O capitalismo científico

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Luís Carlos Lopes – As centenas de bilhões de dólares lançadas no mercado mundial para acalmar a crise econômico-financeira globalizada indicam a meta de um capitalismo com um mínimo de risco. As instituições podem cometer erros crassos. Os ciclos econômicos podem se esgotar. Não há problema. Os bancos centrais intervêm e ‘normalizam’ o mercado, usando o erário público. Azeita-se a máquina de fazer dinheiro, mesmo que não exista lastro ou que se tirem recursos que poderiam ser usados em programas sociais de distribuição de renda ou de segurança das comunidades mais pobres.

A acumulação de riquezas é tão grande, tanto nos países do chamado primeiro mundo, como nos ditos ‘emergentes’, que se pode desenhar o capitalismo assegurado pelos Estados nacionais contemporâneos. Quando a luz vermelha acende, basta gastar enormes reservas guardadas pelos bancos de Estado. Estas representam a acumulação dos lucros auferidos com a exploração do trabalho em escala mundial. Obviamente, que há limites, que as medidas recentes podem esbarrar em obstáculos mais poderosos e que nem todo o sistema consegue ser preservado. É preciso que caiam algumas fortalezas, para que o reino do capital permaneça em pé.

Diferentemente do grande crash de 1929, o mercado acionário ressuscita das cinzas em uma questão de horas. Isto não quer dizer que não possa afundar no passo seguinte. Sem sombra de dúvida, os efeitos do esgotamento do modelo só serão sentidos com maior força pelos endividados e desempregados. Banqueiros, industriais, comerciantes, rentistas e especuladores estarão preservados, no essencial. Não se verá nenhum optando pelo suicídio. Suas fortunas não virarão pó. Um ou outro será mais afetado. Contudo, o sistema lutará para permanecer funcionando e dando os imensos lucros de sempre.

A onda de choque, como em 1929, vem se propagando do centro para a periferia. Diferentemente daquela época, o grau de acumulação em todos os pontos do sistema é muito mais elevado. As formas de extrair a mais-valia nos dias que correm são infinitamente mais eficientes. Pode-se pilhar o que se acumulou em décadas e ‘salvar’ o que se arriscou há pouco tempo. Esta pilhagem é um risco, ainda desconhecido. Dependendo da evolução da crise, terão que ser tomadas medidas ainda mais fortes, tirando mais de quem tem muito pouco.

Estes acontecimentos derrubam os mitos neoliberais e conservadores. Mostra, mais uma vez, que os mercados são monstros desregrados e não-racionais. A ação do Estado é a única que pode tentar domar o monstro, mesmo sem o ferir de morte. Ao contrário, a perspectiva adotada é de tentar dar remédios paliativos, mas poderosos, mantendo tudo em seu lugar. O Estado não pode ser mínimo. O mercado não é capaz de sozinho regular os sistemas em que estão inseridos. As mentiras neoliberais se autodesmascaram nesta situação de crise, onde mais uma vez se vê as diferenças entre os centros e as periferias e a interligação mundial das economias, no sentido da dominação dos países ricos sobre os demais.

Por outro lado, uma luz de esperança aparece no horizonte. Se estes sistemas podem se movimentar tão rapidamente, produzindo resultados surpreendentes, a favor do capital, tal poderia ocorrer em sentido inverso. Os Estados nacionais que estão tentando suturar as chagas da crise financeira, dependendo da correlação das forças políticas no poder, poderiam, quiçá, fazer o motor da história girar em função do trabalho. O problema não é econômico e sim de ordem política. Quem está no poder determina para onde a história se dirige e a quem ela beneficiará.

Não se sabe qual será a reação das sociedades envolvidas. Mas, no rescaldo desta última crise global, a ordem política mundial está sendo seriamente afetada. É ingênuo pensar que o mundo de depois destes eventos será o mesmo. O que virá terá a marca do que hoje está se processando.