Como instalar um bicicletário?

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Com o aumento da quantidade de bicicletas em circulação nas grandes cidades brasileiras, e do número de interessados em trocar os congestionamentos e a emissão de poluentes por exercícios físicos e vento na cara, aumentam as discussões sobre como tornar as cidades mais amigas de quem pedala. Frentes parlamentares em prol de alternativas mais sustentáveis de mobilidade urbana que o transporte individual motorizado se formam, a exemplo da Frente em Defesa da Mobilidade Urbana, articulação pluripartidária criada em São Paulo. Cicloativistas se organizam institucionalmente para dialogar com outros setores da sociedade civil e pressionar o poder público. Bicicletadas nascem e/ou ganham força em todo o Brasil. As magrelas começam a ganhar espaço e respeito nas ruas.

Leia:
Cartilha do Ciclista Urbano da Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo
Orientações para a construção de
Bicicletários da Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo

A construção de bicicletários faz parte do pacote de melhorias ainda necessárias para que mudanças mais profundas aconteçam. Aprimorar a infraestrutura cicloviária não é só construir ciclovias isoladas – que, em vias rápidas e de fluxo intenso são necessárias e importantes. Apenas segregar o trânsito em alguns trechos não basta. Junto com outras medidas como diminuir a velocidade das ruas e incentivar o compartilhamento de pistas, a construção de estacionamentos adequados é importante para ajudar quem já usa e quem planeja adotar a bicicleta no dia a dia. E, aí, cabe não só ao poder público propiciar alternativas, mas também às empresas, centros comerciais, clubes, cinemas e todo tipo de estabelecimento em que há fluxo intenso de pessoas.

Este texto reúne informações para ajudar quem pretende instalar bicicletários. Há erros comuns, cometidos mesmo entre quem se mostra simpático à ideia de facilitar a vida de quem pedala. Portanto, é importante ter atenção com pontos como localização e formato. Além de consultar as dicas abaixo, ouvir os ciclistas que serão beneficiados costuma ser a melhor medida antes de implementar mudanças. 

Localização
Estacionamentos de bicicletas podem ser utilizados para tornar a entrada mais bonita e valorizar a imagem da empresa como um todo. “Com certeza um bom e bonito bicicletário pode servir para fins estéticos e também para denotar preocupação ambiental de uma empresa. Além é claro de, a exemplo do que aconteceu em estações de trem na região metropolitana de São Paulo, um bom bicicletário servir também para resolver os transtornos de bicicletas amarradas em postes, árvores e no mobiliário urbano”, explica João Lacerda, da organização não governamental Transporte Ativo, grupo que tem traduzido cartilhas com recomendações específicas.

Leia:
Diretrizes para estacionamento de bicicletas
– recomendações da Association of Pedestrian and Bicycle Professionals
Estacionamentos de bicicletas – recomendações da Sustrans, routes for people
Bicicletários, diagramas para construção e instalação – recomendações da Sustrans e APBP-USA
E consulte outras obras na
Bicicloteca da Transporte Ativo

De nada adianta construir um bom bicicletário afastado ou escondido. “Se o ciclista não souber da existência do bicicletário ou ele for de má qualidade e difícil acesso, a tendência é que as bicicletas continuem sendo estacionadas em lugares inadequados”, diz Lacerda. “O erro mais comum é adaptar um local sem preocupação de agradar ao ciclista. Por força de lei ou para atender a uma demanda interna, algumas empresas podem colocar um bicicletário em lugar distante, de difícil acesso ou simplesmente inadequado”, completa. Em algumas cidades, a instalação de estacionamentos adequados é lei. No município de São Paulo as leis 14.266 e 13.995 obrigam locais “com grande afluxo de pessoas” a terem bicicletários. Elas ainda não foram regulamentadas, porém.

Confira mapa coletivo de bicicletários e paraciclos em São Paulo

Visualizar Bicicletários, Paraciclos e Ciclovias em São Paulo em um mapa maior


Além de localização adequada, é preciso que o local esteja sinalizado e seja exclusivo para bicicletas. De nada adianta ter um bicicletário se ele for ocupado por motos. Outra preocupação importante é com o piso. Pedras e obstáculos podem afastar quem usa bicicletas com pneus mais finos.

Por último, é importante observar que as distâncias mínimas entre as estruturas instaladas devem ser adequadas à circulação das bicicletas e das pessoas. Nas ruas, os paraciclos, estruturas que servem como suporte, devem ser instalados de modo a não atrapalhar o fluxo de pedestres.

Formato
Bicicletários são formados por paraciclos, estruturas que podem ser encontrados em diversos formatos ou até mesmo personalizados. Em Nova Iorque, por exemplo, a prefeitura aproveitou a instalação de paraciclos para espalhar arte pela cidade, em uma ação conjunta com o músico e cicloativista David Byrne.

Os formatos podem variar e vale usar criatividade. Há, porém, algumas regras básicas para facilitar a vida dos ciclistas. Em linhas gerais, os modelos mais adequados são aqueles capazes de suportar diferentes tipos de bicicletas, incluindo as dobráveis mais baixas. Quanto mais fácil for encostar e amarrar a bicicleta, melhor a estrutura. Suportes do tipo em U invertido, como os instalados em São Paulo, possibilitam dois pontos de apoio e costumam agradar.

Outros modelos não costumam agradar. Entre as opções que costumam gerar dor de cabeça ou dificuldades, estão os conhecidos como “escorredor” ou “entorta roda”, nos quais apenas a roda da bicicleta mantém a bicicleta de pé, e os que não são afixados no chão, como as grades.



imagem do manual “Diretrizes para estacionamentos de bicicletas

Os modelos do tipo “gancho de açougue” também costumam ser criticados. Eles são desconfortáveis; o ciclista tem que erguer a bicicleta para conseguir estacioná-la – o que nem todos conseguem. Além disso, se a bicicleta fica muito tempo pendurada, a tendência é o pneu murchar.

 

Veja mais exemplos no superlevantamento que a Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis fez sobre o assunto

Custo
Um bom serralheiro pode fazer um bicicletário personalizado conforme a necessidade. “O custo é variável e pode ser quase zero se a empresa souber reaproveitar materias que seriam descartados como entulho. Como exemplo, foi o que a administração estadual no Rio de Janeiro fez no estádio do Maracanã, aproveitou o que antes era entulho para construir um bicicletário de qualidade. Por fim, é importante não pensar apenas no preço, já que um bicicletário ‘baratinho’ e mal localizado irá ficar subutilizado. Enquanto um que seja mais caro, irá ter um retorno melhor para o investimento”, avalia Lacerda, da Transporte Ativo.

No exterior, é possível encomendar bicicletários sofisticados, com armários e até chuveiros como o Green Pod da Penny Farthings. Por aqui, ainda são raros os modelos mais sofisticados e poucas empresas contam com instalações tão completas.

Avaliação
João Lacerda, Aline Cavalcante e Vitor Leal Pinheiro realizaram no final de agosto de 2011 uma inspeção nos bicicletários disponíveis na Avenida Paulista. O vídeo que segue abaixo repercutiu bastante e fez com que algumas empresas começassem a se mobilizar para melhorar a recepção para ciclistas. A Federação das Indústrias de São Paulo, por exemplo, anunciou que iria instalar cinco vagas no prédio após sofrer críticas.

“Acho louvável a instalação de bicicletários em qualquer espaço, ainda mais na paulista que é local de fluxo intenso de pessoas. Acho apenas que o número é baixo e a localização, com entrada pela Alameda Santos, não é, a princípio, convidativa ao ciclista. Mas é prematuro fazer qualquer avaliação antes da inauguração do espaço. Espero apenas que o vídeo tenha sido o “empurrãozinho” necessário e que no futuro o corpo de funcionários seja mais convidativo para com o ciclista”.