Economistas vêem enterro do neoliberalismo

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Henrique Gomes Batista, Cristiane Jungblut e Patrícia Duarte – Governo e economistas, incluindo ex-ministros da Fazenda que participaram ontem do seminário “Desenvolvimento econômico: crescimento e distribuição de renda” – em comemoração aos 200 anos da pasta -, consideraram acertada a ajuda financeira dada pelo governo dos Estados Unidos às duas gigantes de hipoteca americanas.

Suas declarações, porém, foram marcadas por alfinetadas e ironia ao chamado neoliberalismo que, na avaliação geral, trata-se de um modelo que acabou fracassando.

– É fantástico o país mais liberal do mundo ter que estatizar. Enterraram o neoliberalismo de maneira trágica. O nosso Proer (ajuda financeira aos bancos dada pelo governo brasileiro na década de 90) foi mais baratinho. E o nosso sistema bancário não está comprometido (com essa crise), o que é uma boa – disse a economista Maria da Conceição Tavares, uma das estrelas do PT.

Dilma: neoliberalismo nunca valeu para países ricos

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou que os países desenvolvidos nunca deixaram de fazer intervenções na economia para evitar ou minimizar crises.

– O neoliberalismo é uma política para os países em desenvolvimento. Essa história de neoliberalismo valia para nós e somente para nós. No mundo capitalista, desenvolvido, jamais houve isso – disse a ministra, acrescentando: – Em momento algum os estados nacionais dos países desenvolvidos foram enfraquecidos. Quando é que o sistema não recorreu para manter as condições da produção intactas ou pelo menos para minimizar crises? Nunca (o neoliberalismo) foi uma política para os países desenvolvidos, principalmente para os Estados Unidos, muito menos para Europa Ocidental ou o Japão.

Dilma lembrou a ajuda do governo americano ao Long Term Capital Managemment, em 1998, fundo de investimentos que quebrou depois da crise nos países asiáticos. Disse que não havia nada de fenomenal nesse procedimento e que, portanto, não é a primeira vez que os EUA agem dessa maneira.

Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o aporte financeiro de até US$200 bilhões às agências Freddie Mac e Fannie Mae serve para evitar um problema sistêmico e uma crise ainda maior, que poderia ser irreversível.

– O aporte do governo americano foi positivo, porque esses dois fundos juntos mobilizam mais de US$13 trilhões. Evitou-se que uma crise financeira grave se alastre e se torne ainda mais grave. Que em vez de 5 graus na escala Richter, vá para 7, 8 graus e aí comece a causar estragos irreversíveis, como a quebradeira de bancos e de empresas – afirmou o ministro.

Perguntado se isso não significa uma crise do neoliberalismo, Mantega desconversou, provocando risos:

– Acho que é o pragmatismo responsável.

O seminário reuniu ex-ministros da Fazenda, desde os que ocuparam a pasta recentemente até nomes que estiveram à sua frente há muitos anos. Hoje, são esperados outros ex-titulares da Fazenda, entre eles Pedro Malan, Ciro Gomes e Rubens Ricupero. O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não confirmou presença, mas pode gravar um depoimento.

Ciro ironiza: ‘um dia negro para nós, neoliberais’

Atual deputado e presidenciável, Ciro Gomes (PSB-CE) já esteve no seminário ontem e disse, às gargalhadas, que era “um dia negro para nós, neoliberais do planeta”. O também ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira disse que a ajuda americana aos dois fundos “decreta o fim do neoliberalismo”. Segundo ele, essa ideologia foi dominante nos últimos 30 anos.

– É uma coisa semelhante a 1930 (quando houve a Grande Depressão americana). E é mais uma comprovação muito forte de que os mercados não são auto-regulados e que, portanto, é fundamental haver uma intervenção do Estado para complementar e corrigir os mercados – disse Bresser.

Ele comentou, no entanto, que o Brasil não vai passar à margem e será atingido em menor grau.

– O grau de contágio estará nas exportações – enfatizou.

O ex-ministro Paulo Haddad disse que os EUA adotaram uma “atitude pragmática” e abriram mão da ideologia para evitar danos maiores.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, disse que as medidas do governo americano vão ajudar a diminuir a volatilidade nos mercados internacionais.