A face oculta da responsabilidade sócio-ambiental

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Sem ver a menor relação entre lucros e problemas sociais, as corporações aplicam uma lógica: o Estado paga a conta. Emilio Gennari – Manhã de terça-feira. A garoa teimosa traz em pleno verão as temperaturas do outono. Uma estranha sensação de frio faz as pessoas vestirem as blusas que aguardavam a chegada da estação ainda distante. Vítima de um progresso do qual poucos se beneficiam, a natureza começa a cobrar a conta de um mundo que mantém o lucro como guia e objetivo.

Enquanto o intenso vaivém dos veículos atropela as incômodas perguntas impostas pelas mudanças climáticas, no interior de uma casa, uma coruja observa preocupada os estranhos rabiscos por ela esboçados numa folha de papel.

Sentado atrás dela, um homem estica o pescoço na tentativa de levar os olhos a ter acesso àqueles sinais aparentemente indecifráveis. Incomodada, a ave levanta a cabeça e interrompe bruscamente as estranhas manobras com um “São contas!” que leva o corpulento ser a se encolher e apressar a refeição matinal. Instantes depois, a boca ainda mastiga o último pedaço de pão quando os ouvidos são atingidos por um pedido que mais parece uma ordem:

– “Acabe logo com isso – diz a coruja ao desenhar no ar um círculo que indica a mesa posta à sua frente -, que hoje vamos desvendar mais uma artimanha da responsabilidade social das empresas”.

– “De novo?!?”, retruca o que aparenta ser o seu secretário com cara de quem não gostou do programa inesperado. “Pelo que lembro, Nádia, você já tratou disso outras vezes… Será que aquelas matérias não são suficientes?”, insiste numa clara tentativa de se livrar do trabalho.

– “O problema, querido bípede de uma espécie que se considera inteligente, é que a realidade não pára e, em seu movimento, vai revelando novos aspectos de uma questão que parecia entendida nos mínimos detalhes. Por isso, pegue logo papel e caneta que não tenho tempo a perder”.

Contrariado, o ajudante recolhe as migalhas espalhadas sobre a mesa e, a passos lentos, leva a louça até a pia. Vagarosamente, o corpo se acomoda na cadeira e as mãos retiram da resma de papel as folhas destinadas ao relato da coruja.

Com as pontas das asas apoiadas na cintura, a ave acompanha cada movimento numa mistura de compreensão e impaciência. Um rápido piscar de olhos… um longo suspiro… e…

– “Neste novo estudo, não vamos retomar o que já dissemos em ocasiões anteriores, mas sim resgatar o fio condutor que alimenta o envolvimento das empresas com os problemas sociais para delinear seus novos desdobramentos e razão de ser.

Em grandes linhas, podemos dizer que, até o momento, este caminhar conhece quatro etapas. A primeira é caracterizada pela que podemos chamar de uma situação de não-responsabilidade social. Nela, as preocupações empresariais estão centradas exclusivamente nos processos de trabalho, na busca da competitividade, da lucratividade e da rentabilidade voltadas para si mesmas. Sem ver a menor relação entre possibilidades de gerar lucros e respostas aos problemas sociais por elas criados, as corporações aplicam uma lógica que pode ser resumida numa única frase: pagamos impostos, logo não vamos assumir tarefas e responsabilidades das quais o Estado tem que dar conta.

A situação calamitosa criada por décadas de arrocho salarial, desemprego e fluxos migratórios que, ao abastecerem a reserva de força de trabalho das grandes cidades, mantêm os salários em patamares assustadoramente baixos, é entregue, sem mais nem menos, aos cuidados de governantes e de instituições religiosas ou filantrópicas. Na ausência de intervenção dos primeiros, cabe a estas últimas se ocuparem de hospitais, escolas, orfanatos, distribuição de alimentos, etc. na tentativa de aliviar os sofrimentos dos segmentos da população que não são atingidos nem pela ação do Estado, nem pela possibilidade de garantir a vida através de sua inserção no mercado.

As feridas provocadas por esta lógica convidam as pessoas a perceberem que o progresso capitalista é excludente, que entre patrões e trabalhadores há interesses opostos e que não é possível confiar nas supostas possibilidades de ascensão do sistema social existente. O sentimento de revolta tende a aumentar na medida em que a esperança de melhorar a própria condição de vida é seguidamente frustrada pelo violento processo de espoliação e marginalização dos mecanismos de exploração. Ou seja, ainda que grande parte do senso comum vivencie a resignação e a submissão como elementos pacificadores e criadores de consenso social, a possibilidade das contradições alimentarem a luta de classes torna-se mais concreta.

As greves operárias e a atuação dos movimentos populares contra a carestia e pela obtenção de serviços básicos fortalecem a percepção de que só os trabalhadores e trabalhadoras podem dar respostas definitivas aos problemas que afligem suas vidas, ainda mais quando as situações de penúria se multiplicam em plena fase de crescimento econômico. Se a espera pelo crescimento do bolo gera a sensação de que as coisas vão melhorar, a mera distribuição das migalhas que caem do banquete empresarial aumenta a revolta e leva à condenação do sistema como um todo.

A situação se complica um pouco mais quando, em 1990, o presidente Fernando Collor de Melo elabora um plano econômico que produz uma violenta recessão e um piora substancial dos indicadores de pobreza. Diante da possível explosão dos conflitos, o grito de alerta das elites pode ser resumido na frase de José Eduardo Andrade Vieira, senador pelo PTB e ex-presidente do Banco Bamerindus, proferida a poucos meses do início da primeira campanha contra a fome: «O Brasil foi uma nação de pobres. Hoje marcha para se transformar numa praça de guerra de miseráveis». (1)

Diante do alerta, os empresários buscam reconstruir a confiança no sistema capitalista trilhando dois caminhos paralelos. De um lado, fortalecem a ideologia do pequeno produtor, ou seja, daquele que, em situação de desemprego, se esforça para construir o seu próprio futuro, não é preguiçoso, testa suas capacidades empreendedoras e monta o próprio negócio, ainda que apostando em sonhos dificilmente realizáveis. Esta posição, sustentada com a criação do SEBRAE e pelo seguido alardear de que o futuro nos reserva uma sociedade sem empregos, transforma o trabalho do camelô (tido como forma indigna de ganhar a vida ao longo da década de 80) em protótipo de micro empresário. Aos poucos, ainda que em condições bem inferiores às vivenciadas num emprego estável, a sociedade aceita a precarização do trabalho como algo comum e viável para os desempregados sustentarem suas famílias.

De outro, a adesão à campanha contra a fome, promovida pelo Betinho, revela que a elite está consciente de que chegou a hora de ceder alguns anéis para não correr o risco de perder os dedos. Longe de representar o início de uma profunda reorganização das relações sociais ou a distribuição da riqueza acumulada, o envolvimento filantrópico dos empresários aponta apenas para uma melhor administração da miséria que só ganha pé na medida em que seus planos revelam ganhos inesperados”.

– “Você não está querendo dizer que isso não passa de um investimento pelo qual se coloca um pouco para obter muito mais… Está?”, pergunta o secretário desnorteado.

– “Exatamente!”, confirma a ave sem titubear. “Em suas diversas formas e organizações, o envolvimento das empresas em benefício das comunidades locais proporciona benefícios que superam as expectativas. Além de aumentar a produtividade dos funcionários que se envolvem voluntariamente nos projetos de assistência, melhorar a imagem da firma e garantir o respeito desta na cidade, a filantropia aponta a iniciativa privada como fonte da qual emanam soluções eficientes dos problemas sociais. Este movimento oculta que é a exploração capitalista do trabalho a razão de ser da miséria que atormenta a sociedade, ao mesmo tempo em que fortalece a idéia de que a saída para as contradições do sistema está em cada um dar um pouco para que muitos possam ter condições de sobreviver. Desta forma, matam-se dois coelhos com uma pancada só: ampliam-se os lucros empresariais ao mesmo tempo em que a filantropia patronal ajuda a apagar a possibilidade das pessoas pensarem uma vida social alicerçada em relações bem diferentes das atuais. Na pior das hipóteses, o senso comum das comunidades carentes reflete as mudanças em curso com a frase: «Ricaços ou não, não dá pra falar mal de quem está nos ajudando».

O caminho pelo qual o social retorna ao templo do liberalismo passa à terceira fase na medida em que ações isoladas começam a ser trabalhadas como parte essencial de uma filosofia conhecida como Responsabilidade Social da Empresa. As intervenções beneficentes deixam de ser vistas pelos líderes de setor como algo isolado e pontual para serem analisadas e implementadas como elementos de um processo mais amplo que incide diretamente na acumulação e na valorização de seus empreendimentos.

Esta passagem começa a ocorrer na medida em que os dados da realidade consolidam duas constatações sensivelmente vinculadas ao bom andamento dos negócios: a relação com a clientela e o desempenho das ações na Bolsa de Valores.

A pesquisa Monitor de Responsabilidade Social Corporativa é um dos momentos importantes deste processo. Realizada no segundo semestre de 2005 com pessoas de 18 a 69 anos de idade, o estudo revela que 88% dos consumidores das capitais brasileiras espera das corporações uma postura ativa para resolver os problemas sociais. Neste sentido, para 80,1% dos entrevistados, a empresa socialmente responsável é aquela que dá tratamento justo aos funcionários; 77,8% apontam como indicador a produção de mercadorias que seguem padrões sociais e ambientais aprovados; enquanto 76,9% associam responsabilidade social à preservação do meio-ambiente. Mas o dado mais interessante é o que marca em 30,2% a porcentagem de indivíduos que já deixaram ou pensaram em deixar de comprar produtos de empresas cujo comportamento julgavam inadequado. (2)

Em português claro, além de tornar mais eficaz seu esforço em propaganda, nenhuma corporação pode se dar ao luxo de perder quase um terço da clientela final por desrespeitar direitos trabalhistas ou por realizar alguma prática que possa ser interpretada como socialmente irresponsável. Pagando salários levemente acima da média; mantendo planos de assistência e apoio aos funcionários; socorrendo a comunidade local em algumas de suas necessidades mais urgentes; e garantindo a sustentabilidade dos próprios negócios através de planos que conciliam redução de custos e utilização mais eficiente dos recursos naturais, as empresas sublinham seu compromisso com a cidadania e, portanto, seu senso de responsabilidade para com empregados e moradores.

Ao aumentar a confiança nos negócios e melhorar seu desempenho, o esforço despendido começa a interferir diretamente no mercado de ações. No Brasil, esta tendência começa a ser medida a partir de novembro de 2001 com a criação do Fundo Ethical do Banco Real. Para participar deste grupo, as empresas devem se adequar a 93 indicadores que englobam conceitos e práticas sociais, ambientais e de boa governança corporativa. De sua instituição a outubro de 2006, a valorização das ações que integram o Fundo chegou a 227,9% contra 194,1% do índice da Bolsa de Valores de São Paulo. (3) Não precisa ser especialistas em administração para perceber que a consolidação dos resultados obtidos com a aplicação de práticas empresariais sintonizadas com as expectativas de seus públicos de interesse, sempre no interior da lógica de acumulação capitalista, vai levar a transformar peças soltas de simples filantropia em estratégia empresarial propriamente dita.

A aplicação coerente das intervenções assim planejadas faz a população acreditar que o capitalismo socialmente responsável é realmente capaz de criar o melhor dos mundos possíveis. Eventuais distorções devem ser atribuídas à falta de consciência dos maus patrões ou à excessiva carga tributária do Estado que reduz as possibilidades dos empresários intervirem de forma ainda mais consistente em benefício da grande maioria da população. De vilão da história, o sistema capitalista passa a detentor dos meios que podem proporcionar oportunidades reais de bem-estar coletivo”.

– “Bom, Nádia, mas você não pode esquecer que, nos últimos anos, não foram poucos os empresários que investiram recursos na preservação do meio-ambiente reestruturando suas unidades de produção e investindo pesado na redução de resíduos!”, afirma o secretário em tom de reprovação.

A coruja sorri, sacode a cabeça e se aproxima vagarosamente do seu ajudante. Em seguida, ao espetar o peito deste com a ponta da asa esquerda, não deixa pra menos:

– “Vejo que sua cabeça alimentada com miojo, hambúrguer, batatas fritas e boas doses de refrigerante já é incapaz de enxergar o óbvio. Se a preocupação com a natureza e com os seres vivos fosse realmente levada a sério, a chamada indústria do descartável teria que deixar de existir e os carros particulares deveriam ser imediatamente banidos por um transporte público barato e eficiente. As florestas não poderiam continuar sendo devastadas, menos ainda para plantar comida destinada à fabricação de combustível e não para matar a fome do povo. A apropriação privada da riqueza produzida pelas classes trabalhadoras deveria ser substituída por uma coletividade que planeja sua produção e distribui o que tem para o atendimento das necessidades de todos, ao mesmo tempo em que garante recursos para as gerações futuras. E assim por diante. Ou seja, algo radicalmente diferente do que vem ocorrendo sob as bênçãos dos meios de comunicação.

Um olhar mais atento revela que a suposta preocupação com o meio-ambiente só faz a Responsabilidade Social entrar no seu quarto e atual estágio de atuação na medida em que esta amplia as possibilidades de acumulação. Coerentes com o caminho percorrido, os empresários estão descobrindo cada vez mais que a preservação dos recursos utilizados nos processos produtivos pode gerar uma redução significativa de seus custos, ao mesmo tempo em que a alardeada preservação da natureza fortalece o apoio da comunidade e proporciona maior sustentabilidade aos seus negócios.

De acordo com os dados do programa Produção Mais Limpa promovido pelo Instituto Euvaldo Lodi, da Federação das Indústrias de Santa Catarina, podemos confirmar a suspeita de que o interesse com o meio-ambiente só passa da teoria à prática quando tem o cifrão como meta e guia das mudanças a serem concretizadas. Aplicado em 26 empresas catarinenses, o programa chega a implementar 255 alterações ao nível do chão de fábrica. No final do período, o balanço revela os dados que seguem: os investimentos realizados somam dois milhões e duzentos mil Reais; em média, são poupados 230 milhões de litros de água e um milhão de quilowat de energia elétrica por ano; a geração de efluentes tem uma queda de 100 milhões de litros anuais e é acompanhada por uma redução de 50 mil quilos de resíduos perigosos. A contas feitas, o retorno obtido com a melhoria dos processos produtivos, que continuam lançando poluentes no meio-ambiente, é de 11 milhões de Reais. (4)

Ou seja, os patrões deram com a pá… sabendo que tirariam com a escavadeira. Um detalhe quase insignificante para quem está tão interessado em mostrar a Responsabilidade Sócio-ambiental de seus empreendimentos…”, comenta a coruja ao secar as pequenas gotas de veneno que escorrem do seu bico. E continua: “Resta saber qual dos empresários envolvidos no programa realizaria os investimentos aplicados se estes se destinassem apenas a melhorar a relação com a natureza, dando gastos sem nenhum retorno financeiro.

Podemos dizer o mesmo também em relação à Votorantim Cimentos que reestruturou 5 de seus fornos para que, junto aos combustíveis fósseis, passassem a queimar cascas de arroz, pneus triturados, descartes da indústria automotiva, de tintas e plásticos. Inicialmente destinado aos aterros, este lixo tem um grande poder calorífico e, quando incinerado aos 1500º C destas instalações, não gera os resíduos nocivos dos tratamentos convencionais.

Como as empresas que produzem esses descartes têm que pagar para dar-lhes um fim adequado, há uma verdadeira disputa entre os donos dos aterros e as firmas que se utilizam deles para produzir calor. Os dados divulgados pelo grupo Votorantim revelam que, em 2006, a empresa de cimentos conseguiu obter, em média, 9% do calor gerado em seus fornos a partir dos resíduos industriais e projeta alcançar 15% em 2007. Porcentagem esta que poderia ser maior se os aterros não se apropriassem de parte significativa destas preciosas escórias. (5)

Não há dados sobre quanto isso influi em termos de redução dos custos totais e elevação dos lucros, mas não é necessário ser economista para perceber que os gastos para adaptar os fornos podem ser ampla e rapidamente compensados”.

– “E aqueles que plantam florestas inteiras? Eles também não estão contribuindo para preservar o meio-ambiente?”, questiona o homem ao não se dar por vencido.

– “Se estas forem de eucalipto, a resposta é não!”, retruca imediatamente a coruja ao balançar a cabeça.

– “Eucaliptos ou não, são sempre árvores que ajudam a limpar o ar que respiramos..!”.

– “Sendo assim, vamos por partes – pondera a ave ao levantar a asa para frear o ímpeto do seu interlocutor. Em primeiro lugar, vale a pena resgatar o fato de que foi, e continua sendo, justamente a voracidade destruidora do capitalismo a acabar com imensas extensões de mata virgem. O acesso a madeiras nobres ou à matéria-prima para a produção de carvão vegetal, de um lado, o desmatamento e as queimadas para a implantação de culturas extensivas ou a criação de gado, de outro, revelam que a sede de lucros fáceis, gordos e imediatos, não está preocupada em preservar a rica biodiversidade das florestas nativas.

Para não desviar nossa atenção do tema, não trataremos da expulsão das populações que vivem dos recursos fornecidos pelas matas (e, via de regra, estão preocupadas com a sua preservação), mas vamos centrar nossas observações sobre as atividades de reflorestamento promovidas pelas indústrias de papel e celulose.

Os dados mostram que hoje, no Brasil, existem um milhão 252 mil e 387 hectares de terras cobertos por florestas onde só há eucaliptos. (6) Esta área tende a se expandir não em função de uma preocupação com a ecologia, mas tão somente pelo fato de que, sem estas árvores, que chegam em ponto de abate em apenas 7 anos, as fábricas não teriam matéria-prima para produzir. Não por acaso, antes mesmo de dar início às obras que levantarão uma nova linha de produção, os patrões se vêem obrigados a plantar o que vão precisar no futuro.

Este processo, genericamente chamado de reflorestamento, costuma ser apresentado como uma relação saudável com a natureza na medida em que cultiva de antemão o que será retirado e diminui a pressão sobre os bosques nativos. Só tem um problema: as aparências escondem o fato de que o plantio de florestas homogêneas de eucalipto prepara o terreno para um futuro desastre ambiental que, em alguns países, já levou à desertificação do solo. Vamos ver porque isso acontece.

Como você sabe, a chuva eleva a umidade do terreno, reabastece os mananciais subterrâneos e os cursos de água doce. Alguns estudos mostram que, quando a precipitação pluvial não passa de 1.000 milímetros ao ano, as florestas de eucalipto geram déficits tanto em termos de umidade do solo, como de abastecimento dos lençóis freáticos. Ao contrário do que se imagina, estas árvores têm raízes que não superam os 3-4 metros de profundidade, ou seja, não têm tamanho suficiente para atingir os reservatórios de água subterrâneos. O problema é que, na escassez de chuva, as raízes laterais se espalham em todas as direções para aproveitar a umidade existente entre a superfície e o nível máximo de profundidade que costumam atingir. Este crescimento faz com que as plantas retirem grande parte da quantidade de água destinada aos mananciais e espalhem seus tentáculos nas terras de lavoura circunstantes ameaçando as culturas alimentares aí existentes.

Outro elemento que não pode ser desconsiderado, é que o eucalipto precisa de bem mais nutrientes do que sua presença pode devolver. Alguns estudos apontam que, por ano, as espécies usadas no reflorestamento retiram do solo, em média, 217 Kg de nitrogênio, 100 Kg de fósforo e 1594 Kg de cálcio por hectare. No mesmo período, suas folhas devolvem apenas 35 kg de nitrogênio, 14 Kg de fósforo e 335 kg de cálcio, criando um déficit de nutriente que empobrece a terra.

Se isso não bastasse, há um elevado efeito prejudicial desta planta sobre as demais espécies. As substâncias tóxicas, adicionadas ao solo pela folhagem do eucalipto agem durante um período de tempo maior do que as produzidas pelas demais árvores, sobretudo em áreas de poucas chuvas. A presença destes elementos impede a germinação de outras plantas e reduz fortemente os organismos responsáveis pela fertilidade do solo. Este fenômeno explica porque, dificilmente, encontramos vegetação debaixo dos plantios de eucalipto e porque áreas de reflorestamento levam, a longo prazo, a passivos ambientais de sérias proporções, sobretudo quando a terra utilizada para este fim não pertence à empresa produtora de papel e celulose.

– “Se as coisas estão assim, então, qual é o sentido dos programas de Responsabilidade Sócio-ambiental desenvolvidos pelas empresas?”, pede intrigado o homem ao não esconder o rubor que invade o seu rosto.

– “Sendo muito generosos – diz Nádia ao olhar para o alto -, podemos dizer que grande parte destas intervenções concilia a redução dos custos de produção com um grau menor de devastação dos recursos naturais, na medida em que a busca desta equação se faz necessária para elevar os lucros e garantir a sustentabilidade dos negócios.

Mas as coisas não param por aqui. Além dos resultados financeiros propriamente ditos, os projetos procuram desenvolver uma visão de mundo pela qual as empresas são as primeiras interessadas em garantir a preservação do meio-ambiente, o que leva as pessoas a ter a impressão de que não há conflito entre os valores em que acreditam e os que orientam a prática empresarial.

Aliada à melhora das condições de trabalho, à uma cultura de respeito, sensibilidade e até de sentimento de justiça, a Responsabilidade Sócio-ambiental das empresas tende a elevar ainda mais a motivação dos funcionários e um sentimento de realização pessoal estritamente vinculado à viabilização dos objetivos e práticas empresariais sobre os quais não detêm o menor controle. Neste clima de confiança recíproca, as respostas aos desafios sócio-ambientais ajudam a ocultar o caráter destruidor da produção capitalista, interessada no consumo desenfreado de suas mercadorias e não na preservação dos recursos.

Ao fixar-se na visão de mundo do povo simples, esta lógica leva o senso comum a uma constatação perigosa. Não só o sistema capitalista é bom e pode se ajustar às necessidades coletivas, como «tudo o que tem dado certo no país tem sido criado pelos empresários»”.

– “Será que você não está exagerando na dose?”, questiona o ajudante assustado. – “Infelizmente, não. Minhas simples observações visam apenas mostrar o velho conteúdo que, envolvido em nova embalagem, ganha cores e formas capazes de lhe atribuir propriedades milagrosas e desviar nossas atenções de seus elementos essenciais.

E a dizer isso não sou eu, simples representante do reino das aves, mas o próprio Milton Friedman, um liberal de carteirinha, que, ao comentar o assunto afirmava com todas as letras: «A Responsabilidade Social das Empresas consiste em aumentar seus lucros»”. (7)

Pronunciadas as últimas palavras, a coruja abre as asas, cumprimenta o secretário e seu vôo se perde nos céus poluídos da cidade.

Entre as folhas que forram a mesa, os estranhos rabiscos deixados pela ave parecem conter algo legível. Curiosos, os olhos se apressam a decifrar as palavras escritas em nosso idioma. Instantes depois, dos lábios ainda incrédulos sai o que parece um convite aberto aos homens e mulheres do nosso tempo: «Parem de comprar gato por lebre e comecem a construir um mundo onde a vida do ser humano, e não o lucro, seja realmente colocada ao centro das preocupações coletivas!»

Notas:

(1) Texto extraído de Vários Autores, “Brasileiro: cidadão?”, Cultura Editores Associados, São Paulo 1992, pg. 248.
(2) Dados publicados em Fabian Echegaray, “Responsabilidade Social em alta – comportamento corporativo torna empresa alvo de admiração”, em Gazeta Mercantil 11/01/2006.
(3) Dados mais completos sobre o assunto podem ser encontrados em Valdete Oliveira, “Responsabilidade Social – Oportunidades também no mercado de ações”, em Gazeta Mercantil 21/12/2005; e em Alessandra Bellotto e Denise Juliani, “Boas ações com retorno financeiro”, em Gazeta Mercantil 08/11/2006.
(4) Dados publicados no Caderno Especial de Responsabilidade Social, em Gazeta Mercantil 06/06/2005.
(5) Dados publicados em Laura Knapp, “Co-processamento: da casca de arroz a pneu velho, 20% reaproveitados” em Gazeta Mercantil, Suplemento Especial sobre Responsabilidade Sócio-ambiental, 18/12/2006.
(6) Dado divulgado pela Associação Brasileira de Celulose e Papel em Viviane Monteiro e Teo Scaloni, “Reflorestamento – Avanço do eucalipto ameaça meio-ambiente”, em Gazeta Mercantil, 29/01/2007.
(7) Trecho extraído da matéria “Memória: Friedman e as frases”, em Época, 20/11/2006.

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Responsabilidade sócio-ambiental