Transposição favorece a insdústria do agronegócio

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Para movimentos, projeto do governo é mentiroso pois reproduz a lógica da indústria da seca Gisele Barbieri,de Brasília (DF) – A falta de diálogo do governo federal com movimentos sociais, comunidades tradicionais e demais entidades contrárias ao projeto de transposição do Rio São Francisco levou estas organizações a montar, no dia 12, um acampamento em Brasília (DF) para resistir ao início das obras.

Eles sentem-se enganados pois, ao longo de 2006, o governo foi abandonando o debate iniciado, em outubro de 2005, pela greve de fome do frei Luiz Flávio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA). O sinal verde para o Executivo atropelar as discussões foi dado no final do ano passado quando o ministro Sepúlveda Pertence, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou onze liminares que impediam a continuidade da transposição. Sendo assim, em fevereiro, o governo lançou o edital para a contratação dos projetos executivos da obra.

Por outro lado, o licenciamento ambiental ainda não foi concluído pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Porém, após a decisão de Sepúlveda, os movimentos avaliam que, sem pressão, a licença será concedida rapidamente.

Dessa forma, 14 ônibus, trazendo cerca de 600 moradores dos vários estados por onde a obra irá passar, chegaram, no dia 12, à Praça das Fontes no Distrito Federal. Durante o Acampamento pela Vida do São Francisco e do Nordeste e contra a Transposição, que deve ir até o dia 17, serão realizados debates e audiências em órgãos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

O objetivo é retomar o debate referente aos problemas que a transposição irá causar às comunidades. Depois do lançamento do edital em fevereiro, o frei Luiz Cappio encaminhou uma carta ao presidente Lula cobrando o cumprimento das promessas que fez, em 2005, aos movimentos sociais. “Quando reabrimos a possibilidade de diálogo é para que ele seja realmente um diálogo e não um monólogo. Nada daquilo que foi conversado foi levado em conta. O governo apresenta o mesmo projeto, as mesmas exigências e as mesmas imposições. Não mudou nada”, contesta.

As mentiras
“Este projeto da transposição é mentiroso e nefasto pois ela não será feita para atender as 12 milhões de pessoas que o governo afirma, mas sim o agronegócio e as indústrias”, explica o sociólogo Ruben Siqueira, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Além disso, de acordo com o Relatório de Impacto Ambiental (Rima) da transposição, a abrangência espacial da obra atinge de apenas 7% do semi-árido. Com base no projeto, a rota da água passará longe das regiões mais necessitadas. Parecer do Tribunal de Contas da União (TCU), publicado em novembro de 2006, atesta que o número de beneficiados com a obra divulgado pelo governo está inflacionado.

Ao todo, 34 povos indígenas, 156 quilombolas e centenas de comunidades ribeirinhas compõem a bacia do São Francisco. Com esse direcionamento do projeto para o agronegócio, as populações tradicionais é que irão pagar irão pagar a conta. “A transposição não beneficiará os pobres e sim o agronegócio, mas nós somos barrados pela polícia quando denunciamos isso às comunidades. A gente não é contra que a água vá para outros lugares, porém, não queremos perder nossas terras que estão ameaçadas por não terem sido homologadas ainda”, afirma Edmilson Truká, um dos representantes, no acampamento, dos 4 mil índios Truká de Pernambuco. Edmilson conta que a falta de cuidados com o rio provoca a seca e dificulta as atividades de subsistência, como o plantio de arroz.

Revitalização
“Nós queremos achar uma forma da água chegar até nós. O governo fala em transposição para matar a sede das pessoas, mas nunca tivemos acesso à água”, conta Dona Zefa da Guia, integrante de uma comunidade de 100 famílias quilombolas que vive no Sergipe, um dos estados doadores das águas do Velho Chico.

Situações como a de Dona Zefa são muito comuns ao longo da Bacia do São Francisco. No início de fevereiro, por exemplo, uma menina morreu, em Petrolina (PE), às margens do Velho Chico, ao cair quando tentava “roubar” água em um canal de irrigação. O assentamento onde ela morava não tinha água nem para beber.

Por isso, os acampados defendem a revitalização do rio, a qual consiste em recuperar a vegetação degradada por ações humanas. “Esse projeto é ecologicamente absurdo porque anêmico não doa sangue e o Rio São Francisco, no momento, precisa de cuidados. Então nós estamos apoiando e apostando no projeto de revitalização de suas águas”, afirma frei Luiz Cappio. Segundo o Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), os afluentes que alimentam o Velho Chico estão em situação preocupante. No Cerrado, que é responsável por 94% das águas da bacia, 300 subafluentes estão extintos.

fonte:Brasil de Fato

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