Professor, quem somos nós?

66

 

Talvez, a priori, encontremo-nos carreando a arte de ensinar. Mas, se nos imiscuirmos na história da educação perceberemos facilmente que a igreja – notadamente na idade Média – fez isso (e há ainda quem o faça) com uma maestria incomparável. Catequizou, dizimou culturas e, por conseguinte, identidades (sob aplausos), em nome da arte de ensinar – em nome de Deus. E, ainda que discordemos dos procedimentos adotados, dentro daquilo que se propuseram alguns religiosos, o trabalho foi exitoso. Tanto isso é verdade que a cosmovisão que norteia as ações humanas nas sociedades ocidentais – até hoje! – é resultante, também, do trabalho jesuítico.

Alguns diriam que somos os detentores do conhecimento. Mas o conhecimento tem proprietário? Aquele a quem deram a paternidade da Filosofia, assevera que “O que eu sei é que nada sei.” Por outro lado, com a imensidão de informações e descobertas lideradas pela mídia e pelas ciências, respectivamente, é leviano qualquer profissional arvorar-se senhor do conhecimento. Ao contrário, com as especialidades à venda em shopping centers (praticamente) é cada vez mais plausível a afirmativa que diz que “sabe mais aquele que menos sabe”.

Diriam outros que somos educadores por excelência. No entanto, é bom trazer à baila que nenhum ser humano, por maiores que sejam sua competência, seus conhecimentos em Sociologia, Psicologia, práticas pedagógicas, faria um trabalho tão fidedigno quanto à mulher que protege seu filho no ventre por nove meses, que o amamenta por longos e longos dias; que permuta dias e noites; que se converte em trabalho, em sabedoria, em energia, em amor para doar ao seu filho.

Os mais modernos afirmariam que somos facilitadores (confesso que estes são os que mais me assustam). Facilitar é subtrair; é impedir que as habilidades do outro sejam buriladas, especializadas; é podar potencialidades e eclipsar competências. Observem o que os brinquedos eletrônicos e o controle remoto (que “facilitam”) fizeram com nossas crianças: reduziram a criatividade, limitaram a reflexão, o pensamento. Contribuiu para a criação de uma geração preguiçosa – e há quem acrescente a obesidade. E ser facilitador, parece-me, é reduzir a importância do professor. Caberiam aqui alguns questionamentos: Facilitadores de quê? E a serviço de quem? Fazer uso de estratégias que agucem a criticidade, a criatividade e a participação é tarefa vital do professor. Todavia, não deve converter-se em muleta para os estudantes – para o bem dos educandos e dos educadores. A educação deve voltar-se para a libertação dos sujeitos!

Então, professores, quem somos nós? Talvez nos encontremos analisando o espaço-tempo onde e quando não deve(ría)mos estar.

Não somos mães, pais, psicólogos, assistentes sociais, (super-heróis), simultaneamente, para acreditar, cegamente muitas vezes, que podemos resolver todos os problemas, de cunho psicológico e sócio-econômico que atravancam o desenvolvimento saudável de nossos estudantes. Devemos, obviamente, reconhecer que tais questões têm influência vital no rendimento, na desenvoltura, no engajamento de crianças e jovens nossos de cada dia. Devemos encontrar estratégias que minimizem (no maior grau possível) os efeitos destas questões, que têm raiz numa má distribuição de renda, numa concentração de terra e poder, num descaso político-educacional. Devemos construir espaços/tempos para discutir estas questões no chão da escola em nome da formação de cidadãos sensíveis, críticos, engajados – ativos! (Cada vez mais me convenço de que a escola deve transformar-se numa trincheira de combate às injustiças sociais).

Não somos (e ainda menos) professores-policiais, como diria Maria Tereza Nidelcof, a serviço da burguesia. Repetindo e conservando textos, projetos, pensares e fazeres que mantêm o status quo. Jamais devemos estar – não há hipótese que o justifique – a serviço de uma elite que exclui, discrimina, corrompe, subtrai verbas públicas para benefício pessoal, agride, mata. Mata? Mata quando não distribui renda e crianças no mundo inteiro morrem de fome. Mata quando destitui as comunidades “periféricas” de saneamento básico, água, luz, moradia e alimentação. Não duvidem: A violência não é propriedade natural do ser humano – segundo Rousseau, o homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe -, é conseqüência de descasos políticos que promovem a miserabilidade. E matam quando calam ou buscam procedimentos que silenciam os desfavorecidos; quando propagam uma igualdade social, um respeito cultural, uma isonomia constitucional e arquitetam, sorrateiramente, planos e leis que contrariam ferozmente a propaganda, a Lei. Matam pessoas, destroem sonhos.

Não somos obreiros de governos, denominações religiosas, facções político-partidárias, ideologias segregacionistas. As ideologias, assim como todo tecido cultural, são construídas. E cuidado: nesta indústria têxtil, o gerente, os teares, uma boa parte dos fios de algodão e até mesmo alguns tecelões podem pertencer à burguesia.

Então, professores, quem somos nós?

Somos, antes de tudo, instrumentadores. Somos aquele profissional que precisa compreender que “educação é uma forma de intervenção no mundo”(Paulo Freire). Somos agentes (e devemos ser) da construção de ágoras que promovam o debate público de questões que afligem a comunidade. Somos (e precisamos ser) alimentadores de sonhos, arautos da justiça, da igualdade, da liberdade. E para tanto, precisamos ser livres – isentos de qualquer grilhão que nos amarre a algo ou a alguém. Frisemos: isto não determina que não tenhamos postura política, identidade sócio-cultural. Ao contrário: Para compreender o mundo torna-se mister que nos situemos no espaço e no tempo, que nos reconheçamos enquanto sujeito do processo de construção da historia humana – atores de fato e não figurantes. Não podemos, em nome de um lócus confortável em que nos encontramos, tolher pensamentos, amputar cultura, alijar projetos, alienar pessoas. NÃO SOMOS OLEIROS; SIMILARES A JARDINEIROS É O QUE SOMOS.