Alguns legados de Rosa Luxemburg 90 anos depois do seu assassinato

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José Cristian Góes*

 

Mais de 100 anos depois, os pensamentos, idéias e principalmente as críticas de Rosa Luxemburgo, uma mulher fantástica, revolucionária por essência, ainda guardam bases para as produções intelectuais de hoje, mas especialmente para a prática revolucionária cotidiana. Seu legado é extraordinário.

Com a crise do capital mundial, os debates sobre as teorias marxistas ganharam novo fôlego. O Capital, por exemplo, é um campeão de vendas e leituras na Europa. Mas as incursões sobre novos modelos de superação de neoliberalismo também superam de longe algumas práticas ditatoriais de bolcheviques da velha Rússia.

 

Nesse sentido, Rosa Luxemburg é peça fundamental porque ela sempre defendeu a liberdade e a democracia como pressupostos fundamentais para uma sociedade socialista. Desde já é rigorosamente obrigatório despir-se de preconceitos e entender a conjuntura que ela estava inserida e é sobre essa condição que ela teve a coragem extraordinária de produzir.

Rosa, por exemplo, tinha uma confiança absoluta nas massas. Ela era uma fundamentalista da ação pedagógica dos proletariados, a partir de seus acertos e erros. Esse, segundo ela, era o primeiro passo para a construção de uma sociedade socialista. Os partidos e as demais organizações tinham suas importâncias, mas apenas para orientar.

 

O motor da história é movido pelos próprios trabalhadores e, nesse sentido, os Governos eram frutos dessa ação popular. Em outras palavras, para ela, o socialismo nasce das bases e não dos Governos. Para isso, segundo Rosa Luxemburg, são fundamentais a plena liberdade e a democracia. Esses princípios são extremamente caros hoje e que podem ser identificados como a necessária autonomia popular e das massas frente a institucionalidade.

 

Segundo uma das maiores pesquisadoras brasileiras sobre os pensamentos de Rosa Luxemburg, a professora da Unicamp, Isabel Loureiro, “para Luxemburg, assim como para os movimentos sociais de nossa época, é da participação dos de baixo que vem a esperança de mudar o mundo. Não apenas aos políticos profissionais – mesmo os de partidos de esquerda – está reservada a grande missão transformadora”.

 

A crítica que se faz a ela é que ela defendia, à sua época, que a movimentação das massas em direção ao socialismo deveria acontecer de forma espontânea. Ora, Rosa Luxemburg vivia a força de um partido social-democrata alemão altamente machista, burocrático e autoritário. Depois, com a revolução russa, ações de comandos bolcheviques também se constituíam em atos arbitrários sobre as massas para dar formatos.

 

É diante desse quadro que surgem as críticas de Rosa Luxemburg e a defesa da liberdade das massas como agente transformador para a construção de um espaço democrático, público, socialista e popular.

Um dos grandes legados dela é a defesa apaixonada e intransigente da formação de núcleos de poder popular, de conselhos de trabalhadores, de associações de moradores. Não tenho dúvidas nenhuma que Rosa Luxemburg é à base de toda experiência dos orçamentos participativos de hoje, guardadas as devidas proporções e manipulações; os conselhos de controle na educação, os conselheiros de saúde, de direitos humanos, etc, etc, etc… Mas esses conselhos, para ela, deveriam ter amplos poderes decisórios e não deviam estar atrelados aos aparelhos do Estado.

A professora Tatiana Rotolo, mestre em filosofia pela USP,  disse que o fundamental, neste aspecto, é criar espaços públicos em que homens e mulheres tenham o poder de decidir de modo mais incisivo e direto o que querem para si, nem que para isso seja necessário subverter a ordem institucional do Estado vigente (como fazem os zapatistas, por exemplo), e desta maneira fazer da política um instrumento de transformação real, que não se limita apenas às políticas sociais do Estado. Para ela, que defendeu uma tese sobre Rosa Luxemburg, “a emancipação das camadas populares só pode ser produto de sua própria ação, criando-se uma ordem política mais adaptada às suas necessidades”.

 

Em considerações profundamente certeiras e que depois se configuraram como um dos pontos vitais para entender as dificuldades reais do socialismo russo, Rosa Luxemburg advoga que o socialismo não pode ser imposto por decreto e muito menos conduzido por uma minoria, mas ele, necessariamente, deve ser fruto das ações das massas participantes, de forma democrática e livre.

 

Acusada de ser antimilitarista, Rosa é presa em 1916 e libertada em 8 de novembro de 1918, indo para Berlim, para participar da revolução que acabava de começar. Dirige o jornal Die Rote Fahne [A bandeira vermelha]. Ajuda a fundar o Partido Comunista Alemão, no dia 31 de dezembro, para o qual Rosa escreve o programa. Por isso, ela volta a ser presa. No dia 15 de janeiro de 1919, assim que é libertada é assassinada junto com o também revolucionário Karl Libknecht. O corpo de Rosa é jogado no canal Landwehr, só sendo encontrado em fins de junho.

*José Cristian Góes é jornalista, da direção do Sindijor/SE e da CUT/SE.