Refletir a educação física na rede pública estadual: crise ou caminho

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A partir da reflexão da prática profissional, não só desta prática, mas também do pensar nas atitudes, aponta-se a necessidade de saber até onde iremos, com a forma e o método atual da educação física vivenciados na escola pública estadual, têm-se o objetivo de descrever acerca das angústias, que são a síntese da crise que começa-se a perceber melhor nos últimos encontros deste curso. *Carlos Sérgio Lobão Araújo

A partir da reflexão da prática profissional, não só desta prática, mas também do pensar nas atitudes, aponta-se a necessidade de saber até onde iremos, com a forma e o método atual da educação física vivenciados na escola pública estadual, têm-se o objetivo de descrever acerca das angústias, que são a síntese da crise que começa-se a perceber melhor nos últimos encontros deste curso. Neste sentido, entende-se ser de grande importância escrever sobre a temática da crise da educação física, em especial na rede pública estadual, pois partindo da reflexão das entranhas dessa crise é que pode-se, quiçá, encontrar alternativas para construirmos um outro momento da educação física na rede pública estadual.

A tarefa de pensar a educação física, com certeza é uma tarefa que não é fácil, haja vista a conjuntura que atravessamos no cenário nacional e estadual, desde as questões de financiamento público para educação até a falta de uma política educacional voltada para educação dos que utilizam a escola pública – a educação física não está fora deste cenário.

A necessidade de uma profunda reflexão acerca de quem somos, de onde viemos e, principalmente, o que queremos é sem sombra de dúvida um enorme desafio. Parte-se da imperiosidade em perceber que há de fato uma crise de identidade na educação física. Segundo Bracht, não encontraremos uma fórmula ou receita pronta que possa trazer uma identidade para educação física, no entanto, é fundamental compreendermos o que está posto na conjuntura que nos mostra a todo instante o crescente processo de mercadorização da educação, conseqüentemente a educação física não estaria além de toda esta discussão. Chama atenção Bracht , para não cairmos na idéia simplista de achar que tais processos de crise que nos leva a várias mudanças culturais, não acontecem isolados ou deslocados de todo um contexto que precisa ser avaliado. “É importante não esquecer que estas mudanças culturais estão relacionadas de forma complexa com mudanças no plano econômico-político.” Assim, podemos nos sustentar nesta perspectiva para começarmos a entender o processo de desvalorização e desrespeito à educação física no ensino público de Sergipe. Fala-se aqui do que temos assistido nos últimos anos: um ataque frontal aos professores de educação física, em especial aos que atuam nas séries iniciais do ensino fundamental, que vai desde a perda de posto de trabalho (turmas para trabalhar) até o total desrespeito à legislação educacional vigente. Questiono-me se não nos falta algo para sustentarmo-nos, se a nossa crise de identidade pode ser um instrumento que fortacele os que nos atacam?

Entende-se ser preciso enxergar a educação física com novos olhos, romper velhas tradições, encontrar novos portos e ter a coragem necessária para não retornar ao velho porto seguro das antigas tradições, o que já foi proposto por Medina (1983). Para tanto, precisamos dar e/ou encontrar o sentido da educação física no espaço da escola pública. Precisamos, conforme KUNZ, de uma educação física que não deixe lacunas, como por exemplo na educação infantil, precisamos ainda refletir qual educação física queremos para a escola pública. Dessa forma, a busca pelo entendimento de onde viemos poderá nos dar um norte para o que queremos. Precisamos resolver se somos de fato e de direito professores, atletas, entre outros, precisamos descobrir, dentre estes, o que a escola precisa – “faço a opção em me assumir como professor – pois entendo ser meu papel na escola”.

O processo de desmonte da educação na rede pública estadual se dar sob algumas estratégias, tais como, a regulamentação da resolução do Conselho Estadual de Educação (Diga-se de passagem que é um conselho cartorial onde os representantes dos professores das escolas pública não têm assento), portarias da Secretaria de Estado da Educação regulamentando as aulas de educação física na escola, contudo prioriza a jornada do professor para a prática desportiva de base. Todo esse processo sem nenhum diálogo com os interessados, “os professores”, o que caracteriza um estado autoritário, representado por agentes que muitas vezes sequer refletem o que fazem, ou seja, estão sempre prontos a meramente cumprir ordens.

É neste cenário, que nos reconhecemos estar em crise. Tal reconhecimento, apesar de parecer contraditório, nos ajuda a analisar sob a ótica de quem começa a achar uma brecha através da cortina e enxerga o espetáculo por um outro viés. Entender a crise traz um anseio de superá-la e, para tanto, entende-se ser necessário neste momento histórico uma mudança de postura que vai desde nos espaços externos da escola e, impreterivelmente, no âmbito das aulas e no cotidiano com os alunos, não perdendo a capacidade de refletir as ações na perspectivas de reelaborá-las com o fito de novas alternativas. Vê-se ainda, neste momento, a importância da palavra sinceridade em reconhecer que apesar da vontade e do discurso, a necessidade constante da busca das idéias que alimentam a reflexão para uma nova prática será a nau que nos levará sempre a novos portos e sem termos a necessidade do regresso aos velhos portos.

Contudo, há alguns caminhos que pode-se trilhar, como o do estudo permanente, para isso devemos alinhar à pauta pela reivindicação de uma política séria de formação continuada, outro caminho é o de não perder de vista a visão do contexto sócio-econômico-político, pois é fundamental compreender o que nos afeta; e ainda outro é refletir acerca da importância de saber de onde e como viemos e para onde queremos ir ( nos situando como professores da escola) . Assim, utiliza-se das idéias e dos princípios republicanos que sustentam a escola pública, pela qual muitos deram e dão seu sangue e suor para que tais idéias mantenham-se vivas, entendendo que a escola pública é um direito que não pode ser negado, neste sentido, o professor de educação física precisa encontra o seu lugar nesta escola.

*Vice-presidente do SINTESE e concludente do Curso de pós-graduação em educação física para educação básica da UFS.