ódio contra os pobres marca última semana

46

Brasil de Fato – O desprezo contra os pobres é perigoso caldo de cultura para o desenvolvimento de programas de cunho fascistóide, cujo primeiro passo é a disputa da chamada “classe média”.

Em São Paulo, tucanos lançam balão de ensaio para a Reforma Trabalhista e “dondocas cansadas” soltam a franga, enquanto no Rio o novo esporte das granfinas e granfinos é o “ovo ao pobre”. Ao mesmo tempo, fora das casernas e sem tropas, coronéis de pijama esbravejam via internet, desrespeitando impunemente a República e agredindo o seu presidente. Pelo visto, é hora do novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, colocar outra vez o capacete de bombeiro e apagar esse fogo – é a defesa civil.

O parágrafo de abertura deste editorial pode parecer uma composição do ministro da Cultura, Gilberto Gil, na sua fase mais radical do Tropicalismo – isto é, muito antes de ceder suas músicas para propagandas da Aracruz e do Banco Itaú. Mas, como dizia um velho humorista brasileiro, “as aparências enganam”. A verdade é que aquele parágrafo apenas se esforça por fazer uma pequena resenha, um pequeno resumo da última semana nas terras de Pindorama.

Vejamos:

Quem esteve atento para os movimentos do governador de São Paulo, o tucano José Serra, não terá qualquer dúvida sobre o que pretende o seu partido (PSDB) da Reforma Trabalhista. Na segunda-feira, 6 de agosto, o governador ordenou à Companhia do Metropolitano de São Paulo que demitisse 61 trabalhadores da empresa, três dias após o final da greve que teve a adesão de 90% da categoria. No primeiro dia da paralização, 2 de agosto, o Tribunal Regional do Trabalho já havia aplicado uma multa de R$ 100 mil contra o Sindicato dos Metroviários. O crime desses trabalhadores foi exigir que a empresa cumprisse o pagamento das Participação nos Resultados (PR). O fato torna-se ainda mais grave neste momento em que o Governo Federal dá mostras de que pretende elaborar uma lei que restringe o direito de greve. Certamente o governador paulista ainda não conseguiu se livrar do “vanguardismo” que professou nos anos 1960, e tentou sair na frente do Planalto, visando fazer bonito para a platéia de direita que se agita pelas avenidas da capital do Estado e via internet: 2010 na mira.

De todo modo, frente a esse quadro e à apatia da maioria dos sindicatos urbanos, não há como não lembrar um velho cartaz do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, da primeira metade dos anos 1980, com a palavra de ordem “Acorda peão”, e a imagem de um laço de forca.

Mas enquanto o peão não acorda, setores da elite paulistana vão às ruas – um setor que se autodenomina “a elite decente”, conforme afirmava um dos cartazes da passeata que reuniu duas mil pessoas nas ruas da capital. É o movimento conhecido pelo nome fantasia “Cansei”, liderado pelo empresário João Dória Jr. e entidades patronais, reunindo elementos de organizações como “Endireita Brasil”, “O Dia da Grande Vaia Nacional” e a “Liga das Senhoras Católicas” que, em 1964, já nos brindou com suas “marchadeiras”. O grupo afirma não ter vinculação partidária, e os manifestantes carregavam cartazes com dizeres do tipo “Impeachment já”, “Queremos o nosso Brasil de volta”. A manifestação foi convocada nacionalmente, mas nas demais capitais onde aconteceu, nunca reuniu mais que um punhado de gatos pingados. O desprezo e ódio pelos pobres, nem sempre revelados nos cartazes e disfarçados nos porta-vozes oficiais, não conseguiam se conter nos lábios dos mais afoitos. Alguns não hesitavam em exprimir sua revolta contra “esse governo (…) de programas que dão dinheiro para quem não quer trabalhar” (Bolsa Família) e a grande aspiração de ter um presidente que tenha “estudos, e não um homem que não saiba falar direito”.

O desprezo e ódio contra os pobres não é novidade na elite brasileira que parece até hoje cultivar grande nostalgia no que diz respeito à escravidão. O problema maior, porém, é que esse ódio e esse desprezo praticado costumeiramente com alguma discrição, agora vai às ruas, se escancara, se faz bandeira, desafia qualquer princípio democrático ou republicano – para nos determos na esfera do possível. Durante os últimos dias, um vídeo divulgado na página da internet youtube (www.youtube.com) – aquela mesmo que colocou no ar a modelo Daniela Cicarelli numa cena de intercurso sodômico com seu namorado – dá conta do novo esporte praticado por “celebridades” e socialaites cariocas: “ovo ao pobre”. Entre essas figuras, estão o senhor “Boninho” (diretor do Big Brother Brasil) e a senhora Narcisa Tamborindeguy, de profissão desconhecida e irmã da deputada estadual Alice Tamborindeguy (PSDB-RJ). O diretor da TV Globo dá receitas de como fazer apodrecer ovos e afirma: “Já acertei muita vagabunda em São Paulo”. A senhora Tamborindeguy, há um par de anos, já havia dado uma entrevista no “Programa do Jô” sobre esse seu “esporte”, quando explicava – para a alegria do titular do programa – como costumava acertar os garçons do hotel Copacabana Palace. Desde então nenhuma autoridade tomou qualquer atitude frente a essa delinqüência que, pelo visto, prosperou.

O desprezo e ódio contra os pobres são perigoso caldo de cultura para o desenvolvimento de programas de cunho fascistóide, cujo primeiro passo é a disputa da chamada “classe média”.

A situação se agrava se lembramos que os sites da extrema direita vêm dia a dia radicalizando em sua velha arenga golpista. Um deles – o Terrorismo Nunca Mais (Ternuma) – fez circular esta semana um artigo assinado pelo coronel reformado Paulo Carvalho Espíndola, texto altamente agressivo e desrespeitoso à figura do presidente da República, no qual o menos ofensivo é o refrão “Cale a boca, Lula, abaixe suas zurêias” (orelhas) – referindo-se à declaração presidencial de que tinha duas orelhas, uma para ouvir os aplausos e outra para as vaias.

É frente a esse quadro que se espera que o novo ministro da Defesa, alçado ao cargo com pompa e circunstância, a ponto de arrefecer e quase zerar com o simples anúncio do seu nome a grita em torno do “apagão aéreo”; o novo ministro da Defesa que tem boas relações com os militares (dos quais agora é o chefe); que circula bem entre os maiores partidos do país, a ponto de ser apontado pela mídia conservadora como um presumível sucessor do atual presidente em 2010, que use todo o seu cacife para colocar as coisas em seus devidos lugares e, sobretudo, defender a legalidade constitucional.