SP: 60 mil contra o desmonte do ensino

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Professores tomam a Paulista: “A greve continua, Serra a culpa é sua”


Entoando palavras de ordem como “A greve continua, Serra a culpa é sua” e “Somos todos professores, efetivos, temporários, contra a precarização, por trabalho e mais salário”, o magistério paulista voltou a tomar a avenida Paulista, nesta sexta-feira (19), contra a intransigência do desgoverno estadual e o desmonte do ensino.

Com a concentração marcada para o início da tarde no vão livre do MASP, as delegações foram chegando em caravanas de ônibus da capital e do interior trazidas pela Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo). Logo já eram 60 mil educadores tomando as duas faixas da Avenida Paulista para a realização da assembleia.

Esbanjando ironia e bom humor, os professores ergueram faixas e cartazes onde qualificavam o governador José Serra de “exterminador da educação”, “mentiroso” e “fujão”, terminologia também direcionada a seu secretário de Educação, Paulo Renato, notório ministro de FHC, que proliferou a privatização do ensino no país.

Além de não abrirem diálogo com a direção do movimento durante as duas semanas de greve – que chegou a paralisar 80% das escolas nesta sexta -, governador e secretário fugiram de atividades das quais deveriam participar para não ter de ouvir cobranças, nem dar explicações aos professores. “Ocorreu uma atividade perto da ponte do Jaraguá em que Serra iria e organizamos um comitê de recepção. Quando ele soube, não deu as caras. É um fujão, que não dialoga com a sociedade. Nós queremos negociação”, declarou a professora Nair P., de Português.

Professora de Matemática de Sorocaba, Marlene S. sintetizou o que acredita ser o motor do impasse: “o problema do Serra é que ele mente, como a questão dos dois professores por sala de aula que nunca existiu e a dos salários, que estão há 11 anos sem aumento. Faltam apenas nove dias para eu me aposentar, mas estou aqui porque o ensino público paulista não merece tamanho desrespeito”.

Enquanto entrevistava os professores, Serra se multiplicava em torno de mim. Como abutre, vampiro ou defunto, levado em caixões por dezenas de mãos que exorcizavam seus feitos: superlotação de salas, arrocho salarial de professores e funcionários, abandono e desestruturação de bibliotecas e laboratórios. Na lápide, ao lado de um dos caixões, o alerta contra o “morto-vivo”: “quem destruiu a educação não pode governar a nação”.

Muitos jovens, com faixas e bandeiras da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (UMES), expressavam o seu apoio ao movimento reivindicatório: “O professor é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo!”. Como explicou a presidenta da entidade, Ana Letícia, a solidariedade é total: “os professores estão tentando salvar a educação da destruição a que vem sendo submetida por uma política predatória, que mantém 100 mil professores em caráter temporário e em serviço precário”.

Ao som do batuque de tambores, estudantes vindos de Santo André também elevaram a voz: “Hoje são eles, amanhã seremos nós, professores, estudantes, nossa luta é uma só!”. Do alto dos prédios, papel picado, aplausos e sinais de aprovação, sempre retribuídos com acenos pelos manifestantes.

Aclamada pela mutidão, a presidenta da Apeoesp, Maria Izabel Azevedo Noronha (Bebel), condenou a postura autoritária e mentirosa adotada pelo governo estadual que, além de não negociar, manipula os números, falando em 1% de adesão da categoria. “Serra insiste em dizer que não há greve, mesmo assim, a cada assembleia, vemos que é cada vez maior o número de manifestantes. Ele diz que é uma greve política e tem razão, porque defendemos o partido do magistério paulista, pela melhoria das condições de ensino, de vida, trabalho, salário, respeito e dignidade”, sublinhou.

Na avaliação da dirigente da Apeoesp, a primeira semana de greve foi de conscientização; a segunda, de crescimento; e a terceira será de resistência, com o movimento se enraizando e paralisando todas as escolas.

A energia da manifestação se expressava não apenas pelo moral elevado, como pela sua imensidão. No momento em que a passeata dos professores já ia longe na avenida Consolação, ainda havia gente no Masp, com a massa compacta ocupando mais de um quilômetro. E foi assim que dezenas de milhares chegaram na Praça da República, onde está localizada a Secretaria de Educação, para presenciar uma nova fuga de Paulo Renato, que não deu as caras.

Diante do impasse, os professores decidiram que vão abandonar o “subordinado” e passar a negociar com o seu “chefe”: na próxima sexta-feira (26), vão marchar até o Palácio dos Bandeirantes para falar diretamente com o governador. O eixo da convocação do ato, para o qual estão convidados pais e alunos, é “Serra mente para o povo, a educação pede socorro”. Entre as principais reivindicações a reposição das perdas salariais, com o reajuste de 34,3%; incorporação de todas as gratificações, extensiva aos aposentados; plano de carreira justo; concurso público; garantia de emprego e contra as avaliações excludentes.

Em nome da executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), João Felício, ex-presidente da Apeoesp, reiterou a solidariedade e o compromisso de luta pela recuperação da escola pública. “Se hoje fizermos uma pesquisa séria no Estado de São Paulo, veremos que nenhum estudante quer ser professor. Isso ocorre pelo brutal abandono, porque ninguém agüenta o salário de miséria que vem sendo pago pelo estado mais rico do país, com a mais alta arrecadação de ICMS”, declarou. Segundo João Felício, “a verdade é que depois que os tucanos chegaram ao governo de São Paulo, o caos foi instalado na educação e os movimentos sociais foram criminalizados”.

O vice-presidente da CUT-SP e também ex-presidente da Apeoesp, Carlos Ramiro de Castro (Carlão), condenou o “trololó” dos tucanos e exortou os professores a ampliarem a convocação para o ato em frente ao Palácio dos Bandeirantes: “será a resposta do magistério público que não aceita o sucateamento da educação e exige respeito”.