Brasil – Meios de comunicação, democracia e corrupção

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No primeiro semestre de 2005 houve um grande alarde de corrupção no governo. A imprensa é testemunha disso. Prato cheio… e sempre para poucos. Dom Luiz C. Eccel * Adital –

Alô, senhor Jefferson!

No primeiro semestre de 2005 houve um grande alarde de corrupção no governo. A imprensa é testemunha disso. Prato cheio… e sempre para poucos. O protagonista foi o então deputado federal do PTB, senhor Roberto Jefferson, do Rio de Janeiro. O mesmo teve seus momentos de honra e glória. Seu comportamento foi de alguém que parecia profundamente arrependido de ter entrado no mundo da política para se servir dela até não poder mais. Cheguei a pensar que ele tinha “doença ruim”, como diz nosso povo, e que logo iria apresentar-se diante do tribunal divino. Assumiu diante das câmeras que participou da “missão secreta” e denunciava o tal mensalão e sua quadrilha.

Certamente, ele se achava uma das poucas pessoas bem informadas e inteligentes do mundo e por isso conhecia todos os meandros da trama diabólica.

Senhor Jefferson, não subestime tanto o povo que é sofrido, sim, porque trabalha duro para ganhar uma miséria, mas que sabe perfeitamente que sempre houve muito desvio de verba pública em todas as esferas da República. Sabe que sempre houve e haverá gente que compra e vende votos. Gente graúda e pequena. O senhor esqueceu-se de dizer o quanto cada parlamentar ganhou para alterar a Constituição e votar a favor da reeleição. Ou o senhor pensa que não sabemos o quanto o governo anterior gastou nisso? E hoje, 29 de agosto de 2007, o mesmo disse estar satisfeito com a atuação do STF. É uma atitude, no mínimo, incoerente.

E a princesa encantada e ao mesmo tempo deslumbrada da grande mídia se esbaldou e continua se esbaldando com os escândalos. Age como se fosse incólume e grande prestadora de serviço ao povo, trazendo a público todo este escândalo. A grande mídia também subestima o povo, levando-o a crer que toda esta imoralidade só existe a partir deste governo. O povo brasileiro sabe que, desde que aqui aportou o senhor Cabral, os grandes roubos iniciaram-se neste país, levando para fora dele as riquezas naturais e, pior, matando aqueles que sempre foram os legítimos donos desta terra, os Indígenas.

Hoje, dia 29 de agosto, o Supremo Tribunal Federal encerrou cinco dias de trabalho, enquadrando 40 pessoas para responderem a processos, acusados de diversos delitos em torno do mensalão. O senhor Jefferson, um dos acusados, e auto-acusado, se manifestou dizendo que só faltou enquadrar o chefe maior, o presidente da república e falou também em iniciar movimento pelo impeachment do Lula. O povo sabe que se fosse fazer uma varredura completa no Congresso Nacional, 40 seria, talvez, o número dos que sairiam ilesos.

Senhor Jefferson, é verdade que falta muitíssimo para chegarmos a realizar o sonho de todos os brasileiros viverem com dignidade, mas houve avanços. E não estou nem defendendo e nem condenando o governo. Não é meu papel. Sabemos que quem decide neste país e em tantos outros é o poder econômico nacional e internacional. Mas acabo de crer que o senhor é realmente um “cabra mandado”. O senhor sabe que nunca os banqueiros tiveram tanto lucro, que a elite continua poderosa e “blindada”, que o capital estrangeiro continua mandando, que o poder econômico continua tendo a hegemonia, que o agronegócio vai de vento em popa, que a reforma agrária continua no papel, que a desigualdade social deste país está entre as maiores do mundo, mas que, apesar disso, os políticos do Brasil são os mais bem remunerados do mundo, que a grande mídia continua cada vez mais dominadora e nas mãos de poucos, e se passando por dona da verdade, distorcendo os fatos. Portanto, está claro que o senhor está a serviço desta minoria privilegiada que sempre mandou neste país e quer continuar a mandar sozinha. O senhor não foi protagonista de uma boa ação, somente cumpriu um dever de casa mandado por um professor relapso. Fico pensando que ganhou uma boa nota: “10 com estrelinha”. Está na hora de parar com encenações. Creio que o senhor não aceitou contratações das TVs para ser ator, porque ganharia uma “nota” menor.

Senhor Jefferson, acaso o senhor conhece o livro intitulado “Confissões de um Sabotador Econômico”, do autor americano John Perkins? Ali o autor fala em sabotadores e chacais. Em qual destas nomenclaturas o senhor encaixa?

Quem não quiser ler o livro, leia ao menos a entrevista do Perkins à Revista Caros Amigos, de março de 2006. Assim poderá compreender melhor o que está acontecendo no Brasil e em outros países pobres.

Senhor Jefferson, se quer realmente ajudar à nação e, sobretudo, ao povo desta nação; se quer realmente se redimir dos seus pecados, deveria deflagrar na grande mídia que o leilão da Vale do Rio Doce foi o maior roubo, o maior crime contra o patrimônio público que já se cometeu neste país. O senhor sabe disso. Claro que sabe e por que não denuncia, como fez o atual governador do Paraná, reeleito, senhor Roberto Requião? Ele deu uma entrevista para a Revista Caros Amigos, de julho de 2005, quando um dos entrevistadores, Palmério Dória, perguntou-lhe: “Em escala de roubo, onde se roubou mais, no governo Fernando Henrique ou no governo Lula?”Ele respondeu: “A gente não precisa nem de um roubômetro para avaliar isso. O Fernando Henrique com a privataria roubou 10.000 vezes mais do que qualquer possibilidade de desvio do governo Lula”.

Vai à mídia, senhor Jefferson. Seja o defensor do povo espoliado. Ajude a trazer de volta a Vale que é nossa e que entregaram a um grupo a preço de banana sem nos perguntar nada, porque esta é a nossa democracia. Há mais de 100 processos, apontando sérias irregularidades do processo de venda da Vale, parados na Justiça, exigindo a anulação deste ato criminoso. O valor da riqueza mineral que foi passada para a Vale do Rio Doce é incalculável. Perto do famigerado mensalão é fichinha. Mas os processos estão emperrados nos fóruns deste país. Se o senhor tem tanta sede de ver este Brasil passado a limpo, tome o horário nobre na mídia e peça ao povo que se una na luta e vá votar no plebiscito popular (tem que ser popular porque o senhor é também um dos responsáveis por não regulamentar o artigo 14 da Constituição Federal, impedindo a democracia participativa), pedindo a anulação deste ato vergonhoso que atenta contra a soberania do nosso país e à dignidade do povo brasileiro, que construiu o patrimônio da Vale. Faça isto, senhor Jefferson, e eu começarei a acreditar que o senhor tem boas intenções.

Enquanto isto, fico com o estadista e general francês, Charles de Gaulle, que disse: “Como um político nunca acredita no que diz, surpreende-se quando outros acreditam nele”.

Claro que toda regra tem exceção e, portanto, esta exceção também tem regra.

* Bispo Diocesano de Caçador-SC