Que delícia de liberalismo!

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(Ernesto Germano Parés – 22 de setembro de 2008)  – “Cada pessoa,(…), deve ser primeira e principalmente deixada ao seu próprio cuidado (…)”. Esta defesa, expressa por Adam Smith em seu trabalho “Teoria dos Sentimentos Morais”, foi base para sua posterior teoria de uma “mão invisível” capaz de corrigir todos os problemas de um mercado absolutamente livre. Adam Smith posicionava-se contra qualquer forma de regulamentação por parte do Estado.

 

 

Tomando por base aqueles estudos, Friendrich von Hayek, o “pai” do neoliberalismo, escreveria em seu famoso livro que “Deveríamos permitir que as empresas privadas criassem, em regime de concorrência, suas próprias moedas e o público, representado pelo mercado, saberia acolher as boas e rejeitar as más. Os bancos centrais simplesmente desapareceriam, assim como os sistemas monetário e financeiro mundiais.”

 

Muito bonito, no papel. Desde a década de 1980 estamos ouvindo este discurso de que o Estado deve se retirar da economia e de que é melhor para a sociedade deixar que o próprio mercado regule suas atividades e leis. Margareth Tatcher, levando ao ponto máximo esta defesa da liberdade do mercado diante das instituições sociais, chegou a afirmar que “não existe sociedade, porque eu não vejo sociedade… eu vejo indivíduos!”

 

Mas todas estas “certezas” parecem estar desaparecendo em fumaça depois da “segunda-feira negra” (15 de setembro), quando o Banco Central dos EUA e o próprio governo foram obrigados a intervir no mercado para evitar uma crise que alguns analistas já comparam com a de 1929. Ouvido pela BBC, o professor de ciências políticas da Universidade de Princeton, Benjamin Barber, declarou que “Deixaram a Lehman Brothers quebrar, mas se outras forem levadas junto o governo intervirá e isto significa que meus impostos serão usados para salvar banqueiros que tomaram decisões arriscadas e equivocadas”. A crise foi tão séria que levou o próprio candidato republicano, um liberal de “carteirinha”, a declarar que, caso vença as eleições, iniciará imediatamente uma reforma para regular o mercado de capitais nos primeiros 100 dias de governo! Dito por um liberal, isto nos parece uma capitulação definitiva.

 

Mas as medidas não podiam esperar tanto. Na segunda-feira (15), o Banco Central estadunidense (FED) anunciou que convocara uma reunião e havia assegurado um “consórcio” de bancos privados que fariam uma “injeção” de emergência, no valor de 70 bilhões de dólares, no mercado internacional. Como diz o ditado: “amigos, amigos; negócios à parte”. É claro que os 10 grandes bancos (Bank of America, Barclays, Citibank, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, JP Morgan, Merril Lynch, Morgan Stanley e UBS) não iriam disponibilizar 7 milhões de dólares, cada um, sem a devida segurança.

 

O próximo passo, então, seria dar esta segurança aos bancos privados. E isto foi feito com – adivinhem – o dinheiro público, é claro! O mesmo FED acertou com os seis grandes bancos centrais (Banco Central do Japão, Banco Central Europeu, Banco Central do Reino Unido, Banco Central do Canadá e Banco Central da Suíça, além do próprio FED) uma mega operação para injetar novos dólares no mercado e garantir o investimento dos bancos privados. Não se sabe o total desta operação. Apenas que o próprio FED estaria injetando 180 bilhões e outros dois bancos centrais (o europeu e o inglês) entrariam com mais 80 bilhões cada um.

 

Para cobrir uma parte do “salvamento” e garantir que os bancos privados não sairiam sem algum lucro no final desta ciranda, o Tesouro dos EUA injetou mais 40 bilhões de dólares diretamente nos cofres do FED, na quarta-feira (17).

 

Nada disto deveria causar surpresa. Não foi a primeira e não será a última vez que o Estado – quer dizer, o dinheiro público – é levado a salvar empresas privadas. Só para lembrarmos os casos mais recentes, o governo Nixon lançou mão do orçamento público para salvar um dos ícones da indústria militar estadunidense, a Lockheed Aircraft; o “democrata” Jimmy Carter também usou o Tesouro para salvamento da Chrysler e do banco Farm Credit; mais recentemente, o próprio W. Bush conseguiu do Congresso uma ajuda de 15 bilhões de dólares para evitar a quebra das empresas aéreas depois do 11-S.

 

Com tanta intervenção assim, o que estaria pensando o príncipe dos liberais, Milton Friedman, se vivo estivesse? Logo Friedman, que em seus principais trabalhos afirmava que as causas da Grande Depressão foi o excesso de intervenção governamental, não sua falta, com dizia Keynes.

 

Mas os donos do capital não estão muito preocupados com as teorias, liberais ou não. Querem apenas a certeza de que manterão seus ganhos, com ou sem ajuda do Estado. Continuam berrando: “deixem-nos lucrar livremente, mas se estivermos em perigo venham nos ajudar!”

 

(Este artigo prossegue…)