“Força Itália nasceu de um acordo com a máfia”

50

Massimo Ciancimino, filho do ex-prefeito de Palermo, declarou perante à Justiça italiana que o partido político criado por Silvio Berlusconi foi resultado de um acordo entre Estado e máfia

09/02/2010

do Página 12

O primeiro partido político criado por Silvio Berlusconi no início dos anos 1990, Força Itália, foi o resultado de um acordo entre o Estado e a máfia siciliana de Cosa Nostra, segundo declarou ontem (08) o filho do ex-prefeito de Palermo. As declarações do filho do político italiano foram feitas ante a uma corte de justiça e suscitaram fortes reações entre a classe política.

“Meu pai me contou que a Força Itália era o fruto de uma negociação entre o Estado e a máfia”, afirmou Massimo Ciancimino, filho de Vito Ciancimino, o polêmico político siciliano, líder local da outrora Democracia Cristã, que foi condenado pela Justiça por pertencer a Cosa Nostra. Massimo Ciancimino explicou isto ao depor como testemunha em um processo que acontece em Palermo contra o general dos Carabineiros Mario Mori. O ministro da Justiça. Angelino Alfano, desmentiu imediatamente as acusações pessoalmente. “Tenta-se desacreditar ao governo de Berlusconi, o qual tem lutado na linha de frente contra a Cosa Nostra”, declarou Alfano, também siciliano, recordando que militou no Força Itália desde 1994.

Segundo Ciancimino, que decidiu em 2009 revelar ante a Justiça informações reservadas da própria família, o pai negociou com a máfia um pacto de não agressão para por fim à onda de ataques e atentados perpetrados pela organização criminal, entre eles os assassinatos em 1992 dos dois prestigiosos juizes anti-máfia, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.

Força Itália, fundado em 1993 pelo magnata das comunicações Silvio Berlusconi e seu braço direito, o siciliano Marcello Dell’Utri, ganhou as eleições legislativas do ano seguinte, fazendo com que Berlusconi chegasse pela primeira vez à liderança do governo. Dell’Utri é o atual senador do Partido da Liberdade, surgido em 2008 da fusão do Força Itália com a Aliança Nacional.

O filho de Ciancimino, que apresentou documentos e cartas do pai, assegurou que o “capo” (chefe) mafioso Bernardo Provenzano enviou uma de suas famosas mensagens em código (pizzino) a seu pai Vito para que a entregasse a Berlusconi e Dell’Utri, na qual chegava a ameaçar aos filhos do atual premiê. “Penso dar minha contribuição, que não será pouca, para que não tenha lugar este triste acontecimento. Estou convencido de que Berlusconi poderá colocar à disposição de seus canais de televisão”, sustentou a testemunha.

O senador Dell’Utri acusou a Ciancimino de “inventar tudo e de estar a beira da loucura” e assegurou que o partido de Berlusconi não representava ao Estado nem estava em condições de oferecer ou negociar acordos desse tipo nesses anos. Dell’Utri anunciou igualmente que denunciará por difamação ao filho do ex-prefeito palermitano, que morreu em 2002 como símbolo de um dos escândalos mais graves da história dessa cidade e de ter protagonizado o chamado “saque de Palermo” pelos abusos imobiliários de Cosa Nostra nos anos 1970.

“Não acredito em nada do que disse Ciancimino. São declarações que acabam por desacreditar aos arrependidos, a aqueles que saem da organização e confessam tudo à Justiça”, os quais foram peças-chave para dar duros golpes à temida organização criminal, comentou o deputado europeu de esquerda Pino Arlacchi, entre os fundadores da direção Anti-máfia. “Força Itália foi uma exitosa operação comercial e política, muito sofisticada e seu triunfo não teve nada a ver com negociações entre máfia e Estado”, acrescentou.

Tradução: Michelle Amaral

Fonte: Agência Brasil de Fato