O SINTESE e o céu de manoel

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No dia 07/10/2008 foi publicado no Jornal do Dia  um artigo  intitulado “ o jogo duplo dos dirigentes do SINTESE”, assinado pelo professor de história da rede estadual Manuel Alves do Prado Neto,  que ao analisar o que chama de contradições do Sintese, esqueceu-se de dizer que os escritos servem a toda sorte de interesses, e é correto e democrático dizer a quem servem. O professor Manoel Alves deveria se qualificar melhor, ele também é Diretor do Arquivo Público de Sergipe, órgão subordinado à Secretaria Estadual de Cultura.

No entanto, essa omissão provavelmente traga consigo bons propósitos. Uma humildade extremada, uma exaltação da nossa profissão, ou cometendo eu uma aleivosia, será que há uma tentativa de encobrir que quem encomendou o escrito foram amigos tão afeitos às provocações, ao ódio e ao desequilíbrio, e que, com muita facilidade, conseguiu ecoar em família, o desejo de encapar e levar ao céu do arquivo o bom Manoel?

Essa réplica não tem a pretensão de fomentar um debate tão somente com o professor Manoel, pois sei que embora dirigindo uma entidade aplaudida por milhares de educadores, há o João, a Maria, o Luís, o Pedro, a  Isabel, a…., que também pensam como ele. São os contratempos e a similaridade da vida, da arte e do amor tão exaltados no poema “quadrilha”, do eterno Carlos Drummond de Andrade.

No artigo somos chamados de seres repletos de  contradições, e  decerto as temos. É de fato amargo e doce, e compreensível defender o socialismo no capitalismo. Estranho seria defender o capitalismo e lutar contra o próprio, uma esquizofrenia, não pensas. Pois é, nascemos no capitalismo, sofremos todas as suas influências, seria impossível não contradizer, ou quer que nos suicidemos, ou melhor jogar-nos aos serafins.

Mas, que bom, você acertou, o Sintese forma quadros no estado burguês para defender o socialismo, e isso é extraordinário, é a capacidade que a classe trabalhadora tem de formar intelectuais orgânicos para fazer a defesa de interesses dessa mesma classe. Eu não tenho dúvida que formamos brilhantes quadros, intelectualmente preparados, dispostos ao bom debate, enraizados num projeto de transformação da sociedade. E essa é a razão da angústia, do desespero, da ira, que acomete até o nosso professor Manoel. Ao que nos parece o caminho das luas de Itabaianinha ao céu do arquivo público lhe provocou um êxtase de proporções imensuráveis.

Fiquei feliz em saber que lá do céu você acompanhou a caminhada de professores, parlamentares, estudantes na campanha eleitoral. Atentou-se até na quantidade, e qualificou as pessoas. Foi bonito de ver a garra e a emoção, e não menos belas as faixas. Assim, democraticamente, saímos às ruas em busca de votos. Eles não foram suficientes para garantir a eleição, mas dormimos o sono dos justos. Há alguns que não têm garra, nem emoção, nem militantes apoiando, nem faixas bonitas, mas têm dinheiro, e portanto, votos. Não serão esses os merecedores do espaço de poder?   Os seus padrinhos lhe informaram mal sobre a relação do Sintese com o “sindicato municipal” (sindipema), nunca e em tempo algum estivemos comandando o sindipema. Portanto, não há vitória nem derrota quando não há disputa.  

Caro Manoel o Sintese construiu uma das mais belas histórias da classe trabalhadora de Sergipe, isso porque sempre priorizamos o coletivo, a união, a mobilização, a organização. Por isso estamos tão enraizados e fortes, e estaremos muito mais, para desesperos de alguns. O  papel dos representantes dos professores no parlamento objetiva ampliar os espaços de interlocução com a sociedade para a disputa de projetos, pois mesmo em governo de caráter progressista a disputa de projetos estará sempre presente. E se há trabalhadores na esfera de governo, é porque o partido do atual governador é o partido dos trabalhadores, ou estou enganado? E nada melhor que os trabalhadores estando no governo ou não para construir ou cobrar ações que tragam verdadeiras transformações para a sociedade.

Os dirigentes do Sintese vão continuar defendendo o princípio da autonomia e independência do sindicato ao governo. Não somos contrários a governos, mas temos posições e projetos contrários.  Nutrimos a esperança de que o governo que aí está pode dar passos largos no sentido de avançar para construir um outro modelo de estado, mas também compreendemos que, para que isso ocorra, os trabalhadores de Sergipe poderão dar a sua contribuição, que não será nunca com a resignação ou a submissão, e sim, sendo atores importantes nesse processo.

Quanto aos cargos comissionados, estamos à vontade. O Sintese não reivindicou nem irá reivindicar nenhum. Mas compreendo que é legítimo os seus promotores reivindicarem mais. Talvez assim, a ira diminua. Ah! Cuide bem do arquivo público. Sei que é preciso fazer mágica, pois os recursos para o setor cultural rareiam dia-a-dia. Por favor, não seja um cargo comissionado resignado ou submisso. E como professor, participe das nossas assembléias, venha lutar conosco pela gestão democrática e pela implantação do piso salarial nacional. Sei que você não gosta dos nossos discursos, ao menos temporariamente, mas o espaço estará aberto ao contraponto. Hoje é o nosso dia, o dia do professor. Batemos palmas para todos nós.

Um abraço,

Joel Almeida

Professor de  literatura brasileira do Colégio Estadual Governador Valadares

Presidente do SINTESE