Manuel Zelaya, o retorno?

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Movimentos sociais convocam uma paralisação nacional, última cartada para pressionar pelo regresso do presidente deposto a seu cargo

Claudia Jardim enviada a Tegucigalpa (Honduras)

Na televisão não se fala “golpe”, mas sim “crise política”. Os jornais tratam Roberto Micheletti como presidente legítimo e atacam a “intransigência de Manuel Zelaya”, mandatário eleito em 2005, por não aceitar sua deposição. O apoio do Congresso, Igreja Católica e empresários ao governo golpista continua intacto.

Nas ruas, porém, o cenário muda. “Os golpistas pensam que estamos na década de 80, mas o povo despertou, os tempos são outros, já não temos venda nos olhos e vamos até o fim”, afirma María Bejarano, em uma manifestação pró-Zelaya.

No dia 21, as centrais sindicais e a Frente de Resistência Contra o Golpe convocaram um novo locaute nacional, que pode paralisar até um milhão de trabalhadores (a população hondurenha gira em torno de 7,5 milhões de habitantes). A mobilização pode ser vista como uma última cartada para preparar o regresso de Zelaya ao país e sua restituição à presidência do país.

Para Israel Solinas, secretário-geral da Confederação Única de Trabalhadores de Honduras (Cuth), a paralisação busca chamar a atenção da comunidade internacional sobre a gravidade da crise. “Queremos mandar uma mensagem à OEA [Organização dos Estados Americanos] e ao governo dos EUA, porque é necessário que tomem medidas contundentes que afetem esse governo. Caso contrário, não entregarão o poder e não sabemos o que pode acontecer”, afirma.

O isolamento do governo de turno em Honduras aumenta a cada dia. A União Europeia decidiu incrementar a pressão contra Micheletti ao cancelar o envio de 92 milhões de dólares previstos em um acordo de cooperação. Logo depois, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial suspenderam os empréstimos de cerca de 200 milhões de dólares estimados para este ano. A medida mais importante, no entanto, continua nas mãos do governo dos Estados Unidos, que até o fechamento desta edição (número 334), no dia 21, não havia adotado nenhuma sanção econômica contra o governo golpista.

Retorno

E é sob este clima que o presidente constitucional de Honduras pretende regressar ao país no dia 24. Zelaya, que corre contra o tempo, anunciou que deverá entrar por uma das fronteiras do país, onde será recebido por uma caravana de simpatizantes. É provável que ele entre pelo lado nicaraguense, onde, nos últimos dias, tem contado com o apoio do presidente deste país, Daniel Ortega.

Até o fechamento desta edição, não estava claro se Zelaya permaneceria na fronteira, para evitar o enfrentamento com as Forças Armadas (sob controle dos golpistas) ou se arriscaria a entrar, ainda sob o risco de ser preso. “Apesar da mobilização permanente da população, a situação é complicada, e cada dia que passa as possibilidades de que Zelaya recupere o poder diminuem”, afirma uma fonte ligada ao governo deposto.

A postura do governo interino em Honduras é “indeclinável”, reiterou o presidente golpista Roberto Micheletti, ao rejeitar a pressão que tem sofrido da comunidade internacional. Para tentar revertê-la em uma reunião com empresários e setores da sociedade civil, Micheletti pediu que fossem realizadas mobilizações a seu favor. “Façam as correspondentes manifestações para mostrar ao mundo que estamos unidos em um só bloco contra qualquer imposição, de qualquer país do mundo. Eles têm que nos respeitar”, afirmou.

Diante deste cenário, e após o fracasso das negociações na Costa Rica, que teve sua segunda rodada nos dias 18 e 19, Zelaya convocou seus simpatizantes a prepararem a resistência e seu retorno ao país. Apesar do clima pacífico das manifestações a seu favor, o presidente deposto não descartou a possibilidade de que a crise hondurenha possa culminar em uma guerra civil. “Qualquer pessoa que esteja em Honduras pode ver que já começou esse enfrentamento”, afirmou, em uma entrevista ao jornal argentino La Nación.

Tensão

No dia 20, durante protestos realizados em frente ao Congresso Nacional, uma hondurenha abordou, ofegante, a reportagem do Brasil de Fato: “Estão torturando uns meninos na esquina, corre, corre”. Foi em vão. Segundos depois, os jovens já haviam sido levados por um carro do Exército. A maioria dos manifestantes que esbravejavam contra os congressistas que referendaram o golpe não soube da detenção dos jovens.

Francisco Ríos, do Bloque Popular, organização que agrega forças da esquerda hondurenha, explica que, devido à pressão internacional, o governo de Micheletti tem evitado dar demonstrações de força. “Não há tanques de guerra nas ruas ou militarização exacerbada, como se pode esperar em um Estado de exceção em que vigora o toque de recolher. No entanto, os mecanismos de repressão estão aí, prontos para serem ativados quando necessário”, alerta.

De acordo com a organização Comitê de Familiares de Detidos e Desaparecidos, desde a deposição de Zelaya, foram realizadas mais de 1.500 detenções forçadas, e ao menos três pessoas foram mortas.

O golpe de Estado em Honduras tem sido visto como um precedente preocupante para a América Latina, cuja história foi marcada por quarteladas. “O golpe aqui, além de mostrar a incapacidade da classe política dirigente em solucionar seus conflitos, é também um alerta para a região e os seus diferentes governos de esquerda”, afirma Ríos. “Mais do que restituir Zelaya à presidência, a reação da comunidade internacional busca evitar que esse golpe se torne um precedente para saídas similares a outros conflitos”, conclui

Fonte: Agência Brasil de Fato