A crise e os países pobres: previsão de 400 mil mortos de fome

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“Se os doadores aproveitarem a crise econômica como desculpa para dar as costas às suas obrigações, uma crise já grave poderia se tornar catastrófica”. É a réplica, à distância de meses, da associação Action for Global Health [Ação para a Saúde Global] às afirmações de Robert Zoellick, diretor do Banco Mundial. Há alguns meses, Zoellick havia declarado que “a crescente recessão econômica, somada ao aumento dos preços dos produtos alimentares e dos combustíveis, tornará ainda mais difícil, para os governos dos países em via de desenvolvimento, proteger os pobres

A reportagem é de Rosaria Amato, publicada no jornal La Repubblica, 19-04-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E, ao invés, é justamente este o momento de defender os pobres: respeitar os compromissos assumidos é a melhor estratégia anticrise, é a tese que surge do relatório (apresentado por ocasião da Jornada da Saúde) da Ação para a Saúde Global, rede internacional que reúne 15 organizações não-governamentais que têm sede em Bruxelas e na França, Alemanha, Espanha, Reino Unido e Itália. “A saúde é um direito fundamental humano – recorda o relatório. Constitui também uma contribuição fundamental para a redução da pobreza, para o desenvolvimento social, para a segurança humana e para o crescimento econômico”.

A pobreza incide sobretudo sobre as mulheres. Pelo contrário, abandonar os países em vias de desenvolvimento significaria condenar à morte centenas de milhares de pessoas, sobretudo mulheres e crianças. A pobreza não é igual para todos, lembra a Ação para a Saúde Global: “Atualmente, no sul do mundo, a cada minuto uma mulher morre no parto. Para cada mulher que morre, 20 sofrem de invalidez ou doenças”. Ainda, “cerca de 75% das infecções do HIV na faixa de idade compreendida entre os 15 e 24 anos se referem às jovens mulheres”. “Cerca de 120 milhões de crianças e de mulheres são submetidas à mutilação dos genitais”.

E sobre a saúde das crianças. Mas a situação não é melhor para as crianças: “Uma criança que nasce em um país em vias de desenvolvimento já tem 13 vezes mais probabilidade de morrer do que uma criança nascida em um país industrializado”. Mas com a crise o risco de morte infantil se tornará mais elevado. “Calcula-se que a atual crise econômica comportará entre 200 mil e 400 mil mortes por ano, devido, em grande parte, à dramática piora da desnutrição infantil”.

Os Objetivos do Milênio. Uma sociedade sadia é capaz de ativar um círculo virtuoso do qual se beneficiam também as relações internacionais, lembra a Ação para a Saúde Global. E, então, é preciso evitar que a crise da saúde desemboque em uma catástrofe humanitária nos países em vias de desenvolvimento. E o único caminho, relembra a organização, é a de enfrentar os compromissos já assumidos, a partir dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, acordados em Nova Iorque em setembro de 2008, valorizando também a eventualidade de incrementar os financiamentos já garantidos. Particularmente com referência à saúde, os Objetivos assumidos são três: reduzir em dois terços a taxa de mortalidade infantil com menos de cinco anos; melhorar a saúde materna; combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças.

Segundo o Banco Mundial, lembra a organização, em 94 países em vias de desenvolvimento do total de 116 já está se verificando uma desaceleração do crescimento econômico, e apenas um quarto das nações mais vulneráveis possui os recursos necessários para prevenir um aumento da pobreza. E, por isso, “os 22 países mais pobres do mundo poderão necessitar neste ano, para resistir, de ajudas de 25 bilhões de dólares. Mas se a crise piorar além das previsões, essa cifra pode alcançar os 140 bilhões.

A posição da Itália. Frente a esses números, quais são os compromissos da Itália? O país, destaca a Ação para a Saúde Global, “sempre manteve o nível mais baixo de ajudas para o desenvolvimento entre os países examinados (com exceção de 2005, mas se tratava de cancelamento do débito)”. Não apenas isso: “o orçamento destinado ao desenvolvimento para 2009 conhecerá uma diminuição de 56% com relação ao de 2008, e é possível que a crise econômica comporte reduções ulteriores”.

A Itália, reconhece a organização, não é indiferente às exigências dos países em vias de desenvolvimento e, de fato, “é muito ativa na pesquisa e na experimentação dos mecanismos inovadores de financiamento”. Mas não é suficiente: o respeito aos compromissos econômicos assumidos em sede internacional é fundamental para a própria sobrevivência dos países mais pobres.

E, portanto – a Ação para a Saúde Global pede com força – a Itália deve respeitar os compromissos de contribuir com 2,5 bilhões de dólares (o equivalente a cerca de 1,9 bilhão de euros, distribuídos em 383 milhões de euros por ano a serem inseridos nas manobras financeiras dos próximos cinco anos) aos 60 bilhões de dólares destinados pela Cúpula do G8 de Toyako para a luta contra as doenças infecciosas e para reforçar a saúde, e com pelo menos 130 milhões de euros por ano para 2008, 2009 e 2010 para o Fundo Global de Luta contra a Aids, Tuberculose e Malária.

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