Revoltas no mundo Árabe e as mudanças na Geopolítica do Oriente Médio e África do Norte

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A situação de exclusão social e miséria que vive a população árabe ficam evidenciadas nos recentes acontecimentos de amplas mobilizações sociais, com o povo nas ruas exigindo o fim de governos ditatoriais, corruptos e aliados das potências imperialistas ocidentais. Os habitantes do Norte da África (Magreb) e Oriente Médio têm em comum as péssimas condições de vida e a atuação predatória das grandes multinacionais petrolíferas ocidentais.

Apesar de todo esse poder econômico concentrado entre as nações árabes e os países ocidentais desenvolvidos (Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França entre outros) não foram capazes de barrar a onda de revoltas que toma conta de vários países ao mesmo tempo. A essas nações ocidentais interessa manter e apoiar as ditaduras árabes como condição para que tenham estabilidade e regimes fortes de modo que possam impedir que as pessoas migrem para as potencias ocidentais e garantam a exploração das fontes de petróleo existentes em seus territórios.

Todo comportamento das nações ocidentais em relação aos países árabes tem por trás os interesses nas ricas reservas petrolíferas. Quando o ditador Zine el Abidine Bem Ali da Tunísia ordenou que abrisse fogo contra grupos de jovens que protestavam por democracia, matando dezenas e os constantes desrespeitos aos direitos humanos no país nunca sofreu quaisquer tipo de repreensão das nações ocidentais.

As alianças dos governos locais com as empresas multinacionais das nações desenvolvidas deixaram o povo esquecido, fato que resultou nas revoltas populares em todo mundo árabe. Na Tunísia, o protesto de um vendedor de rua que ateou fogo no próprio corpo pelo fato de ser impedido pela polícia de vender seus produtos iniciou uma onda de protestos que derrubou o governo e influenciou os outros países. O cenário de desemprego e miséria foi o estopim para explodir manifestações populares que levaram o fim da ditadura na Tunísia e no Egito.

A partir daí registrou-se protestos em Argel capital da Argélia, no Marrocos o Rei impediu o aumento dos preços alimentícios e bens essenciais temendo as manifestações, mas não está adiantando, as manifestações estão acontecendo, principalmente pela internet. Protestos estão ocorrendo, também, na Síria, Arábia Saudita, Iêmen, Omã e Jordânia. Todos eles governos ditatoriais.

As organizações dessas manifestações estão sendo coordenadas através das redes sociais, principalmente pela juventude desde a classe pobre até a classe média atingidos pelo desemprego. A imprensa burguesa tenta classificar essas manifestações como escalada de violência por fundamentalismo islâmico, mas analistas árabes discordam dessa avaliação. Os manifestantes no Egito, na Tunísia e nas outras nações árabes são os sem-emprego e sem-moradia que vêem os alimentos cada vez mais caros e sentem-se vítimas desses governos autoritários-ditatoriais em função do crescente desemprego e da inflação.

No Egito, por exemplo, muitos grupos políticos colocados na clandestinidade por Mubarak estavam organizando os protestos, inclusive o partido comunista egípcio que tem grande influência entre os manifestantes. Mubarak governou o Egito soberano desde 1981 e assumiu o comando do país após o assassinato de Anwar Al Sadat prêmio Nobel da Paz em 1978.

Ao assumir o governo Mubarak, na época vice-presidente de Sadat, decretou Estado de Emergência, justificado pelo assassinato, entretanto esse cenário durou até os dias atuais. O Estado de Emergência foi o pretexto para implementação da ditadura no país. Assim Mubarak ficou no poder utilizando a imposição do medo, prisões, torturas e mortes contra o povo Egípcio. O ditador também utilizou o Estado de Emergência para colocar a oposição na ilegalidade. Esses partidos ressurgem agora com os protestos populares.

Segundo o Banco Mundial, o Egito importa 60% dos alimentos que ficaram mais caros nos últimos anos, dificultando o consumo para a maioria da população. Da população egípcia, 2/3 é formada por jovens de até 30 anos com o índice de desemprego de 90%. Em 2007 o desemprego no país era de 10% da população, entretanto em 2010 esse percentual pulou para 20%, situação que gerou as revoltas populares. Já a inflação saiu de 6,5% em 2007 para 12% em 2010.

O governo de Mubarak pouco investiu no desenvolvimento industrial do país que representa atualmente apenas 17% do PIB, colocando o Egito na condição de plena dependência de importação de produtos industrializados. A principal atividade econômica é o turismo e depois a extração e exportação de petróleo, administrados pelo Governo. O país apenas investiu nas forças armadas. O Egito possui um contingente de 500 mil homens um dos maiores do mundo e o mais importante dos países árabes. Enquanto isso, não houve quaisquer investimentos para garantir melhoria na qualidade de vida da população.

A Revolução de Jasmim na Tunísia foi um grande marco de luta contra a ditadura naquele país árabe, mas as manifestações no Egito ocultaram a vitória do povo tunisiano por democracia. Isso aconteceu em função da importância geopolítica do Egito para o mundo. O país é pobre em petróleo, mas sua importância está no fato da passagem desse produto pelo canal de Suez que liga a Europa ao Oriente Médio. Além disso, o Egito é capaz de influenciar os demais países árabes. O ditador egípcio Hosni Mubarak era importante aliado dos Estados Unidos, pois Mubarak não intervinha, por exemplo, no massacre de Israel contra o povo árabe palestino e isso interessava a Israel e Estados Unidos. Israel, por exemplo, foi o único país a defender Mubarak quando o mundo todo pedia sua saída do poder, com a intensificação das manifestações populares.

Essa subserviência egípcia aos Estados Unidos reside no fato dos estadunidenses assistirem a ditadura egípcia com dois bilhões de dólares anuais, ou seja, 60 bilhões de dólares nos 30 anos de Mubarak no poder. Tudo isso, para o país fechar os olhos as atrocidades dos Estados Unidos no Oriente Médio contra o povo árabe: Guerra do Golfo, Guerra do Afeganistão e Guerra do Iraque, bem como ter uma postura de fechar os olhos para os crimes cometidos por Israel contra o povo árabe palestino.