A palavra não pronunciada. (I)

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(Ernesto Germano Parés – 03/06/09)

Durante mais de um mês, fomos mantidos em uma cruel expectativa como se aguardássemos o último capítulo de uma dessas tendenciosas e maldosas novelas da Globo. Os jornais nos cansaram com matérias tipo “GM pode pedir concordata”, “GM enfrenta dificuldades”, “GM busca acordo para sobreviver” e outras do gênero. E, enfim, o dia tão aguardado chegou.

Percorrendo as páginas dos nossos jornais, mais uma vez, fiquei espantado com a maneira como manipulam a informação para não permitir que os fatos mais importantes cheguem ao grande público. A começar pela matéria de Patrícia Campos Mello, publicada pelo “Estadão” no dia 31 de Maio. Sob o atrativo título “O fim do sonho americano…”, a tal jornalista escreve que “Alto custo da mão de obra, com benefícios generosos, foi um dos motivos para o declínio das montadoras nos EUA”. Certamente a matéria foi encomendada pelos grandes patrões de São Paulo que estão usando a crise do capitalismo para ameaçar trabalhadores e tentar impor acordos inescrupulosos.

Patrícia inicia sua matéria relatando acertadamente as dificuldades dos operários que perdem seus empregos e depois, sem qualquer escrúpulo, passa a culpar o próprio trabalhador dizendo que tinham salários “generosos” e que seus planos de saúde e aposentadoria foram culpados pela crise da empresa. Nem de longe, esta péssima profissional se preocupou em pesquisar sobre os acordos que estavam sendo feitos com a retirada progressiva desses direitos nos últimos anos. Nem por alto falou na realidade das montadoras nos EUA depois da globalização neoliberal, com fábricas inteiras sendo transferidas para outros países em busca de mão-de-obra mais barata. Esta sim, a raiz da crise estadunidense.

Mas, vamos seguir adiante. O que não encontrei na matéria do “Estadão” ou em qualquer outra foi a relação entre este monstro sagrado do capitalismo – a GM – e o governo dos EUA, passando pela quase incestuosa relação deste com os “sindicatos” locais. Sobre isto, falaremos em outro artigo.

Um pouco de luz começa a aparecer quando leio uma nota publicada pela Agência EFE (não sei se algum jornal brasileiro publicou) trazendo uma curta entrevista com Ken Lewenza, presidente do Canadian Auto Workers (CAW – sindicato canadense dos trabalhadores nas indústrias automobilísticas). Lewenza, falando que seu sindicato fez um acordo semelhante ao do sindicato estadunidense para tentar “salvar” a GM, deixa claro que “os governos canadense e da província de Ontário obrigaram o sindicato a aceitar novas concessões antes de 31 de maio, de modo a evitar o fechamento das fábricas da GM no Canadá. É a terceira vez nos últimos meses que a CAW negocia cortes com a montadora”. Vale destacar que o acordo do sindicato canadense aconteceu poucos dias depois do acordo do sindicato estadunidense, abrindo mão de uma boa parcela dos fundos de pensão e fundos de saúde dos trabalhadores da GM. Mas isto parece não ser do interesse da jornalista do “Estadão”.

Então é melhor continuar nossa pesquisa em vários jornais e agências. Em matéria da IAR Notícias (esta certamente não divulgada aqui), ficamos sabendo que o governo Barack Obama usou os mesmos argumentos que Bush usava para salvar bancos e “o Estado investirá 50 bilhões de dólares e passará a controlar 60% do capital da nova GM”. No Canadá, o Estado desembolsará 9,5 bilhões de dólares e terá 12% das ações. Mas as surpresas não param aí!

Lembram da entrevista do Lewenza, dizendo que os sindicatos foram obrigados a aceitar os acordos? Bem, lendo a matéria da Agência EFE descobrimos que, em troca de abrir mão dos fundos de pensão e de saúde dos aposentados, o sindicato estadunidense passará a controlar 17,5% das ações da GM!

Não é genial? Os governos dos dois países (EUA e Canadá) lançam mão do dinheiro público para se tornarem os principais acionistas da empresa e, “na onda”, arrastam os sindicatos locais para a aventura de salvação do símbolo da industrialização capitalista. Os dois Estados (EUA e Canadá), mais os sindicatos, terão 89,5% das ações da empresa!

Por fim, a pergunta que está engasgada: durante mais de vinte anos ouvimos falar da falência do Estado e da panacéia das privatizações. Por que as matérias dos nossos jornais não assumem o que aconteceu com a GM? Por que temem dizer que a empresa foi estatizada?

(Este artigo continua.)