Que delícia de liberalismo (4)

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Ernesto Germano – O final de semana seguinte ao 11 de setembro, depois da crise estadunidense chegar ao ponto de estalar sem que fosse mais possível que a imprensa continuasse tratando como uma coisa menor, foi marcado por uma importante reunião. Segundo os jornais, os dois “gerentes” da crise – Ben Bernanke (FED) e Henry Poulson (secretário do Tesouro) – convocaram para uma reunião no escritório do FED, em Nova Iorque, os principais patrões do sistema financeiro dos EUA. Ainda segundo os jornais, nesta reunião foram tomadas importantes decisões.

Nossa atenção, agora deve voltar-se para o primeiro ponto discutido e deliberado pelos presentes: abandonar a Lehman Brothers à sua própria sorte e permitir que a empresa que havia conquistado o maior prestígio financeiro do país, depois de 158 anos de atividades, com seus 25 mil empregados, naufragasse cinematograficamente.

Aqui eu gostaria de fazer um breve intervalo neste tema e lembrar um autor que marcou minha adolescência: Nelson Rodrigues. Teatrólogo e cronista esportivo, um assumido direitista que apoiou o golpe militar de 1964, mas foi também uma as mais brilhantes cabeças da nossa imprensa, criou imagens e personagens que ainda povoam minha lembrança. Uma das suas expressões, imortais, foi o “idiota da objetividade”. Nelson criou esta expressão para se referir aos jornalistas da sua época que ele achava frios, insensíveis e presos apenas a textos pré-programados. Ele criticava os jornalistas e “analistas” que reduziam tudo ao lógico, ao formal, ao que estava nos “scripts”. Um dia chegou a escrever que “Se o copy-desk já existisse naquele tempo, os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco”.

Pois é. Algumas pessoas, jornalistas e analistas, estão reduzindo o debate sobre a atual crise estadunidense a isto: o que está no script pronto que recebemos das grandes agências.

Volto, então, ao que estava escrevendo no início deste artigo. Para a reunião de Bernanke e Poulson com os magnatas do sistema financeiro estadunidense, o que poderia significar o emprego de 25 mil pessoas? Uma gota?

Resolvi pesquisar melhor este ângulo do problema e, consultando os jornais de lá, encontrei o que tanto me preocupava. Apenas no mês de agosto, o que precedeu o “big-bang” financeiro, 84 mil trabalhadores perderam o emprego no país!

Considerando os oito primeiros meses do ano, 605 mil pessoas ficaram desempregadas. Nos últimos doze meses (encerrados em agosto) mais de 2 milhões de cidadãos estavam amargando o que chamamos de “olho da rua”! Uma cifra preocupante para um país que se pretende locomotiva da economia mundial, não é?

Pois é. Em agosto, quando a crise ainda não tinha oficialmente estourado, os índices econômicos mostravam uma difícil situação para os trabalhadores da “grande nação do norte”: a produção industrial havia caído ao menor índice dos últimos três anos e as fábricas, minas e serviços públicos estavam produzindo 1,1% a menos. A produção automobilística, sempre a vitrine do capitalismo “made in USA”, havia despencado 12% no mês, maior queda em uma década!

No início do ano, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou um alerta dizendo que a crise que se anunciava nos mercados mundiais e a desaceleração na economia estavam ameaçando o emprego de, pelo menos, 5 milhões de pessoas no mundo. Faltando ainda três longos meses para 2008 chegar ao fim, esse número já está em muito superado. A Comissão Européia, principal organismo da União Européia, estima em mais de 16 milhões de desempregados só no bloco. Por enquanto, a taxa de desemprego está mantida em 6,8% em média nos 27 países, mas a expectativa é de que seja maior nos próximos meses.

Por mais de 20 anos ouvimos o mesmo discurso de que o Estado deve se retirar da economia. Durante todo este tempo vimos os vários governos neoliberais (Reagan, Thatcher, Kohl, Menem FHC, Pinochet e demais comparsas) desmantelando, item a item, os mecanismos reguladores da economia e as empresas públicas e estatais. Removeram praticamente todas as barreiras e limites para a sanha do “deus” mercado que deveria reinar livremente. Todos, ou quase todos, os obstáculos ao “deixar fazer, deixar passar” foram diligentemente removidos.

Porém, apesar deste discurso de que o Estado não deveria dar apoio nem servir para distribuir os bens da sociedade ou se preocupar com os trabalhadores que perdem seus empregos, os pensadores liberais defendiam (e defendem) que o Estado deve ser suficientemente forte para impedir o avanço dos sindicatos e das organizações sociais. Os sindicatos são vistos como uma das principais causas das crises porque, ao reivindicar salários (aumentos excessivos, como eles dizem) corroem a base da acumulação do capital e limitam o crescimento da economia. Milton Friedman chega a defender o que chamou de “uma boa legislação” contra os sindicatos porque estes interferem no funcionamento livre do mercado de trabalho.

E, neste ponto, volto aos “idiotas da objetividade” criados por Nelson Rodrigues. Eles não enxergam o que está além das sínteses que recebem das grandes agências noticiosas. Reproduzem em seus pensamentos o simplismo dos que reduziram os dez mandamentos a apenas cinco. Continuam limitando o debate a uma questão de intervenção ou não dos bancos centrais, se houve ou não especulação do mercado imobiliário ou se todo o problema é das hipotecas podres. E vão morrer agarrados a este discurso, porque outro não sobrou para eles.

Mas, uma coisa deve ficar bem clara neste momento: ao contrário do que os defensores do projeto neoliberal “ainda” tentam dizer, a crise não é uma questão apenas do mercado financeiro. Está também em perigo a economia real, aquela do nosso dia-a-dia, nacional e internacionalmente. As instituições e estruturas produtivas estão sendo violentamente atingidas pela crise.

(Este artigo continua)