O professor faz a diferença

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Vincent Defourny – Representante da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) no Brasil  

A valorização da carreira e da qualificação dos professores são componentes prioritários do ensino de alto nível oferecido pelas nações que alcançaram estágios mais avançados de desenvolvimento. Em países como o Canadá, a Bélgica, a Inglaterra ou a Finlândia, onde se registram alguns dos melhores desempenhos educacionais do mundo, o professor ocupa lugar central. Em estudo recente, produzido pela Consultoria McKinsey & Company (EUA), que analisou como os 20 melhores sistemas educacionais do mundo chegaram ao topo, a conclusão é clara: “A qualidade dos professores é a alavanca mais importante para melhorar os resultados dos alunos”.

O estudo McKinsey, que foi tema de um debate promovido pelo Movimento Todos pela Educação, em São Paulo, na véspera do Dia Nacional do Professor (15 de outubro), reforça o papel central na sociedade daquela que é uma das mais importantes profissões do mundo, sobre a qual pesa a responsabilidade de educar as crianças e jovens de uma nação. Segundo o estudo, os sistemas de alto desempenho não só investem na carreira de professor, mas também exigem formação de qualidade, administrando com cuidado o ingresso na profissão para manter o status elevado, pagam bons salários e posicionam o magistério como uma profissão de grande prestígio.

O tratamento dado ao professor é, sem dúvida, um bom termômetro para avaliar se o país está ou não fazendo a lição de casa rumo a uma educação de qualidade e a níveis mais adiantados de desenvolvimento. Na data em que se celebrou também o Dia Mundial do Professor (5 de outubro) abriu-se boa oportunidade para toda a sociedade — pais, alunos, professores, dirigentes educacionais e governantes — refletir sobre a situação de seus mestres e como ela está diretamente relacionada aos resultados do sistema educacional de cada país.

Será que os professores brasileiros estão motivados para exercer a profissão? Quantos realmente dominam práticas pedagógicas e conhecimentos adequados para fazer com que seus alunos aprendam? Como eles estão lidando com os conflitos em sala de aula? Para o país dar respostas positivas a questões cruciais como essas e atingir as metas de uma educação de qualidade para todos, faz-se necessário “melhorar o status, a auto-estima e o profissionalismo dos professores”, conforme compromisso estabelecido pelos países membros da Unesco, entre eles o Brasil, no Fórum Mundial de Educação de Dakar, em 2000.

No caso do Brasil, em que pese o quadro crítico dessa profissão que se arrasta há decênios — baixos salários, formação insuficiente e falta de reconhecimento à atividade —, despontam na atualidade duas perspectivas promissoras, que são a aprovação da lei do piso salarial e a criação do Sistema Nacional Público de Formação dos Professores. Ambas as medidas, a médio e longo prazos, poderão concorrer para a solução de um dos maiores desafios da política educacional brasileira.

Mas, mesmo que sejam atingidos avanços importantes relacionados à remuneração e à formação profissional, todo o esforço será em vão se a sociedade não for capaz de fazer da escola uma instância pública respeitada e valorizada por todos, dotada de um ambiente que cultive valores fundamentais para o nosso tempo, entre eles os da solidariedade, do respeito às diferenças e da aprendizagem. Relatório recente da Unesco sobre a qualidade do ensino na América Latina destaca que uma escola do século 21 não pode permitir nenhuma forma de violência ou de discriminação, que são fatores prejudiciais à qualidade do ensino.

Por isso, no instante em que o governo estabelece o Sistema Nacional de Formação, uma das questões que deve estar na mesa executiva da educação nacional é a de como formar e atrair profissionais qualificados para a escola de forma a interromper a tendência desvalorizadora da profissão docente e a banalização do ambiente escolar. Uma escola moderna não pode admitir, por exemplo, crimes como os que aconteceram, nos últimos meses, no Distrito Federal, em que um diretor foi morto com um tiro no peito, um professor foi espancado na frente da escola e uma coordenadora pedagógica teve uma arma apontada para sua cabeça por uma aluna que puxou três vezes o gatilho de um revólver descarregado. E, mais recentemente, o caso preocupante de uma professora acusada de segurar um aluno de 5 anos enquanto os colegas batiam no rosto dele.

Ter professores com boa formação, motivados e preparados para a solução pacífica de conflitos no ambiente escolar é, sem dúvida, um importante passo para atingirmos a utopia de uma escola de paz.