Algo para pensar… e aguardar.

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(Ernesto Germano Parés – 16 de outubro de 2008)

Recordando as antigas “máximas” do Barão de Itararé, acordei com a estranha sensação de que “há algo no ar além dos aviões de carreira”! Durante todo o dia li jornais, vi matérias na internet e procurei avidamente por alguma coisa além do que a mídia oficial deixa transparecer.

E nada me tranqüilizava ou me fazia acreditar que tudo estava explicado por uma questão de dólares mal investidos ou de falta (ou excesso) de regulamentação no mercado financeiro.

Já declarei, em mais de uma oportunidade, que não vejo a atual crise do modelo neoliberal como uma questão restrita ao setor financeiro ou ao julgamento sobre a personalidade de um ou outro diretor dos grandes bancos que agora quebram escandalosamente. O fato da Noruega, um país que eu sempre imaginei como exportador de bacalhau, ter que injetar 57 bilhões de dólares na sua rede bancária para evitar a quebra geral é uma novidade, mas também não explica a minha inquietação. Eu precisava continuar a buscar alguma outra informação que completasse a cena.

Segui na minha busca por informações. O importante, agora, é juntar as notícias como peças de um quebra-cabeça. O jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 13, trouxe uma interessante informação: “Europa vai garantir dívidas bancárias por até 5 anos”! Parei para pensar. Quantos anos o fabricante do meu computador me deu de garantia? E os fabricantes de automóvel? Qual é a garantia de um televisor? Será justo que os governos europeus tenham assegurado aos bancos uma garantia de cinco anos? O discurso do capacho Sarkozy é claro.

Ele diz que “a proposta foi debatida pelos países que usam o euro e estabelece uma garantia das dívidas futuras de seus bancos, para encorajar empréstimos e aliviar a restrição ao crédito (…) pelos próximos cinco anos”!

A informação é chocante, certamente capaz de indignar, mas ainda não me atendia. A máxima do Barão voltou a me perturbar: “Há algo no ar…”

Então deparei com uma matéria que realmente me mostrou “algo além dos aviões de carreira”.

Uma curta e intrigante denúncia feita por Linda Sandler no dia 27 de setembro passado.[1] Em uma nota curta, Linda dizia que a tristemente famosa Lehman Brothers, poucos meses antes da sua quebra e do escândalo que ainda abala os EUA, sacou de sua própria conta um pouco mais de 400 bilhões de dólares e repassou a bancos em Israel!

A jornalista nomeia os beneficiados: Grupo Hapoalim, Banco Leumi e Israel Discount Bank. Três, apenas três, bancos israelenses receberam e creditaram os 400 bilhões de dólares repassados pela Lehman Brothers.

Vejamos. O Grupo Hapoalim pertenceu ao conhecido direitista Ted Arison, que viveu em Miami e financiou os grupos anti-castristas. Nascido em Tel Aviv, comprou o Hapoalim em 1997, por 1 bilhão de dólares, durante o programa israelense de privatizações. Ao morrer, deixou seus bens para os filhos Micky Arison e Sharin Arison, que administram o grupo, hoje considerado o primeiro banco privado de Israel.[2]

O Banco Leumi atua em 21 países e trabalha com fundos “hedges”, os mesmos que causaram a atual crise. Mas chama a atenção porque esteve, recentemente, envolvido em um escândalo sobre contratos fraudulentos com o Pentágono e com a CIA. O Banco Leumi tem contratos importantes com a empresa Halliburton, do atual vice-presidente estadunidense Dick Cheney e uma das principais beneficiadas com os contratos no Iraque depois da invasão.

Em matéria reproduzida pelo “O Estado de São Paulo”, em 17 de julho de 2002, o atual Premio Nobel de Economia escrevia (no The New York Times): “Por fim, há o desprezo pelos conflitos de interesse. Em Austin, capital do Texas, o governador Bush nada viu de errado em lucrar pessoalmente em um negócio com Tom Hicks. Em Washington, ele nada vê de errado nos contratos aparentemente suspeitos entre o Pentágono e a Halliburton, da qual o vice-presidente Dick Cheney foi diretor. Portanto, o estilo de Bush como presidente era facilmente previsível, dada a história de sua carreira.”

O Israel Discount Bank é o terceiro maior do país e, até 2007, era presidido por Matthew Bronfman[3], que teve que renunciar depois de várias acusações de suborno e “conflito de interesses”.

Então chego ao ponto que me deixou com esta impressão de que “falta algo”. O Iran!

Isto mesmo. Podem pensar que eu perdi o juízo de vez, mas esta é a questão que me assombrou. Lembrei de uma matéria que escrevi recentemente: só este ano, para manter a invasão do Iraque e do Afeganistão, o Pentágono projetou um gasto de 700 bilhões de dólares. Pois bem… a Lehman Brothers transferiu para Israel, pouco antes de “quebrar”, um valor que representa a metade do que os EUA gastaram em duas guerras. Isto num momento em que tanto falam em “armas de destruição em massa” que o Iran estaria produzindo.

Estariam preparando uma invasão do Iran, através de Israel, usando o mesmo dinheiro que agora causa o desequilíbrio do sistema financeiro? Vou aguardar os próximos lances deste jogo… mas muito preocupado com o que estamos deixando de conhecer.

 


[1] http://forums.therandirhodesshow.com/index.php?showtopic=11670

 

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Ted_Arison

[3] http://www.jornada.unam.mx/2008/10/12/index.php?section=opinion&article=012o1pol