Frango e carne da merenda escolar são jogados no lixo

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Jornal da Cidade – Enquanto em muitas escolas públicas no interior de Sergipe a merenda é servida à base do biscoito com suco artificial, em Itaporanga D’ajuda, a 29 quilômetros de Aracaju, a Escola Estadual Felisbelo Freire se deu ao “luxo” de desperdiçar cerca de 156 quilos de alimento, entre frango e carne moída. Apesar das divergências de algumas informações, principalmente entre a direção e a secretaria do próprio colégio, o Departamento de Alimentação Escolar (DAE) da Secretaria de Estado da Educação (Seed) já tem conhecimento do caso e acredita que o desperdício chega mesmo a essa quantidade.

A diretora do colégio, Dulcinéia Siqueira, ainda não sabe muito bem as razões que ocasionaram a perda do frango, mas garante que o quantitativo é bem menor. “A gente ainda não sabe direito o que aconteceu. Ela (referindo-se à secretária do colégio, conhecida como Zélia) foi determinada pelo DR-8 para controlar a merenda escolar, só que ela não se organizou dentro da cantina e aconteceu isso. Mas o que foi jogado no lixo foi em torno de 10 a 12 quilos de frango”, estima.

No entanto, bem diferente da versão da direção do Felisbelo Freire, a diretora do DAE, Eleonora Cerqueira, disse que a secretária da escola confirmou que mais de 150 quilos de frango e carne foram jogados fora por conta do desligamento da rede elétrica. “Isso se comprova quando foi analisada a última remessa dos produtos entregue no colégio e o que havia sido consumido até aquela data”, explica a diretora.

O frango e a carne foram jogados fora na segunda, 30 de junho, sendo que na sexta-feira, dia 3 de agosto, a diretora do Departamento de Alimentação Escolar esteve na escola para averiguar as razões que ocasionaram a perda dos alimentos. Ela visitou o colégio acompanhada de uma nutricionista, de dois representantes do conselho e do diretor do DR-8 (Grande Aracaju).

De acordo com ela, a forma como os produtos foram descartados se deu de maneira irregular. “Pegar o produto e jogar no lixo é algo que a gente faz em casa. Quando se lida com o setor público é bem diferente. A secretária, que é a responsável direta, deveria ter chamado a Vigilância Sanitária do município para que, in loco, verificasse o estado dos alimentos e o próprio órgão desse o destino correto a eles”, detalha Eleonora Cerqueira.

Armação

Adiretora da escola não descarta a possibilidade do fato ter sido provocado com a intenção de lhe prejudicar. Por trás estaria o interesse no cargo de direção do colégio. “No momento em que isso aconteceu, eu estava de licença em virtude do falecimento de um familiar, não posso garantir, mas pode ter sido uma armação, porque todo mundo sabe que numa mudança de governo ficam querendo trocar muita gente aqui na escola, e têm pessoas interessadas nesse cargo”, confessa Dulcinéia Siqueira.

Ela reforça a existência de um conluio dentro do colégio ao citar um caso que aconteceu no início do ano, quando uma sala teve a energia desligada dias antes de iniciar as aulas.

“Eu me antecipei e vim logo pra escola. Perguntei ao vigia o que estava acontecendo e ele disse que já havia ligado para a secretária e avisado a ela. Numa segunda-feira ele subiu no telhado, chamou até uma pessoa para ajudar, mas não conseguiu ver qual era o problema. Quando ele saiu, a secretária foi até uma das instalações e ligou as luzes. Por que será que ela fez isso?”, questiona a diretora.

Em relação ao frango e à carne, uma nova suspeita de que o produto teria sido desperdiçado de propósito. Segundo Dulcinéia, apenas o freezer onde o produto estava armazenado foi desligado durante o final de semana, por isso ela não acredita em um problema isolado na rede elétrica. “A secretária é quem fica com a chave, e a tomada do freezer estava um pouco puxada, o que é algo meio estranho”, comenta. A secretária da escola foi procurada pela reportagem, mas não quis falar sobre o assunto.

A diretora do CAE disse que o órgão encaminhou um ofício ao secretário de Estado da Educação, José Fernandes Lima, solicitando a abertura de uma sindicância para apurar as razões da perda da merenda. “Cabe ao secretário determinar a abertura da sindicância para o início do processo jurídico para que a direção da escola responda pelo que aconteceu”, revela Eleonora.

Crime

O representante dos professores no Conselho da Alimentação Escolar (CAE) e diretor da base estadual do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Sergipe (Sintese), José Francisco Andrade dos Santos, considerou um crime o desperdício de alimento na escola de Itaporanga. “Até porque, uma boa parte dos alunos da rede pública, seja ela estadual ou municipal, vai para o colégio muitas vezes com fome. Recentemente, nós visitamos o Caic do conjunto Jardim, em Socorro, e ouvimos relatos de professores afirmando que alunos já desmaiaram de fome. Essa situação mostra bem claro a importância da merenda escolar para esses estudantes”, compara o conselheiro.

Segundo o professor, o desperdício dos alimentos comprovou também que a escola não está cumprindo a resolução aprovada em conjunto pelo DAE e pelo CAE que estabelece o cumprimento de um cardápio. “A secretária confirmou que desde o dia 15 de junho até 30 de julho, quando a merenda estragou, em nenhum dia foi servido frango para os alunos”, relata. No caso de extravio de alimentos, a resolução estabelece a devolução do dinheiro relativo ao prejuízo.

“Essa semana teremos uma reunião com o DAE para tomarmos conhecimento das providências adotadas pela secretaria. Só não queremos que aconteça o mesmo em relação à denúncia da compra de mais de um R$ 1 milhão de carne feita pelo Sintese. Até hoje, quase seis meses depois, nem o conselho nem o sindicato tiveram acesso ao parecer da secretaria”, reclama Francisco Andrade.

Equipamentos da cozinha estão velhos

Um problema visível que pode ser verificado na Escola Estadual Felisbelo Freire é a condição dos equipamentos de preparo da merenda escolar. A única geladeira existente não funciona há mais de quatro meses. “Quando a gente abria, o cheiro de gás era horrível. Colocamos até um vasilhame de água sanitária dentro para ver se diminuía o fedor”, conta a merendeira Luciana dos Santos.

Os dois únicos fogões da escola também estão em um estado deplorável. Tomados pela ferrugem, as bocas não produzem chamas suficientes para aquecer a comida no tempo necessário. “O feijão a gente tem que cozinhar no dia anterior porque se cozinhar no mesmo dia não dá tempo. Tudo tem que ser colocado no fogo logo cedo porque a chama é muito fraca”, conta a merendeira Maria Sônia Maciel.

Com os fogões funcionando de forma precária, o consumo do gás aumenta. Um botijão não chega a durar mais de 15 dias. Outro problema é que eles ficam ao lado dos fogões, sem nenhum tipo de isolamento. Se houver algum vazamento, a possibilidade de um incêndio é bem maior por conta do risco das chamas atingirem os botijões.

Em relação às condições dos equipamentos, a direção da escola garante que já encaminhou vários ofícios ao DR-8 solicitando a aquisição de novos fogões e de uma geladeira. Até agora não foi dado nenhum retorno.