Alunos da 5ª série voltam à alfabetização

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Texto: Janaína Cruz – Jornal da Cidade

Cerca de 40 alunos que cursam a 5ª série do ensino fundamental na Escola Estadual Alceu Amoroso Lima, no conjunto Santa Tereza, estão sendo alfabetizados ao invés de estarem estudando disciplinas como geografia e história. A maioria das crianças passou da 1ª para a 5ª série por conta dos programas Se Liga e Acelera, que foram vendidos pelo Instituto Ayrton Senna ao governo de Sergipe em 2005. Os professores da escola estão fazendo um mutirão para ensinar os alunos a escrever, ler e fazer as quatro operações matemáticas básicas. Muitos pedagogos criticam os programas. Um livro sobre o assunto foi lançado quinta-feira, durante o congresso do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Sergipe (Sintese).

O professor Roberto Silva, da Escola Alceu Amoroso e também diretor de comunicação do Sintese, disse que haveria uma reprovação em massa caso os professores não tomassem essa medida. “Depois que nos reunimos e decidimos fazer um mutirão de alfabetização, chamamos os pais e explicamos que os filhos seriam reprovados porque estavam na 5ª série, mas não sabiam ler e nem escrever. Então, esta semana, remanejamos as turmas e abandonamos o conteúdo da 5ª série, que não estava sendo acompanhado, e estamos alfabetizando esses alunos”, contou Roberto. Sete professores de disciplinas da série, como geografia, português e história, participam do mutirão.

Roberto explicou, que o Se Liga e o Acelera foram instituídos com o objetivo de diminuir a distorção série-idade, mas que os dois pacotes estão formando “analfabetos funcionais” – pessoas que sabem identificar minimamente as letras, mas não conseguem interpretar textos, por exemplo. Dados conseguidos pelo Sintese mostraram que, em 2005, 35% dos alunos do Acelera liam com fluência e que este ano o número caiu para 4,8%. A estatística revela ainda que em 2005, quando os pacotes foram implantados, 41,1% dos alunos do Acelera escreviam textos e, atualmente, apenas 8,1% conseguem fazer isso. “Eles deixam a condição de analfabeto e pulam para 5ª série sem saber escrever o próprio nome, sem saber copiar o que está no quadro para o caderno”, critica Roberto.

Livro

As pedagogas e professoras da Universidade Federal de Sergipe Sônia Meire Azevedo e Lianna de Melo Torres fizeram uma pesquisa, em 2006, sobre os programas Se Liga e Acelera, do Instituto Ayrton Senna, e o Alfa e Beto, da editora mineira Educativa. Depois de analisarem o conteúdo, o projeto pedagógico dos programas e ouvir inúmeros professores, elas chegaram à conclusão que os pacotes não têm chance de corrigir a distorção série-idade. A pesquisa foi transformada no livro “Política Pública de Educação para Séries Iniciais – Estudo sobre os Programas Alfa e Beto, Se Liga e Acelera nas Escolas Públicas da Rede Estadual de Sergipe”, que foi lançado quinta-feira pela manhã durante o congresso do Sintese, no Iate Clube de Aracaju.

“Os programas são ineficazes. Nenhum pacote educacional dá certo porque tira do professor a capacidade de pensar”, ressaltou Lianna de Melo, que é doutoranda em Educação pela UFS.

Para ela, os programas deveriam ser extintos e substituídos por melhores condições de trabalho e formação continuada, principalmente na área da alfabetização. “O caminho dos programas é mais fácil. Enfrentar isso que defendemos é enfrentar uma problemática que envolve recursos. Não sabermos quanto o governo paga por esses pacotes. Assim não podemos nem saber se o Estado gastaria mais ou menos capacitando os professores e dando melhores condições de trabalho”, criticou Lianna.

As pesquisadoras acreditam que o material didático dos programas causou um “encantamento” em alguns professores, que quase nunca têm livros, papel, lápis e tintas para enriquecer o trabalho com os alunos. “Eles também disseram que os pacotes oferecem um acompanhamento pedagógico. Os professores precisam, no dia-a-dia, de alguém que os ouça e os ajude”, acrescentou Lianna. A professora Sônia Azevedo lembra que certos conteúdos trazidos nos livros do Se Liga e Acelera são preconceituosos, discriminatórios e não condizem com a realidade dos alunos.

“Só para citar um exemplo, o livro ensina que para descobrir o endereço de um lugar o aluno deve consultar o Guia 4 Rodas. Estão gestando um método genérico para um Brasil tão cheio de especificidades. Os programas pedem que os professores sejam criativos, mas ao mesmo tempo impedem que eles saiam do que determina o programa. Ou seja, exigem uma criatividade ideológica. Também colocam em dúvida a capacidade do professor de planejar, executar e avaliar seu próprio trabalho”, analisa Sônia, que é doutora em Educação pela UFRN.

Quanto aos dados revelados pelo Sintese em relação ao programa Acelera, as professoras dizem que eles precisam ser analisados mais a fundo. “Não sabemos que parâmetros de referência foram usados”, enfatizou Sônia. Ela revelou também que vários estudos na área de lingüística discutem a legitimidade do método Alfa e Beto. “Esse programa parte do princípio que não existe variação lingüística e usa uma relação direta entre letra e som. Mas especialistas afirmam que essa relação não é linear”, afirmou Sônia. As pesquisadoras acreditam que é necessária uma discussão ampla sobre o uso desses programas e que um conjunto de problemas sociais, econômicos e culturais também devem ser analisados.

Seed

A coordenadora estadual do Se Liga e Acelera, Adélia Santos, disse que em 2005, quando os programas foram implantados, o Sintese foi convocado para conhecer a metodologia e não fez qualquer questionamento. “O que acho curioso é que as professoras da UFS fizeram uma pesquisa e em nenhum momento procuraram a coordenação dos programas junto à Seed”, ressaltou Adélia, acrescentando que os programas apresentam uma metodologia diferenciada, mas os professores têm autonomia para enriquecer as aulas a partir do material que recebem do Instituto Ayrton Senna. “Nove Estados adotaram o programa e ninguém questionou o conteúdo. Está comprovado nacionalmente que os programas dão resultado. O Instituto Ayrton Senna não brinca em serviço”, enfatizou Adélia.

Quanto aos custos dos programas, Adélia informou que a única despesa do governo de Sergipe é com a capacitação inicial e continuada dos professores. Em relação aos dados divulgados pelo Sintese, Adélia disse que realmente foi constatado que houve um declínio de aprendizado entre os alunos que estão começando agora nos dois programas. No entanto, em uma avaliação recente entre os alunos da 5ª e 6ª séries remanescentes do Se Liga e Acelera ficou comprovado que eles estão acompanhando os conteúdos das turmas regulares. Adélia informou também que não tinha conhecimento do mutirão de alfabetização que está acontecendo na Escola Estadual Alceu Amoroso. “Vou procurar informações, mas acho estranho que 40 alunos oriundos dos programas estejam todos na mesma escola”, analisou.