Paulo Freire e as armadilhas da hegemonia

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Roberto Efrem Filho

Está lá, nas “primeiras palavras”, escritas no outono de 1968, em Santiago, no Chile, durante o exílio do Regime Militar: “aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”. Está lá, desde o início da Pedagogia do Oprimido – seguramente, uma das mais importantes obras da esquerda brasileira – a principal escolha de Freire, aquela pela libertação dos homens oprimidos e das mulheres oprimidas. Está lá, mas porque vem sendo sistemicamente esquecida, essa escolha é o que pretendo com este texto relembrar.

A feitura da hegemonia se dá pela formação de consensos. Aquilo que é tido como “consenso” está aquém do debate. Considera-se pressuposto. Nele não se toca, ele não é discutível. Tal consenso não é um problema que demanda superação, não incita dúvidas. Provavelmente ele sequer é notado. Desse modo, os consensos hegemônicos guardam intimidade com o silêncio, ignoram as diferenças, mascaram a realidade de conflitos.

Sou parte de uma geração que conheceu (ou desconheceu) Paulo Freire como um consenso, aludido seja pelo Movimento dos(as) Trabalhadores(as) Rurais Sem-Terra, seja por agentes governamentais de direita ou por projetos financiados por organizações ligadas ao capital internacional. Lembro-me bem do estranhamento que me causava, no início de minha militância como educador popular, essa multiplicidade de sujeitos, por vezes historicamente antagônicos, citando Freire e sua pedagogia. Afinal, como poderia Paulo Freire, um socialista, ser utilizado como respaldo argumentativo para interesses tão diversos?

Dá-se que longe de transformá-lo num terrível inimigo – o que faz com Marx, por exemplo – a hegemonia confere a Freire atenção e relevância. Paulo Freire é respeitado como “um dos maiores educadores da história” ou “o autor de um rápido e eficaz método de alfabetização”. Cita-se Freire como alguém acima de quaisquer interesses ou divergências, numa tentativa, via de regra bem-sucedida, de cooptação do discurso freireano. Daí ser compreensível que a Fundação Ford e o Banco Mundial financiem projetos sociais que se utilizam da linguagem exercida por Freire. Inquestionável, ele serve de argumento de autoridade. Quem quer que cite Paulo Freire, parece legitimado a intervir no campo da educação.

Para dar cabo à transformação de Freire num consenso, a hegemonia opera em sua obra uma fragmentação, descontextualizando-a historicamente. Nessa operação, as “primeiras palavras” são afastadas, assim como a escolha de Freire pelos oprimidos é silenciada. A leitura de Freire conduzida pela hegemonia não revela que o educador faz referências a Marx, Lukács ou Fromm. Não trata da defesa freireana da práxis libertadora (um conceito evidentemente marxista), do “caráter eminentemente pedagógico da revolução”, ou da “dialogicidade” baseada no materialismo histórico-dialético.

Paulo Freire encontra-se então como um bem simbólico sob conflito. De fato, ocorre como se o MST citasse um Freire diferente daquele citado nos projetos financiados pela Fundação Ford. Vence o conflito aquele sujeito que consegue deter o poder de dizer o que disse Paulo Freire. A força hegemônica (ou a hegemonia) promove então a negação do conflito e, reciprocamente, a criação do consenso. No final, além de o Freire difundido no mundo ser o Freire da Fundação Ford, o Freire do MST é silenciado, esquecido.

Esse esquecimento é reproduzido inclusive por alguns setores da esquerda, fenômeno entendível através da aplicação do conceito de “hospedagem” do próprio Paulo Freire. Segundo Freire, os homens oprimidos e as mulheres oprimidas hospedam o sujeito opressor em si, o que não quer dizer – é bom salientar – que não existam opressores fora deles também. A identificação desses setores da esquerda com o “maior educador de todos os tempos da última semana” – feito dogma – impede seu reconhecimento com o educador revolucionário socialista.

Eu ser parte de uma geração que conheceu (ou desconheceu) Paulo Freire como um consenso é um fato umbilicalmente ligado àquele de eu ser parte de uma geração que leu Freire sem ler Marx, dada toda uma tendência, hegemonicamente construída, a considerar o marxismo algo ultrapassado, a rejeitá-lo por conta do regime soviético e a vincular a queda do muro de Berlim à queda do marxismo como um todo.

Nas comemorações dos 40 anos da Pedagogia do Oprimido – livro que talvez mais deixe clara a escolha feita pelo próprio Paulo Freire pelo “Freire do MST” em detrimento do “Freire da Fundação Ford” – enquanto a esquerda se reorganiza na América Latina e no mundo em nome da libertação e contra a opressão, faz-se momento de a minha geração e de todas as outras que hajam incorrido no mesmo equívoco histórico relembrarem o significado daquelas “primeiras palavras”.

A desmistificação de Paulo Freire como um consenso exige de nós o reconhecimento das contradições nas quais ele se insere e nas quais nós nos inserimos quando da sua leitura. O reconhecimento de que, como oprimidos(as), hospedamos o opressor, pode “contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora”. Esse reconhecimento, no entanto, não se dará em solidão. Para tanto, não esqueçamos de que o “Freire do MST” é necessariamente o Freire com o MST, com os homens e a mulheres do MST: com eles e elas sofrendo, mas, sobretudo com eles e elas lutando

 

Roberto Efrem Filho é mestrando em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)