Leia o discurso do Dep. Iran Barbosa em homenagem aos 30 anos do SINTESE

44

Senhor Presidente,
Senhoras e senhores deputados,

Ocupo esta tribuna, espaço de ressonância de assuntos de interesse do povo brasileiro, para fazer uma homenagem aos trinta anos de existência do maior sindicato do meu Estado, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica da Rede Oficial do Estado de Sergipe, o nosso combativo SINTESE. Em momentos como esse em que o SINTESE comemora seus trinta anos, é importante que façamos uma reverência à lembrança, à memória dessa construção histórica e coletiva.

Esse sindicato, senhor presidente, conseguiu ao longo de sua história de existência empreender uma marca muito peculiar ao sindicalismo sergipano.

A sua origem, embora remonte à década de 60, do século passado, conta com poucas informações, o que foi resultado da ação truculenta do período da Ditadura Militar, que se incumbiu de destruir os arquivos da Associação dos Professores.

A organização dos educadores sergipanos escreve uma nova etapa de sua história quando, no dia 08 de setembro de 1977, há trinta anos atrás, é fundada a APMESE – Associação dos Profissionais do Magistério do Estado de Sergipe, que surge sob o signo das ações clientelísticas, sem se preocupar com o aumento do nível de consciência da classe trabalhadora.

O SINTESE será o sucedâneo dessa associação, após a Constituição Federal de 1988 assegurar aos servidores públicos a liberdade de organização sindical. A decisão de transformar a APMESE em SINTESE ocorreu durante o II Congresso da categoria, no dia 17 de setembro de 1988, antes mesmo da promulgação da Constituição.

O SINTESE é hoje uma entidade sindical que possui, em seus quadros de filiados, cerca de vinte e três mil educadores. Tem abrangência estadual, atua em todos os municípios sergipanos. É filiado à CUT, a Central Única dos Trabalhadores. É, também, filiado à CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) e ao DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos). Obedece a requisitos formais de existência, seguindo o seu estatuto, realizando suas atividades normais de ação, tais como congressos, assembléias, plenárias, eleições sindicais, lutas, paralisações, marchas, atos públicos, greves e tantas outras tarefas identificadas com um ente representativo de classe no nosso país.

Mas não é nada disso que marca o traço peculiar daquele importante sindicato. Ele vai se fortalecendo como máquina sindical a partir da introdução de um modo de combatividade, resistência e luta que teve origem quase que paralelamente ao seu surgimento, pois, já em 1979, dois anos após a fundação da APMESE, surge um grupo de oposição à diretoria da entidade, denominado RENOVAÇÃO, liderado por um dos grandes sindicalistas do Estado de Sergipe, que perdeu a vida de forma precoce em um trágico acidente, o professor Diomedes Santos Silva.

A partir da ação e da liderança do professor Diomedes, inicia-se um processo de organização desse grupo de oposição que se caracterizou por disputar junto aos educadores sergipanos uma concepção de representação da categoria afinada com princípios muitos dos quais ainda hoje marcam a entidade e que, certamente, contribuíram para o sucesso que o SINTESE representa em termos sindicais em Sergipe. Em outubro de 1986, um grupo de 300 professores decide criar o Centro Profissional de Ensino (CEPES) que reforça a luta do magistério a partir de uma perspectiva classista, aliando reivindicações a estudos e debates sobre a prática pedagógica da rede pública do Estado de Sergipe. Muitos dos educadores reunidos no CEPES são os mesmos que historicamente se opunham às sucessivas diretorias da APMESE.

Em 1992, após um histórico e acirrado processo de eleições sindicais, o grupo que constituía a oposição consegue ser conduzido à direção do SINTESE e introduz uma nova concepção e prática ao sindicato.

Tendo na Presidência a professora Ana Lúcia Vieira Menezes, liderança importante nesse processo de redefinição da ação da entidade e na história do sindicalismo, da educação e da política sergipana, o SINTESE passa a introduzir um jeito institucional de funcionamento que se baseia numa concepção de luta permanente que agrega capacidade de proposição na formulação de políticas públicas para a educação; luta pelos direitos corporativos da categoria, destacando a importância central de um projeto de valorização profissional do magistério (envolvendo condições dignas de salário, carreira, trabalho e formação); além da luta pelos direitos mais amplos dos trabalhadores e da população, o que permitiu uma interação direta com os demais segmentos organizados da classe trabalhadora e com a sociedade como um todo.

Uma das marcas dessa nova direção é a priorização da gestão sindical coletiva, onde a participação da categoria nas definições da luta ocorre de forma direta e permanente através da realização de plenárias escolares, preparatórias, em muitos momentos, das decisões gerais dos fóruns mais amplos como assembléias e congressos. Trata-se, portanto de um profundo enraizamento na base na construção da luta sindical.

Eu ouso afirmar, e não tenho receio de errar, que Sergipe não seria o mesmo sem a ação do SINTESE. Digo isto porque esta entidade se consolidou como um espaço de debate e de luta em defesa da justiça, contra as arbitrariedades das políticas opressoras, afirmando a organização e a resistência social como instrumentos de melhoria da qualidade de vida do povo e da cidadania.

Em muitos municípios sergipanos, senhor presidente, o debate sobre a qualidade do Serviço Público que o povo merece foi introduzido a partir das ações do SINTESE.

Nesse sentido, esse sindicato também contribuiu para o avanço do próprio conceito de Democracia em Sergipe, na medida em que reivindicou e ocupou espaços de participação nas discussões da política estadual de educação, repercutindo e influenciando na formulação das demais políticas públicas.

É justamente essa peculiaridade que gera a força do SINTESE, pois a entidade, ao ousar ser porta-voz de anseios mais amplos dos sergipanos, mobiliza homens e mulheres, ativos e aposentados que atuam na sua luta; militantes da causa da educação da capital e do interior; profissionais de escolas públicas municipais e estaduais; cidadãos e cidadãs que ousam sonhar e lutar por uma outra sociedade, na qual prevaleçam a justiça, a solidariedade, a igualdade de direitos e oportunidades. É, pois, senhor presidente, um sindicato, forte pelo seu porte participativo.

Tanto assim que virou palavra de ordem entre os militantes da educação em Sergipe o grito altivo: “Somos Muitos. Somos Fortes!”.

A força do SINTESE vem do seu “exército” de lutadores, pois aprendemos a transformar as dificuldades em instrumento da lide cotidiana. Aprendemos que no Magistério não há espaço para a desistência. A nossa alternativa sempre será a resistência, porque resistindo é que sonhamos e sonhando é que lutamos para construir o mundo que almejamos.

A força viva do SINTESE vem de uma categoria profissional que não se cansa de ter esperança. Mas não se trata de uma esperança qualquer, acomodada, que se conforma em esperar que as coisas aconteçam. Essa força viva é feita de uma esperança inquieta, militante, lutadora. Em uma expressão: É feita da esperança “paulofreireana”!

E é dessa forma, que ao longo desses trinta anos, o SINTESE se transformou em um verdadeiro “celeiro” de lideranças que, no combate e no enfrentamento do dia a dia, vão sendo formados como “lutadores sociais”.

São dirigentes sindicais, coordenadores de sub-sedes regionais, representantes de comissões sindicais municipais, representantes de base da capital e das escolas, membros de comissões sindicais de negociação, representantes da categoria em variados conselhos, funcionários, assessores, filiados, aliados… Enfim, um verdadeiro “exército” em defesa da educação e dos educadores que, neste momento festivo, recebem toda a homenagem que dessa tribuna posso prestar-lhes.

Alguns membros desse “exército” de lutadores e lutadoras já se foram. E ao homenagear os trinta anos do SINTESE não podemos deixar de reverenciá-los. São ícones da nossa resistência como o professor Diomedes, a professora Lena, o professor Sinval, a professora Constância, entre outros que deixaram exemplos de vida e de luta que são referências para os que continuam nessa jornada. Homenagear os trinta anos do SINTESE é, também, prestar-lhes homenagem.

Desta tribuna democrática, senhor presidente, senhoras e senhores deputados, somo a minha fala aos gritos de resistência de homens e mulheres como Elda Góis, professora Sônia, professora Maria José, professor Ananias e tantas e tantos outros que, do alto da experiência dos seus anos de luta e do exercício do legítimo direito da aposentadoria, continuam construindo as brilhantes páginas dessa história e bradam: “Nossa vida é lutar!”.

Ao homenageá-los, estendo a minha homenagem a todos que, como eles, não usam a idade e o tempo de luta como instrumentos de desistência. Muito tenho aprendido com esses bravos companheiros e companheiras.

Lutadoras como a professora Ana Lúcia, a professora Ubaldina, a professora Ângela, a professora Lúcia ( Maria Barroso ) e tantas outras mulheres guerreiras que não conhecem limite, nem dificuldade que as impeçam de construir parte significativa dessa história que já tem trinta anos, merecem nosso reconhecimento para que, através delas, possamos reconhecer a contribuição de todas as mulheres que educam e educaram o povo de Sergipe e somaram a essa tarefa educativa a tarefa militante. Aqui dedico o meu fraterno abraço a todas as professoras que enfrentam preconceitos, acumulam jornadas, acomodam as questões domésticas e da vida em geral, mas não abandonam o “campo de batalha”.

Quero, também, homenagear o presidente do SINTESE, o meu companheiro de luta professor Joel Almeida Santos, ele que assume a difícil e honrosa tarefa de coordenar e, juntamente com todos os demais companheiros e companheiras da direção, liderar as ações dessa entidade desafiadora e complexa.

Ao homenagear, neste pronunciamento, o professor Joel, eu não estendo essa homenagem apenas aos demais membros da direção executiva do SINTESE, mas a todo educador sergipano que luta por cidadania e que enfrenta condições adversas, quer seja pela sua condição étnica, quer seja pela sua origem popular. Somos muitos nestas condições. Mas somos fortes nos nossos ideais, por isso somos e seremos vitoriosos.

O SINTESE é assim, senhor presidente, a expressão da pluralidade do nosso povo. É aí, creio eu, que reside a nossa força. São lideranças e lutadores anônimos que não permitem que as nossas bandeiras deixem de tremular.

Seja num funcionário que muito cedo, muito jovem, se vai, deixando saudades. Seja num assessor que consegue ser a expressão viva da dureza e da ternura que Che Guevara tão bem defendeu que se unissem. Em tudo isso achamos lições, em tudo isso construímos suportes para transpor as barreiras que se interpõem entre nós e os nossos ideais.

Tem sido assim durante boa parte desses trinta anos. Assim é o SINTESE!

Por fim, senhor presidente, quero dizer que muito do que sou hoje está relacionado com a história dessa luta. E sei que ela terá muitas outras páginas a serem escritas, pelos antigos e novos lutadores que abraçam essa causa.

Eu, de minha parte, estarei sempre pronto para, daqui desta tribuna ou em qualquer espaço para o qual for convocado responder ao chamamento do meu sindicato. Parabéns ao SINTESE!

Parabéns aos educadores e educadoras sergipanos!

“Mas é doce morrer nesse mar de lembrar E nunca esquecer. Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria. Isso pra mim é viver!” (Djavan)

Iran Barbosa
Dep. Federal PT/SE