Atiremos os sapatos!

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José Cristian Góes*

Costumou-se a acreditar que o final do ano é o tempo mais propício para se desfazer de coisas. E deve ser mesmo. Tem alguma lógica. Limpam-se os baús, doam-se roupas, jogam-se fora as quinquilharias. Espanam-se o mausoléu do coração. Tudo com vistas ao novo ano. Refazem-se os teimosos planos, muitos que jamais serão atingidos. Bom, pelo menos se tenta. Final de ano é também tempo ideal de jogar os sapatos. Nada de deixá-los na janela abandonados a espera do nada e de ninguém. Sapatos foram feitos para serem atirados.

Nesta semana, por exemplo, um bravo jornalista iraquiano chamou atenção do mundo quando atirou seus sapatos contra o presidente dos Estados Unidos, George Bush. O jovem Muntazer AL-Zaidi participava de uma coletiva de imprensa em Bagdá, certamente a última de Bush no Iraque, quando retirou e arremessou os seus sapatos contra o presidente estadunidense. Pena que não acertou. Mas a ação corajosa do jornalista do canal de tv sunita Al Bagdadia foi acompanhada pelas frases: “vá embora seu cachorro maldito, você é responsável pela morte de milhares de iraquianos”.

Bendita ira santa daquele colega jornalista contra um algoz do seu povo. Há se jornalistas e outras pessoas daqui tivessem um milímetro de sua coragem e compromisso com seus irmãos.

Do lado de cá do mundo, atirar sapatos não passaria de uma agressão infantil, mas lá jogar os sapatos e chamar alguém de “cachorro” é uma gravíssima ofensa à honra, o pior dos piores desprezos. Mas o que fez Bush para merecer isso? Simplesmente comandou pessoalmente o maior massacre contra iraquianos, inclusive mulheres e crianças, desde a segunda guerra mundial. Não se tem números definitivos, mas organizações humanitárias acreditam que o exército mais sanguinário que a história já viu, o estadunidense com apoio de outros, teria matado cerca de 350 mil pessoas civis apenas no Iraque, sem falar do Afeganistão e de outras incursões no Oriente Médio. O que seria uma sapatada, quem nem pegou, diante desse mar de sangue no Iraque derramado a mando de Bush?

Mas não é só isso. Os iraquianos que conseguiram escapar das execuções do sanguinário exército do Bush foram absurdamente trancafiados numa base militar que os Estados Unidos mantêm em Guantánamo, em Cuba. Basta ser iraquiano, ter sobrevivido aos massacres em Bagdá e ter alguma suspeita de ligação com Al-Qaeda e os talibãs que vai direto para Guantánamo, inaugurada em 2002. Por aquele campo de concentração de espírito nazista, acredita-se que já passaram cerca de 2.500 homens, adultos e adolescentes. Tudo isso sem qualquer indiciamento ou procedimento ou processo legal. Desse total, apenas 21 teriam sido indiciados por crime de guerra e outros inúmeros estão desaparecidos. O que seria uma sapatada diante do terror desse praticado pelos Estados Unidos?

Sem dúvida alguma, George Bush entra para a história como um dos maiores líderes sanguinários dos tempos modernos. As sapatadas foram tão legítimas e expressam a vontade de milhões de pessoas em todo mundo. Milhares de iraquianos e mulçumanos de vários países saíram às ruas para apoiar e festejar a ação do jornalista Muntazer AL-Zaidi. Essas sapatadas muitos e muitos de nós queríamos dar. Mas antes de qualquer acusação de que aqui se defende à violência, não é nada disso. Atitude do jornalista é uma ação simbólica e antes de tudo patriótica e de legitima defesa. Os jornalistas brasileiros engajados na luta de  transformações no Brasil e América Latina devem se solidarizar com o colega Muntazer AL-Zaidi, autor de um gesto valente e destemido contra este inimigo da paz e da humanidade, George W. Bush, responsável pela ocupação do Iraque e por milhares de mortes naquele país.

Até ontem o jornalista iraquiano, depois de preso, ainda não via aparecido.

E no Brasil e em Sergipe, quem merecia umas boas sapatadas? O que diriam os movimentos sociais, os sindicatos, os trabalhadores, os desempregados? Certamente essa não é uma ação individual e nem centrada numa pessoa apenas, mas as sapatadas como uma símbolo do repúdio devem representar a vontade de muitos e o alvo não deve ser escolhido pelo que é ou somente pelo posto que ocupa, mas pelos massacres, sofrimentos, decepções, desesperança que produz.

Aos sapatos!

* José Cristian Góes é jornalista, da direção do Sindijor/SE e da CUT/SE