzido na prática um novo conceito de cidadania coletiva. Está sendo gerada uma verdadeira alternativa de poder. Pouco tempo atrás, dizia-se, no movimento campesino: “Hoje lutamos pela terra, amanhã pelo poder”. Agora parece que a luta pela terra, pela água, pelo território e pela cultura somente será bem sucedida na medida em que for construído o poder próprio.

Tradução: Naila Freitas/Verso Tradutores

Víctor M. Quintana S. é articulista do jornal mexicano La Jornada.