Algo para pensar… e aguardar.

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Ernesto Germano Parés – 22 de outubro de 2008)

 

“Qualquer tentativa de qualquer força externa para obter o controle da região do Golfo Pérsico será encarada como um atentado aos interesses vitais dos Estados Unidos da América e este atentado será repelido por todos os meios, inclusive a força militar”. ( Brzezinski, 1987)

 

A afirmação é parte da chamada “doutrina Carter” (referência ao presidente estadunidense Jimmy Carter) e deixa clara a posição da Casa Branca com relação à região onde conta com um aliado “quase” confiável – a Arábia Saudita (1) – e outro fiel em qualquer situação: Israel.

 

E o que Carter não consegui fazer, ou concluir, os “falcões” resolveram por em prática. Vale lembrar o que escrevi, em abril de 2003, sobre o pensamento dominante no governo Bush:

 

“Nesta obra [Congress and the American Tradicion – 1959], James Burnham defende uma política agressiva para os EUA e critica as vacilações de Washington, na época, acusando de falta de vontade em usar o poder contra o inimigo. Defende que os Estados Unidos já detinham o poder econômico, o militar e o político, faltando apenas ‘vontade’ de usá-los para combater o mal do mundo. Burnham morreu em 1987, dois anos antes da ‘queda do muro’, mas parece que os atuais ‘falcões’ resolveram ter a ‘vontade’ de usar o poder que ele tanto reclamava”.

 

Ou seja, os “falcões” mostram a vontade de realmente ocupar a região que é de extrema importância para o modelo e para a hegemonia estadunidense. As duas invasões – Afeganistão e Iraque – mostraram ao mundo o objetivo de controlar o que já estava sendo chamado de “Grande Oriente Médio”.

 

Mas alguns dados não estão sendo considerados por alguns analistas e devemos voltar nossa atenção neste sentido.

 

Em junho de 2001, ameaçando o projeto de dominação da Casa Branca, surgia a “Organização para a Cooperação de Xangai” (Sanghai Co-operation Organization – SCO), composta por China, Rússia, Cazaquistão, Quirquistão, Tajiquistão e Uzbequistão. Quando lançado, seus objetivos declarados seriam promover a cooperação regional em assuntos políticos, econômicos, comerciais, culturais e técnico-científicos. Mas o documento de fundação falava claramente em promover a integração energética na região, além de questões como transporte e ambiente. Dá para ser mais claro?

 

Em junho de 2007, durante a reunião anual da Organização, foi formulado o convite oficial para o Irã integrar o grupo, o que estenderia esta integração para além do Mar Cáspio e o levaria ao Golfo Pérsico. (2) E agora podemos comparar estes mapas, com a integração da SCO, e o mapa apresentado por Michel Chossudovsky no seu trabalho “O corredor euro-asiático: A geopolítica dos pipelines e a nova guerra fria”.

 

E um outro “pequeno” detalhe nos chama a atenção: na mesma reunião em que convidaram o Irã para participar da Organização, os líderes aprovaram uma orientação para que os países que fazem parte do grupo expulsassem as bases militares estadunidenses que por acaso tivessem em seus territórios, medida prontamente acatada pelo Uzbequistão.

 

E voltamos ao 4 de junho de 2008, dia em que Obama foi declarar seu “amor eterno” a Israel. Naquela mesma noite, segundo a BBC, o primeiro-ministro israelense Ehud Olmert afirmou que “medidas drásticas são necessárias para evitar que o Irã consiga armas nucleares” e que iria “mostrar ao governo iraniano que poderá haver conseqüências devastadoras”. O vice-primeiro-ministro, Shaul Mofaz, foi ainda mais longe ao declarar que “ataques militares para impedir que o Irã desenvolva armas nucleares parecem ser inevitáveis”. (3)

 

No dia 23 de junho, curvando-se aos “pedidos” dos EUA e Israel, a União Européia anunciava o bloqueio das contas do banco Melli, iraniano, o maior do país e que tem divisões em Paris, Hamburgo e Londres.

 

A crise financeira estadunidense parece ter surpreendido um pouco. E aqui eu volto à notícia dada por Linda Sandler de que a Lehman Brothers teria sacado “de sua própria conta um pouco mais de 400 bilhões de dólares e repassou a bancos em Israel”. A matéria é datada do dia 27 de setembro e, curiosamente, no dia anterior o jornal “The Guardian” anunciava que Ehud Olmert havia “pedido autorização a Bush” para iniciar o ataque contra o Irã. (4)

 

Segundo o jornal, Bush teria “desaconselhado” um ataque naquele momento, alegando que um ataque do seu principal aliado ao país islâmico possivelmente geraria retaliações a pessoal e instalações americanas ao redor do mundo.

 

Mas devemos considerar que,em setembro, a fogueira da crise já estava acesa e que qualquer plano que estivesse em andamento teria que ser adiado. Não sabemos até que ponto estavam adiantados os projetos ou por quanto tempo será adiado. Mas, como disse no início deste artigo que nem deveria se alongar tanto: é algo para pensar e aguardar…

 

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(1) Sobre a Arábia Saudita ser ou não “confiável”, ver a opinião de Laurent Murawiec em meu artigo “O pensamento conservador”: “Ainda usando estudos e teorias de Lewis e Gellner, ele [Murawiec] demonstra que a família Saud domina a região com um poder ilimitado, a ponto de ter dado seu próprio nome para o país: Arábia Saudita. E havia também criado sua própria seita radical (o wahabismo) para combater as idéias comunistas e o avanço iraniano. Para Murawiec, no entanto, eles haviam já perdido o controle da situação”.

(2) No mapa incluído anteriormente e no que estou anexando agora.

(3) http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/06/080620_israelensaioirafn.shtml

(4) http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/09/080926_israel_ira_guardian_pu.shtml