A palavra não pronunciada. (III – Final)

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(Ernesto Germano Parés – 09/06/09)

Ao encerrar esta série de artigos (mas não o assunto que muito me apaixona) acho importante fazermos considerações sobre alguns números e informações deste agora “gigante estatal” estadunidense.

A General Motors, criada em 1908 e que agora desabou ruidosamente, já teve muito mais do que altíssimos lucros: já teve o poder nos EUA! Em 1953, sua influência na política estadunidense era tão grande que Dwight Eisenhower nomeou Charles E. Wilson, então presidente da GM, como Secretário de Defesa. E o tal Wilson, em pronunciamento no Senado, disse que “o que é bom para o país é bom para a GM e o que é bom para a GM é bom para o país”. Não devemos estranhar, então, que pouco mais de meio século depois, a empresa símbolo da pujança do país torne-se parte do Estado. Ou seja, transforme-se afinal em uma estatal.

Já nos seus primeiros anos de existência, engoliu outras empresas como Buick, Oldsmobile, Cadillac e GMC. Na segunda metade da década de 1920 comprou a inglesa Vauxhall e a alemã Opel. Em 1980 tinha mais de 600.000 empregados nos EUA e 250.000 no restante do mundo. Sua receita pulou de 62,7 bilhões de dólares, em 1981, para 123,6 bilhões de dólares em 1988 e a empresa já tinha diversificado sua produção fabricando desde ônibus até satélites e equipamentos militares. Em 2001, a GM era proprietária de várias marcas: Buick, Oldsmobile, Cadillac, GMC, Chevrolet, Vauxhall, Opel, Saab, Saturn, Daewoo e Hummer.

Mas é exatamente neste período dos últimos 20 anos que a GM começa a montar a armadilha que a levaria ao triste momento de “jogar a toalha” e assumir que a tal “mão invisível do mercado” não é tão poderosa e infalível assim.

Já na segunda metade dos anos 1980, seguindo a cartilha liberal da globalização e da busca por maiores lucros onde quer que estejam a GM iniciou um processo de reduzir suas fábricas em território estadunidense, transferindo as plantas industriais para países com mão-de-obra mais barata e mais dócil.

E, neste ponto, gostaríamos de fazer uma observação já assinalada por outros autores. Com o avanço da tecnologia, tornou-se mais fácil para as empresas transferirem suas fábricas de uma região para outra, de um país para outro, sem muitos custos. As antigas fábricas que conhecíamos, grandes e pesadas, foram substituídas por plantas altamente automatizadas, com máquinas de controle numérico e ocupando pouco espaço físico. Hoje, uma empresa pode se transferir de uma cidade para outra, de um continente para outro, sem muito problema.

E a GM abusou desta facilidade. Na verdade, as imagens que hoje vemos dos prédios abandonados na cidade de Detroit não surgiram em pouco menos de um ano (desde que a crise explodiu). Aquelas plantas industriais e linhas de produção já estavam sendo abandonadas há mais de 10 anos… desde a década de 1980!

Para finalizar este artigo, gostaria de retornar à matéria do “Estadão” que já citei. O artigo assinado pela senhora Patrícia Mello (assim mesmo, Mello com dois “eles”) termina com uma estranha (e absurda) afirmação. Ela diz que a GM ficou conhecida como “Generous Motors” porque era “muito generosa” com seus empregados: “um dos motivos para o declínio foi o alto custo da mão-de-obra sindicalizada, com benefícios generosos…”.

Reparem na maldade escondida nesta afirmação. Seguindo literalmente a “lei” liberal criada por Von Hayek, que afirmava que “o grande mal são os sindicatos que reivindicam ganhos para os trabalhadores e corroem as bases da acumulação do capital”, ela afirma que o problema da GM foram as conquistas dos trabalhadores sindicalizados.

Mas erra em todos os aspectos. Em primeiro lugar, porque os sindicatos estadunidenses são parte do sistema e, como demonstramos, abrem mão de direitos para salvar o patrão. Em segundo lugar porque a senhor Patrícia (de quem?) parece desconhecer alguns números básicos.

Senão, vejamos. Dos 243 mil funcionários que a GM tinha às vésperas da quebra, a UAW (United Workers of America – o sindicato dos trabalhadores da GM) representava apenas menos de 50 mil. Ou seja, perto de 20% do total de empregados! E devemos considerar também que a afirmação da jornalista “Mello” não considera que, nos EUA, menos 7% dos trabalhadores são sindicalizados. Isto mesmo, cara senhora! É o menor índice de sindicalização no planeta.

Portanto… o que vem sendo escondido pela nossa “imprensa” é que o Estado, este monstro que os neoliberais pintaram como ineficiente e enorme paquiderme, tem sido o grande salvador do sistema quando ele entrou em crise. A “mão invisível” pintada por Adam Smith não funcionou, mas o punho firme do Estado parece estar sendo a solução. Eis a palavra não pronunciada!