Estudou matemática, ensina educação física

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Letícia Lins e Odilon Rios*

Redes estaduais adotam as alternativas possíveis para suprir a carência de docentes

CAMARAJIBE (PE) e MACEIÓ. Não é difícil constatar a distorção apontada pela pesquisa do MEC, segundo a qual boa parte dos professores com diploma de nível superior não fez o curso adequado. Em Pernambuco, embora mais de 80% dos professores da rede oficial no estado tenham nível superior, muitos foram deslocados para disciplinas diferentes das licenciaturas. Um professor com especialização em matemática, por exemplo, dá aula de educação física no Colégio Estadual Laurindo Gomes, na Zona da Mata.

Em Camarajibe, na Região Metropolitana de Recife, Geziel Costa Campos, de 36 anos, apesar de ter habilitação para ensinar matemática, no ano passado foi obrigado a lecionar artes e educação ambiental no Colégio Estadual Frei Caneca. Ele é professor concursado do estado há quatro anos e dá aula também no Colégio Estadual Deputado Oscar Carneiro.

– Eles disseram que eu tinha que fazer isso para completar a carga horária. O problema é que não tenho formação em nenhuma das duas cadeiras. Como sou matemático, para lecionar artes terminei apelando para o desenho geométrico, como forma de não levar para a sala de aula nada fora do que eu sabia.

Para dar aula de educação ambiental, quem estaria habilitado seria um professor com licenciatura em geografia ou biologia.

– Como não tenho nenhuma dessas duas formações, levei assuntos atuais para a sala de aula, como o aquecimento global, a questão do lixo, a preservação da natureza – contou Geziel. – Tive que pesquisar bastante, perdi muito tempo. Normalmente levo meia hora para preparar uma aula de matemática, mas gastava quase quatro. Foi um sufoco.

Elba Cristina de Oliveira, de 29 anos, tem licenciatura em biologia, mas ensina química, física e matemática.

– Tenho certeza que o professor rende muito melhor quando ensina a disciplina para a qual foi preparado. Falta professor para determinadas matérias. A gente se desgasta um pouco mais, perde muito tempo pesquisando, e até consulta os professores de outras áreas – afirmou ela.

Em Maceió, as alunas Andressa Mayara, do 1º ano do ensino médio e Allany do Santos, do 3º ano, reclamam da falta de professores de física na Escola Estadual Alberto Torres, no bairro do Bebedouro, um dos mais antigos e populosos de Maceió. No bairro, existem quatro escolas estaduais. Nenhuma delas tem professor de física.

Diante do problema, as duas já planejaram como vão preencher as 200 questões das provas do novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que dará a elas a chance de entrar na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a única no estado a oferecer ensino superior gratuito:

– Vamos escolher as opções no dedo: “Mamãe mandou eu escolher essa daqui”.

Elas poderiam transferir a matrícula para o Colégio Estadual Bom Conselho, mas lá faltam professores de geografia, química e inglês.

* Especial para O GLOBO