A palavra não pronunciada. (II)

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(Ernesto Germano Parés – 04/06/09)

A primeira “experiência” conhecida do projeto neoliberal aconteceu no Chile, em 1973, quando os militares treinados na famosa Escola das Américas (leia-se CIA mais Pentágono) derrubaram um presidente legalmente eleito, Salvador Allende, e impuseram uma das mais sangrentas ditaduras na América Latina. Poucos lembram, mas pouco depois do golpe de Pinochet um certo senhor Milton Friedman transferia-se para o Chile com os seus conhecidos “chicago’s boys” para fazer as experiências neoliberais na economia chilena. Aliás, devemos também lembrar, pouco tempo depois este senhor foi “agraciado” com o Premio Nobel de Economia!

Entre as suas teses básicas, implantadas no Chile dos militares assassinos, estava a redução do papel do Estado e sua retirada de todos os setores da vida pública, incluindo aí a saúde, a educação e a previdência social.

O Chile foi um dos primeiros países no mundo a acabar com a Previdência Social Pública e estabelecer um sistema de previdência privada que, durante muitos anos, foi endeusado pela grande imprensa e pelos arautos do novo mundo liberal. A partir da imaginação desse senhor Friedman, os próprios trabalhadores deveriam ser responsáveis por suas previdências, através de poupanças que fariam “espontaneamente” e que seriam investidas nas bolsas de valores.

Vale lembrar que este mesmo senhor é autor de uma frase célebre. Em um dos seus livros ele escreve que “o que necessitamos é de uma boa lei que nos livre dos sindicatos de trabalhadores”.

Por que lembrar tudo isto?

No artigo anterior falamos que os sindicatos, estadunidense e canadense, foram pressionados pelos governos a fazerem concessões e acordos para salvar a General Motors. E que entre estes acordos estava abrir mão de uma parcela dos fundos de pensão dos trabalhadores, transformando o fundo em “acionista” da empresa.

Pois bem. Permitam-me lembrar alguns fatos bem recentes.

No dia 2 de Dezembro de 2001 a empresa estadunidense Enron entra com um “pedido de proteção da lei de quebras”, o mesmo agora usado pela GM. A Enron era simplesmente a sétima maior empresa dos Estados Unidos, o quinto monopólio mundial de energia e o maior comercializador de gás e eletricidade dos EUA! Na época, foi considerada a maior falência do país e seis comissões parlamentares foram montadas para tentar iludir o povo com uma imagem de que tudo estava sendo investigado.

Mas o que poucos sabem é que a direção da empresa manipulava o grupo que administrava o Fundo de Previdência Privada de seus trabalhadores. Ao todo, nada menos do que 2,1 bilhões de dólares!

Pois bem, por uma “estranha” coincidência, 60% do total do Fundo estavam investidos em ações da própria Enron! Entenderam? O Fundo dos trabalhadores estava sendo usado para maquiar o valor das ações da empresa! Com a falência, este valor virou fumaça. Em poucas palavras, os trabalhadores da Enron perderam seus empregos, seus salários e a aposentadoria.

Outro exemplo muito significativo vem a seguir. Em 2001, a WorldCom era dona de um terço de todos os cabos de dados (infovias) nos EUA. Além disso, era a segunda maior transmissora de dados de longa distância em 1998 e 2002. Em Julho de 2002 explode o pedido de falência da empresa e vamos descobrir que, também neste caso, o Fundo de Pensão dos trabalhadores estava quase todo investido na própria empresa!

E não podemos deixar de citar que a WorldCom era uma das acionistas da Embratel, após a sua privatização (1998). Certamente com o dinheiro do Fundo de Pensão dos seus trabalhados.

A lista é muito grande e o risco ainda existe. Para se ter uma idéia, cerca de 120 das maiores empresas estadunidense tem, pelo menos, um terço dos fundos de pensão de seus empregados em ações das próprias empresas: a General Electric tem 75%, e a Coca-Cola 78%, em ações.

E no Brasil nós sabemos que os Fundos de Pensão foram largamente utilizados pelo governo FHC para validar as privatizações.

Então, por que nossa imprensa não diz o que está acontecendo? A GM foi estatizada, sim, e fazendo um caminho inverso! O dinheiro dos trabalhadores foi usado para esta estatização, salvando o capital privado.

(Este artigo continua.)